Três coisas: decisão dividida, cinturão trocado de mão, e um perdedor que não quer aceitar a fila. Tudo o que aconteceu no Prudential Center em Newark, no dia 9 de maio, se explica a partir daí.
A noite em Newark e o que a decisão dividida realmente significou
Sean Strickland recuperou o cinturão dos médios no UFC 328 com uma vitória que vai dividir opiniões por meses. A decisão foi dividida — o que significa que pelo menos um juiz enxergou a luta diferente da maioria. Khamzat Chimaev pressionou nos rounds centrais com seu wrestling agressivo, mas Strickland usou o reach de 193 cm para manter distância e acumular volume no striking. No cômputo geral, o americano venceu. Ponto final.
Lembro de uma situação parecida em outubro de 2023, quando Strickland derrotou Israel Adesanya por decisão unânime e todo mundo ficou surpreso. Naquela noite, ele também foi subestimado, também trabalhou no jab, também controlou distância. A diferença agora é que Chimaev é um grappler de elite com wrestling defense de adversários acima da média — e Strickland ainda assim não deixou a luta ir para o chão de forma decisiva. Isso não é sorte. É estratégia executada.
Chimaev registrou 6 tentativas de takedown na luta, completando apenas 2. A taxa de defesa de takedown de Strickland, historicamente em torno de 72% na carreira, se sustentou quando mais importava. Esse dado isolado explica boa parte do placar.
Por que a revanche imediata é sedutora mas não é o caminho certo
Depois do evento, Dana White revelou que Chimaev havia mencionado uma possível subida para os meio-pesados. Parecia encerrado. Mas nos dias seguintes, o cenário mudou: Chimaev teria voltado atrás e demonstrado interesse exclusivo em uma revanche com Strickland, segundo informações circuladas após o UFC 328.
Entendo o apelo comercial. A primeira luta foi o maior evento do UFC em muito tempo. Dois dos lutadores mais populares do planeta, uma rivalidade com camadas reais de tensão, e uma decisão apertada. O UFC claramente quer repetir a dose.
"Uma decisão dividida não é uma injustiça — é uma luta equilibrada com um vencedor legítimo. O campeão não deve sua primeira defesa ao perdedor, deve ao ranking." — analista de MMA da ESPN Brasil
Concordo com essa visão. A luta foi próxima, mas não foi um roubo. Chimaev não foi dominado de forma esmagadora, mas também não foi vítima de uma injustiça que justifique pular a fila. Existem precedentes claros no UFC: quando a decisão é dividida mas não controversa, o ex-campeão volta para o ranking e precisa reconquistar sua posição. Foi assim com Robert Whittaker após perder para Adesanya em 2019. Foi assim com outros. A regra não deveria mudar por popularidade.
Nassourdine Imavov e o direito que o ranking construiu
Nassourdine Imavov é o nome mais lógico para desafiar Strickland agora. O francês-russo está invicto nos médios do UFC há mais de dois anos, acumulou vitórias sobre nomes relevantes da divisão, e tem uma animosidade real com Strickland — o que, no mundo do MMA, sempre ajuda na venda da luta.
Segundo apuração do SportNavo, Strickland chegou a declarar publicamente que quer dar oportunidade aos lutadores do topo do ranking — uma postura que vai na contramão da revanche imediata com Chimaev. Se o campeão sustenta essa posição, o UFC tem um argumento para construir Strickland vs. Imavov como próxima defesa.
O problema é que o UFC de 2026 não tem tomado decisões baseadas em mérito. A lógica comercial tem prevalecido sistematicamente sobre o ranking. Strickland vs. Chimaev 2 vende mais do que Strickland vs. Imavov — e isso, infelizmente, pesa mais do que a fila deveria pesar.
Chimaev nos meio-pesados e o que muda para a divisão
A alternativa de Chimaev subir para os 205 libras não é absurda. Ele sempre lutou pesado para os médios — seu frame físico sugere que a subida seria natural. Nos meio-pesados, encontraria uma divisão em ebulição, com Alex Poatan ainda como referência e nomes como Magomed Ankalaev e Jamahal Hill disputando posição.
Para a divisão dos médios, a saída de Chimaev abriria espaço para uma renovação real. Imavov como desafiante número um, com Dricus du Plessis e Sean Brady logo atrás, formaria uma fila competitiva e interessante. Strickland, que segundo relatos saiu do UFC 328 com uma série de lesões e pode ficar afastado por meses, teria tempo para se recuperar enquanto a divisão se reorganiza.
Mas se Chimaev insiste na revanche e o UFC cede, o ciclo se repete: o mesmo confronto, com os mesmos estilos, e provavelmente o mesmo resultado — porque Strickland já resolveu o problema do wrestling de Chimaev uma vez, e lutadores da sua categoria mental não costumam regredir taticamente entre lutas. A história de Whittaker vs. Adesanya 2, em 2022, mostrou exatamente isso: o rematch confirmou o resultado original com menos drama.
O UFC 328 encerrou um ciclo e abriu três caminhos ao mesmo tempo. A decisão sobre qual deles seguir vai definir a saúde da divisão dos médios pelos próximos 18 meses. Com Strickland lesionado e fora de ação por tempo indeterminado, vale acompanhar os próximos comunicados oficiais do UFC — a janela para definir o próximo desafiante deve se abrir nas próximas semanas, e o nome que aparecer primeiro no contrato vai dizer tudo sobre as prioridades reais da promoção.








