É um relógio suíço com pavio curto.

A metáfora serve perfeitamente para descrever o Leeds United que chegou à rodada 37 da Premier League 2025/26: um mecanismo de precisão construído por Daniel Farke ao longo dos últimos meses, capaz de encadear sete jogos de invencibilidade e marcar 11 gols nas últimas cinco rodadas — mas que agora enfrenta a possibilidade de perder simultaneamente o seu zagueiro mais consistente e o seu capitão. Pascal Struijk, com problema no quadril, e Ethan Ampadu, em dúvida por doença, são os dois nomes que concentram a ansiedade da torcida antes do confronto com o Brighton, neste domingo, às 15h (horário de Brasília), em Elland Road.

A narrativa de equipe completa não resistiu à última semana

A percepção que circulou após a virada de desempenho dos Whites era a de um elenco finalmente saudável e azeitado. Os dados sustentavam essa leitura: desde a difícil arrancada em que o Leeds perdeu oito, empatou dois e venceu apenas três dos primeiros 13 jogos, a equipe foi derrotada em somente quatro dos 23 jogos seguintes. A permanência na Premier League foi matematicamente confirmada antes mesmo da bola rolar na segunda-feira, quando o West Ham caiu diante do Arsenal. O empate por 1 a 1 com o Tottenham, no qual Dominic Calvert-Lewin converteu pênalti para chegar a 14 gols em todas as competições, parecia o encerramento perfeito de um ciclo de consolidação… e aí vem o problema.

Struijk foi escalado contra o Spurs apesar da dúvida prévia com o quadril, mas acabou substituído durante o jogo. Desde então, não retornou aos treinos. Ampadu, capitão e metrônomo do meio-campo, foi classificado pelo próprio Farke como "grande dúvida" por causa de uma indisposição. Somados aos desfalques já confirmados — Noah Okafor (panturrilha), Gabriel Gudmundsson (isquiotibial), Jayden Bogle (coxa) e Ilia Gruev (joelho) —, além da inelegibilidade de Facundo Buonanotte para enfrentar o clube que detém seus direitos, o Leeds chega ao jogo podendo ter sete jogadores fora da lista.

Farke precisa reconstruir a defesa e o miolo de campo ao mesmo tempo

O impacto tático é duplo e simultâneo, o que torna o cenário mais delicado do que uma simples ausência isolada. Na linha defensiva, a saída de Struijk força a entrada de Sebastiaan Bornauw no lado esquerdo do trio, ao lado de Jaka Bijol e Joe Rodon — a mesma configuração com que o Leeds terminou a partida em Tottenham. A dúvida maior está nas alas: sem Bogle e Gudmundsson, Daniel James aparece como candidato ao flanco direito, posição em que atuou contra o Spurs sem convencer. Sam Byram, que deve deixar o clube ao fim da temporada, jogou apenas sete minutos em todo o ano e seria uma aposta de alto risco para uma titularidade.

No meio-campo, a ausência de Ampadu abre espaço para Sean Longstaff, que não inicia uma partida na liga desde novembro. Ao Tanaka, em sua sétima titularidade consecutiva na Premier League, seria o pilar fixo ao lado do inglês. Anton Stach, autor do gol de longa distância contra o Burnley e com cinco tentos na temporada, deve manter sua posição no lado direito do setor ofensivo. A questão é se Brenden Aaronson segura o posto na esquerda ou cede lugar a Lukas Nmecha, que entrou bem no segundo tempo contra o Tottenham e acumula sete gols e três assistências em apenas 1.344 minutos disputados na temporada.

"Quero ficar aqui pelo maior tempo possível", disse Aaronson em entrevista recente, sinalizando o desejo de renovação — mas a decisão sobre sua titularidade contra o Brighton passa mais pelo critério tático de Farke do que por declarações públicas.

Brighton chega com motivação real enquanto o Leeds joga pelo legado da temporada

O contexto assimétrico é o elemento mais intrigante desta partida. O Leeds, 14º colocado com 44 pontos e oito à frente do West Ham na zona de rebaixamento, não tem mais nada matemático a perseguir. O Brighton, por sua vez, ocupa a 7ª posição com 53 pontos e ainda alimenta esperanças de Champions League — seja terminando em 5º, ou em 6º caso a Aston Villa vença a Liga Europa. Os Seagulls estão a dois pontos do Bournemouth, que joga contra o Manchester City na terça-feira, o que torna a vitória em Elland Road praticamente obrigatória para Fabian Hürzeler.

A narrativa de equipe completa não resistiu à última semana Struijk e Ampadu for
A narrativa de equipe completa não resistiu à última semana Struijk e Ampadu for

O histórico recente favorece os visitantes: o Brighton venceu os últimos oito confrontos diretos entre os clubes, incluindo o triunfo por 3 a 0 em novembro de 2025. Danny Welbeck, com 13 gols na Premier League nesta temporada — mesma marca de Calvert-Lewin, mas em dois jogos a mais —, lidera o ataque dos Seagulls. A equipe de Hürzeler chegou a esta rodada embalada por uma vitória por 3 a 0 sobre o Wolverhampton, após ter encerrado uma sequência de cinco jogos sem derrota diante do Newcastle.

"Temos que estar prontos para competir em todos os jogos que restam", afirmou Hürzeler em coletiva antes da viagem a Leeds, reforçando que o clube não tratará este duelo como mero protocolo de fim de temporada.

Para o Leeds, a partida tem outro tipo de valor. Farke transformou um clube que somou apenas 31 e 38 pontos nas duas últimas passagens pela Premier League em uma equipe que já ultrapassou ambas as marcas com dois jogos ainda por disputar. A torcida de Elland Road vai receber o time pela última vez em casa nesta edição do campeonato sabendo que a permanência foi conquistada com margem. Calvert-Lewin, Tanaka, Stach e Rodon devem ser os nomes mais ovacionados — mas a grande incógnita é se Ampadu terá condições de se despedir do estádio como titular, ou se o capitão precisará observar de fora o encerramento do ciclo que ajudou a construir.

Quem quiser acompanhar a definição das escalações e o possível retorno de Ampadu, vale gravar o jogo deste domingo — a última aparição do Leeds em Elland Road na temporada 2025/26 pode revelar muito sobre quem Farke pretende manter no elenco para o próximo ano na elite inglesa.