Todo mundo sabe que Sean Strickland saiu do UFC 328 com o cinturão dos médios em volta da cintura pela segunda vez. Como um azarão de +250 nas casas de apostas conseguiu desmontar o jogo de Khamzat Chimaev durante 25 minutos completos é a parte que merece atenção.
O que aconteceu nos bastidores antes do octógono acender
Nos dias que antecederam o UFC 328, o camp de Strickland apostou num plano específico: negar o clinch de Chimaev na grade e forçar a luta a permanecer no centro do octógono, onde o striking diferencial do americano pudesse operar. Com uma taxa histórica de takedown accuracy próxima de 49%, Chimaev entrou na luta como favorito justamente pela capacidade de controlar o adversário no chão e aplicar ground and pound de posição dominante. O camp de Strickland estudou esse número e construiu o gameplan em cima dele.
Chimaev, por sua vez, chegou ao card com cartel de 13 vitórias e 0 derrotas — até então. A equipe sueco-chechena treinou sprawl defense no adversário, mas o problema não estava no chão: estava nos pés.
O desempenho de Strickland e o colapso do jogo de Chimaev
Nos primeiros dois rounds, Chimaev tentou estabelecer o clinch três vezes e foi negado nas três. Strickland usou o movimento lateral clássico — footwork de boxing convencional — para sair do ângulo de entrada do russo-sueco e acumular volume de strikes no rosto. Ao final dos 25 minutos, o striking differential de Strickland foi positivo em todos os rounds segundo os dados do UFC Stats: 187 strikes significativos conectados contra 134 de Chimaev.
Resistiu.
No terceiro round, Chimaev conseguiu seu único takedown limpo da noite e manteve Strickland na grade por 1 minuto e 47 segundos — suficiente para ganhar o round nos cartões de dois dos três juízes. Mas o americano sobreviveu ao ground and pound sem sofrer dano acumulado grave, e nos rounds 4 e 5 voltou a controlar distância com o jab longo que é sua principal arma ofensiva. A decisão dividida (48-47, 47-48, 48-47) refletiu exatamente essa disputa de rounds cirúrgica, onde cada juiz pesou de forma diferente o único takedown de Chimaev contra o volume de striking de Strickland.
Na avaliação do SportNavo, o ponto técnico mais relevante da luta foi a capacidade de Strickland de manter o rear naked choke fora do radar: ele nunca foi ao chão de costas, o que eliminou o cenário mais perigoso contra um grappler da qualidade de Chimaev.
"Strickland mostrou que seu finish rate baixo — cerca de 38% na carreira — não é fraqueza. É estilo. Ele não precisa finalizar porque o volume o leva aos cartões", analisou Alexander K. Lee, do MMA Fighting, no podcast On To the Next One publicado após o evento.
A mesa de decisão da divisão dos médios após o UFC 328
Com o cinturão de volta, Strickland enfrenta ao menos três caminhos plausíveis. O primeiro e mais imediato é a revanche com Chimaev — que o próprio UFC tende a empurrar dado o nível de audiência gerado pela rivalidade. O segundo é Dricus du Plessis, que permanece ranqueado no topo da divisão e tem histórico de vitória sobre o próprio Strickland (foi justamente Du Plessis quem tirou o cinturão do americano pela primeira vez, em janeiro de 2024). O terceiro cenário envolve Israel Adesanya, ex-campeão com duas passagens pelo título, que mantém apelo comercial suficiente para justificar um main event de pay-per-view.
"Quem merece a próxima chance? Du Plessis está lá. Adesanya está lá. E Chimaev acabou de quase ganhar o cinturão. O UFC tem um problema bom para resolver", disse Mike Heck, do MMA Fighting, na mesma edição do podcast.
Já Chimaev enfrenta uma encruzilhada técnica. Com um cartel agora de 13-1 e a derrota vindo por decisão dividida — não por nocaute ou finalização —, o lutador de 30 anos tem argumentos para uma revanche imediata. Mas o UFC historicamente não concede rematches automáticos quando a luta foi competitiva e o resultado saiu nos cartões. A alternativa mais discutida nos bastidores é a migração para os meio-pesados (205 lbs), categoria onde Chimaev competiria com maior conforto de peso e onde seu wrestling e ground and pound teriam menos desvantagem de alcance contra adversários de estatura similar.
A divisão dos médios do UFC segue como a mais movimentada do momento: além dos três nomes já citados, Sean Brady e Alexander Volkov — ambos vencedores no card do UFC 328 — também entram no radar de possíveis desafiantes de segunda linha. A próxima defesa de Strickland deve ser anunciada nas próximas semanas, com Du Plessis como favorito para receber a ligação primeiro, dado que a vitória sobre o americano em 2024 ainda pesa na balança de obrigações esportivas da organização.
Uma divisão neste estado lembra uma composição musical que perdeu o compasso de referência: há muitas notas certas, mas ninguém ainda sabe ao certo em qual tempo o próximo acorde vai cair.








