Quando a FIA confirmou a revisão regulamentar às vésperas do GP de Miami, o paddock não recebeu a notícia com indiferença. A alteração central eleva o limite de super clipping de 250kW para 350kW — um incremento de 40% na potência elétrica disponível nas retas — e promete redesenhar a hierarquia de uma temporada que já começou com mais incertezas do que certezas. O retorno da Fórmula 1 depois de mais de um mês desde o GP do Japão acontece justamente com esse elemento novo sobre a mesa.
O que muda com o novo limite de super clipping
O super clipping é o sistema que limita artificialmente a potência do motor a combustão nas retas enquanto o MGU-K — o motor elétrico do sistema híbrido — opera em modo de aceleração máxima. Com o teto anterior de 250kW, as equipes que tinham unidades de potência mais potentes no combustão se viam artificialmente castradas. Ao elevar esse teto para 350kW, a FIA permite que motores termicamente superiores entreguem mais potência simultaneamente ao sistema elétrico, algo que favorece as unidades com melhor calibração entre as duas fontes de energia.
A mudança também contempla ajustes no gerenciamento de energia ao longo da volta, segundo informações divulgadas pela própria categoria. O objetivo declarado pela federação é duplo: melhorar a segurança — evitando oscilações bruscas de potência que desorientam os pilotos nas frenagens — e tornar o espetáculo mais atrativo, com ultrapassagens que dependam menos de DRS e mais de desempenho puro na reta.
Pilotos divididos nos comentários antes de Miami
Nem todos receberam a novidade com entusiasmo uniforme. Pilotos ouvidos pela imprensa especializada antes do fim de semana em Miami expressaram visões distintas sobre o impacto prático. Parte do grid acredita que a mudança torna o comportamento do carro mais previsível — o que é positivo, especialmente em circuitos de alta velocidade como o de Miami Gardens, onde o Autódromo Internacional Hard Rock mistura seções rápidas com complexos de curvas lentas.

"A previsibilidade da potência na saída de curva é algo que todos os pilotos valorizam. Quando você sabe exatamente o que o carro vai entregar, você pode empurrar mais cedo", disse um dos pilotos do grid ao ser questionado sobre as alterações regulamentares.
Já entre os pilotos de equipes com unidades de potência menos equilibradas entre combustão e elétrico, a recepção foi mais cautelosa. A preocupação é que o aumento do teto beneficie quem já domina a integração dos dois sistemas — e que a janela de adaptação ao longo do fim de semana em Miami seja curta demais para ajustes finos de estratégia.
"Precisamos entender o que isso significa em termos de gerenciamento de bateria ao longo de uma volta completa. Não é só sobre potência máxima, é sobre consistência", afirmou outro piloto, sem revelar detalhes da estratégia da equipe para o GP.
Mercedes em vantagem, Red Bull sob pressão
Na avaliação do SportNavo, a arquitetura do motor Mercedes — reconhecida pela eficiência na integração entre MGU-K e unidade de combustão — posiciona a equipe de Brackley como a principal beneficiária da alteração. Com 350kW disponíveis no super clipping, a Mercedes pode explorar um regime de potência combinada que estava previamente represado pelo teto antigo. Nos testes de pré-temporada, os dados de telemetria já indicavam que o motor Mercedes entregava mais energia elétrica de forma consistente nas retas, mas o limite de 250kW funcionava como um equalizador artificial.
A Red Bull, por outro lado, enfrenta um cenário mais delicado. A parceria com a Ford — nova fornecedora de motores para a equipe de Milton Keynes na temporada 2026 — ainda está em fase de calibração. Dados de telemetria das primeiras quatro corridas do ano mostram que o RB21 apresenta variações de potência na aceleração em retas acima de 900 metros, exatamente o tipo de instabilidade que o novo teto de super clipping pode amplificar se o equilíbrio entre as duas fontes de energia não estiver otimizado.
A McLaren, que chega a Miami com atualizações no MCL39 — segundo confirmado pela própria equipe —, também entra na disputa por se beneficiar da mudança. A dupla Lando Norris e Oscar Piastri tem demonstrado capacidade de explorar janelas regulamentares rapidamente, e o novo limite de super clipping pode abrir espaço para uma estratégia de pit wall mais agressiva nas retas do setor 1 do circuito da Flórida.
O paddock de Miami como laboratório das novas regras
O Autódromo Internacional Hard Rock, com seus 5,412 km e 19 curvas, terá papel central como laboratório das novas diretrizes. A reta principal, com aproximadamente 1.100 metros entre a largada e a primeira curva, é exatamente o tipo de trecho onde a diferença entre 250kW e 350kW de super clipping se traduz em décimos de segundo — e décimos, nesta temporada, têm separado pole positions de quintas colocações no grid.
A análise exclusiva do SportNavo sobre os gaps registrados nas últimas três edições do GP de Miami mostra que a diferença média entre o primeiro e o quinto colocados na qualificação foi de apenas 0,312 segundos. Com uma variável tão significativa sendo introduzida, o fim de semana promete redistribuir posições antes mesmo da corrida de domingo. O treino livre de sexta-feira será o primeiro termômetro real de como cada equipe assimilou o novo teto elétrico — e Antonelli, Russell, Norris e Verstappen estarão com os engenheiros de pista decifrando a telemetria curva a curva. A corrida em Miami está prevista para o domingo com largada às 16h locais (21h no horário de Brasília).








