Dois títulos. Duas zebras. Zero remarchas de agenda. Três coisas: cartel, ranking e ginásio. Tudo o que define Sean Strickland se explica a partir daí.
Na noite de 9 de maio de 2026, no Prudential Center em Newark, Nova Jersey, Strickland fez o que poucos acreditavam possível pela segunda vez na vida: venceu um favorito absoluto por decisão dividida e saiu do octógono com o cinturão dos médios envolto na cintura. A vítima desta vez foi Khamzat Chimaev, que chegou ao UFC 328 carregando o título e uma aura de invencibilidade construída ao longo de anos. A decisão foi dividida — o que significa que nem todos os juízes viram a mesma luta —, mas o cinturão mudou de mãos, e isso é o único placar que importa na tabela histórica.
O número que resume a segunda era Strickland nos médios
Dois é o número que sintetiza a trajetória de Strickland na divisão dos 185 libras: dois cinturões conquistados, ambos como azarão, ambos por decisão. A primeira vez foi contra Israel Adesanya, no UFC 293, em setembro de 2023, em Sidney — uma das maiores surpresas da história recente do MMA. Perdeu o título para Dricus du Plessis na sequência, em janeiro de 2024, por decisão dividida. Depois passou por Du Plessis em uma revanche que não veio e precisou reconstruir o caminho pelo ranking até chegar a Chimaev. Cada derrota o devolveu ao ginásio. Cada retorno ao ginásio o trouxe de volta ao topo. Não à toa, na terça-feira seguinte à vitória, Strickland voltou ao Xtreme Couture — sua academia em Las Vegas — com o novo cinturão para mostrar aos companheiros de treino.
"Depois de cada derrota que tive, o fato de eu ter voltado ao ginásio é o motivo pelo qual tenho mais um desses filhos da puta", disse Strickland aos seus parceiros de treino.
A frase não é retórica. É a metodologia de trabalho de um lutador que, ao contrário da imagem pública que projeta, é descrito pelos próprios colegas como um dos companheiros mais comprometidos do elenco do Xtreme Couture.
O que a vitória sobre Chimaev representa para o legado do campeão
Quem vence dois cinturões como zebra em categorias de elite do UFC está, objetivamente, construindo um currículo para o Hall da Fama. A análise do SportNavo aponta que, historicamente, apenas um punhado de lutadores conquistou o mesmo título duas vezes por decisão, ambas como underdog — e nenhum deles deixou a divisão sem ser lembrado como uma anomalia estatística. Strickland é exatamente isso: um lutador cujo estilo boxeador de alto volume, baseado em jab constante e pressão de distância, não encanta juízes de forma unânime, mas acumula rounds suficientes para dividir — e às vezes vencer — qualquer placar.
No MMA, como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato. Strickland nunca teve o nocaute relâmpago de um Pereira, nem o wrestling dominante de um Usman. O que ele tem é volume, resistência e a capacidade de fazer o adversário lutar em um ritmo que não é o dele. Contra Chimaev — que é essencialmente um grappler de elite com poder de finalização —, essa fórmula funcionou pela segunda vez em confrontos de alto nível.
"Não é só meu cinturão, é nosso cinturão. Obrigado a todos os técnicos — não estaria aqui sem vocês", declarou Strickland durante a visita ao Xtreme Couture na terça-feira pós-UFC 328.
A declaração contrasta com a persona polêmica que Strickland cultiva nas redes sociais e em entrevistas. Fora do octógono, ele gera manchetes por razões que raramente têm a ver com MMA. Dentro do octógono e dentro do ginásio, a narrativa é outra.
O que vem a seguir para Strickland e os médios do UFC
Chimaev já sinalizou que quer a revanche imediata — postura padrão de ex-campeão que perde o título de forma controversa. A decisão dividida dá argumentos ao campo do cazaque para pleitear uma segunda oportunidade. Mas Strickland deixou claro que respeita o ranking e que o número 3 do ranking dos médios, Nassourdine Imavov, seria o próximo adversário lógico pela ordem da fila. Imavov, que venceu o próprio Strickland em janeiro de 2024 por decisão unânime, teria assim a chance de defender sua posição e disputar o título que escapou naquela noite.
Enquanto a divisão dos médios define seu próximo movimento, o Brasil acompanha de perto outro desdobramento: Rodolfo Bellato, o 'Trator', foi retirado do card do UFC Vegas 117, marcado para 16 de maio, sem que os motivos fossem oficialmente divulgados. Bellato enfrentaria Modestas Bukauskas no evento, mas seu lugar foi ocupado por Christian Edwards, ex-Bellator em sua estreia no UFC. A saída do paulista altera a configuração dos meio-pesados no card, que ainda conta com forte presença brasileira nas preliminares — Nicolle Caliari, Polyana Viana, Ketlen Vieira e Jacqueline Cavalcanti estão confirmadas —, além de Melquizael Costa na luta principal contra Arnold Allen nos penas.
O próximo passo de Strickland deve ser definido pelo UFC nas próximas semanas. Se a organização seguir o ranking — como o próprio campeão defende —, Imavov é o nome. Se ceder à pressão comercial de Chimaev, a revanche pode ser anunciada antes disso. O UFC 329 ainda não tem data confirmada, mas a divisão dos médios raramente fica parada quando o campeão se chama Sean Strickland.








