O silêncio é ensurdecedor. No centro de treinamento da CBF em Teresópolis, onde antes ecoava o nome de Neymar nos corredores, agora se ouve apenas o sussurro de uma nova era. A camisa 10 da Seleção Brasileira, por décadas símbolo de genialidade e pressão em doses iguais, ganha novos pretendentes enquanto seu último dono amarga o ostracismo.
A reviravolta aconteceu de forma silenciosa, mas definitiva. Após a última Data FIFA, fontes internas da CBF confirmaram que Neymar deixou de ser tratado como prioridade no projeto que mira a Copa do Mundo de 2026. O craque do Al-Hilal, aos 32 anos e com histórico recente de lesões, viu sua posição de intocável se transformar em interrogação.
O novo mapa do ataque brasileiro
Vinicius Jr. desponta como favorito natural. O ponta-esquerda do Real Madrid acumula números impressionantes: 24 gols e 11 assistências na temporada 2025-26, além de ter conquistado sua segunda Bola de Ouro em outubro. Nos gramados do Santiago Bernabéu, onde a pressão é medida em títulos de Champions League, Vini demonstrou a maturidade que faltava aos seus primeiros anos na Espanha.
Rodrygo surge como alternativa consistente. Com 19 gols e 8 assistências pelo Real Madrid na atual temporada, o atacante de 25 anos oferece versatilidade tática que agrada à comissão técnica. Capaz de atuar pelos dois flancos ou centralizado, representa o perfil de jogador moderno que Dorival Jr. busca para seu esquema.
A lista de 24 pré-convocados, divulgada discretamente pela CBF na semana passada, trouxe pistas reveladoras. Savinho, do Manchester City, aparece como aposta de futuro aos 22 anos. O extremo brasileiro registra 8 gols e 12 assistências na Premier League, números que chamaram atenção de Pep Guardiola e, consequentemente, dos observadores da Seleção.
A era pós-dependência de um craque
O vestiário da Seleção respira ares diferentes. Sem a figura centralizadora de Neymar, jovens talentos assumem responsabilidades que antes eram monopolizadas. Endrick, aos 19 anos, já demonstra personalidade para vestir camisas pesadas. No Real Madrid, mesmo com minutos limitados, o atacante mantém média de um gol a cada 89 minutos jogados.
Estêvão, joia do Palmeiras que se transfere para o Chelsea em julho, representa outra faceta desta nova geração. Com 12 gols e 9 assistências no Brasileirão 2025, o ponta de 18 anos exibe maturidade tática surpreendente para a idade. Nos treinos da Seleção de base, impressiona pela capacidade de criar jogadas em espaços reduzidos.
A mudança de filosofia vai além dos nomes. Dorival Jr. implementa um sistema menos dependente de individualidades geniais, priorizando movimentação coletiva e pressing alto. "Não queremos mais um jogador que resolva sozinho, mas sim um time que resolva junto", confidenciou um membro da comissão técnica durante o último período de treinos.
João Pedro, atacante do Brighton, surge como peça fundamental neste novo modelo. Com 16 gols na Premier League 2025-26, o centroavante de 24 anos oferece presença física que faltava às últimas versões da Seleção. Sua capacidade de segurar a bola e distribuir para os pontas pode ser chave no sistema de Dorival.
O peso da camisa 10 em questão
Resta saber quem herdará o número mais icônico do futebol brasileiro. Vinicius Jr. demonstra interesse, mas carrega a pressão de justificar a escolha em campo. Durante a última convocação, o jogador do Real Madrid foi visto conversando longamente com Ronaldinho Gaúcho, último grande dono da 10 antes de Neymar.
A CBF estuda até mesmo a possibilidade de "aposentar" temporariamente o número, estratégia adotada por outras seleções em momentos de transição. Argentina fez movimento similar após Maradona, deixando a 10 vaga por dois anos antes de entregá-la a Riquelme.
Estatisticamente, o Brasil não perdeu poder ofensivo sem Neymar. Nas últimas seis partidas sem o camisa 10, a Seleção marcou 14 gols, média de 2,3 por jogo. Com Neymar em campo nos 12 jogos anteriores, foram 18 gols, média de 1,5 por partida.
Os números revelam uma Seleção menos previsível taticamente. Adversários se preparavam para anular Neymar, deixando espaços para outros jogadores. Agora, sem referência fixa, as defesas enfrentam múltiplas ameaças simultâneas.
A Copa do Mundo de 2026 se aproxima com o Brasil vivendo sua maior renovação ofensiva desde 2006. Nos centros de treinamento espalhados pela Europa, jovens brasileiros trabalham com a certeza de que uma nova era começou. O futuro da Seleção não tem mais dono definido - tem candidatos dispostos a conquistá-lo.
Em Teresópolis, onde as decisões são tomadas longe dos holofotes, a CBF aposta que a genialidade individual pode ser substituída por talento coletivo. O tempo dirá se a estratégia funcionará quando as luzes dos estádios americanos se acenderem em 2026.

