Se a Copa do Mundo tivesse começado com a vitória sobre Gana — e não com as duas exibições sem convicção diante de Inglaterra e Panamá — ninguém teria questionado a sobrevivência da Croácia pós-Modric. O 2 a 1 na Filadélfia, neste sábado, respondeu de uma vez a pergunta que perseguia Zlatko Dalic desde que Luka Modric pendurou a chuteira da seleção: há vida depois do gênio de Zadar? A resposta veio de Petar Sucic, 22 anos, e de Nikola Vlasic, 27 — dois nomes que o torcedor europeu já conhece, mas que a Copa estava esperando apresentar ao mundo.

O número que define a nova Croácia

Seis pontos em três jogos — sendo dois dos três gols marcados no torneio obra de jogadores com menos de 28 anos. Esse dado simples encapsula a transição geracional que a seleção croata está negociando em tempo real. Para entender o peso disso, basta voltar a 2018: naquele Mundial russo, a Croácia chegou à final com uma espinha dorsal de trinta e poucos anos — Modric tinha 32, Rakitic 30, Mandzukic 32. Era um time construído sobre experiência acumulada durante décadas, capaz de sustentar pressão porque já havia sobrevivido a tudo. A geração de 2026 não tem esse capital emocional. Está construindo agora, jogo a jogo, dentro da própria competição.

O gol de Sucic aos 31 minutos do primeiro tempo — um chute rasteiro no cantinho esquerdo após receita de Mateo Kovacic — foi tecnicamente impecável, mas o que mais chamou atenção foi o contexto da jogada: a Croácia tinha passado 15 minutos sem criar nada diante de um Gana organizado em bloco baixo, e foi justamente no único momento em que arriscou pela faixa central que o gol saiu. É o tipo de leitura que Modric fazia instintivamente. Sucic a executou por instrução tática — o que é diferente, mas não necessariamente inferior.

Vlasic — atacante do Torino que carrega a herança técnica de uma família inteira de atletas croatas — entrou definitivamente no radar ao marcar o gol da vitória após o empate ganês de Luckassen, que foi validado depois de longa revisão do VAR. O timing psicológico do gol importa tanto quanto a qualidade da finalização: responder imediatamente a um gol sofrido é marca de equipes maduras, e a Croácia o fez sem Modric no campo para dictar o ritmo.

Dalic admite erros e reajusta a bússola tática

Raros são os treinadores que, na euforia pós-classificação, assumem publicamente que erraram. Zlatko Dalic foi um deles. Em entrevista à HTV, emissora croata, o técnico de 59 anos foi direto:

"Grande vitória, jogo difícil, mudamos a tática e o estilo de jogo e foi ótimo. Voltamos à formação antiga, como era há anos, e estamos de volta. Cometi alguns erros, a culpa é minha pelos dois primeiros jogos, esta sim é a Croácia de verdade."

A frase "voltamos à formação antiga" merece decodificação. Nos dois primeiros jogos, Dalic tentou um sistema mais conservador, provavelmente calculando que a ausência de Modric exigia prudência extra na fase de construção. O resultado foi uma Croácia estéril, incapaz de criar situações de perigo com consistência. Contra Gana, o técnico abriu mão da cautela e apostou num bloco mais alto, com transições rápidas — o estilo que levou o país ao terceiro lugar em 2022 no Catar. A mudança funcionou porque Kovacic, veterano dos três Mundiais croatas mais recentes, tem condições de conduzir esse jogo mesmo sem Modric ao lado.

Kovacic, aliás, também falou após o apito final, com a pragmaticidade que define seu perfil público:

"Depois do intervalo, sofremos um gol e as coisas ficaram um pouco complicadas. Sabíamos que tínhamos que ser mais fortes, marcamos após um escanteio e a vitória foi merecida, agora está tudo melhor. Sempre temos grupos difíceis, mas de alguma forma conseguimos passar."

"De alguma forma conseguimos passar" poderia ser o lema desta geração croata. Em 1998, quando o país chegou ao terceiro lugar pela primeira vez, havia um senso de descoberta — ninguém sabia exatamente até onde aquele time ia. Em 2018 e 2022, havia a consciência coletiva de que aquele ciclo era o pico de uma geração. Agora, em 2026, há algo mais difuso: a Croácia está aprendendo quem ela é sem o jogador que a definiu por duas décadas.

A herança de Modric e o que Gvardiol representa no futuro

Historicamente, as seleções que dependem de um único gênio criativo tendem a colapsar quando ele sai — não por falta de talento, mas por falta de identidade alternativa. A Holanda levou anos para se reerguer após Cruyff abandonar a seleção em 1978, e o vácuo deixado por Zidane na França entre 2006 e 2014 é um manual do que não fazer. A Croácia parece consciente dessa armadilha. Dalic não está tentando fabricar um novo Modric — está redesenhando o time para que ninguém precise ser Modric.

Nesse contexto, Josko Gvardiol — defensor do Manchester City que, aos 22 anos, já é considerado um dos três melhores zagueiros do mundo — representa algo além de uma peça defensiva. Ele é o símbolo de que a Croácia pode produzir jogadores de elite em posições que não dependem da fórmula Modric. No City de Guardiola, Gvardiol aprendeu a jogar futebol posicional com uma sofisticação que poucos defensores europeus dominam. Esse conhecimento, trazido de volta à seleção, amplia o vocabulário tático que Dalic tem à disposição.

Registrado em matéria do SportNavo, o padrão desta Croácia em 2026 lembra — com as devidas proporções — o que a Espanha fez entre 2004 e 2008: um ciclo de transição doloroso, com resultados irregulares em fases de grupos, que antecedeu três títulos consecutivos. Não se trata de comparar tamanhos, mas de reconhecer o padrão: equipes que chegam ao mata-mata sem parecer prontas frequentemente surpreendem quando a competição exige instinto em vez de sistema.

Agora a Croácia aguarda a definição do Grupo K — onde Colômbia e Portugal disputam a liderança — para saber se enfrentará os portugueses ou os colombianos nas oitavas de final. Como vice-líder do Grupo L, com seis pontos, os croatas cruzam com o segundo colocado daquela chave. Portugal, que neste momento ocupa a segunda posição, seria o adversário mais provável. Uma Croácia que redescobriu seu estilo contra Gana, com Sucic livre para criar e Vlasic para finalizar, não é adversário que qualquer seleção escolheria encontrar nas oitavas — o time existe sem Modric. Falta ao mata-mata confirmar o tamanho disso.