A chuva batia no telhado de zinco da Arena do Grêmio na noite de 5 de setembro de 2023 com uma intensidade que os funcionários do clube nunca tinham visto antes. O gramado estava submerso, a partida foi suspensa, e o Rio Grande do Sul ainda nem sabia o que viria em maio de 2024 — quando as enchentes mais devastadoras da história do estado mataram mais de 150 pessoas e interromperam o futebol gaúcho por semanas inteiras. Aquele episódio de 2023 foi um El Niño moderado. O que se aproxima em 2026 pode ser mais intenso.

O alerta que veio dos Estados Unidos em maio

O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) emitiu, em maio de 2026, um alerta formal de El Niño, elevando para 82% a probabilidade de o fenômeno se consolidar entre maio e julho deste ano. A projeção vai além: há 96% de chance de o El Niño persistir até o inverno do hemisfério norte, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027 — o que significa que o fenômeno acompanhará praticamente todo o segundo turno do Brasileirão Série A e boa parte das fases decisivas da Copa do Brasil.

O mecanismo por trás disso é o aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial em pelo menos 0,5°C acima da média por meses consecutivos. Quando esse aquecimento ultrapassa 1,5°C, o episódio é classificado como forte; acima de 2°C, entra na categoria que a imprensa convencionou chamar de super El Niño — termo que descreve eventos excepcionais como os registrados em 1997-98 e 2015-16. Modelos meteorológicos internacionais já indicam trajetória de aquecimento crescente no Pacífico tropical.

"Neste momento, o que podemos dizer é que o El Niño está se configurando, sim, e que esperamos talvez uma intensidade moderada a forte. Mas ainda é muito cedo para afirmar que será um super El Niño ou o pior do século", disse José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, à BBC News Brasil.

A cientista atmosférica Kimberley Reid, da Universidade de Melbourne, reforçou a cautela:

"O histórico mostra que previsões feitas nesta época do ano ainda carregam incertezas importantes."
Mesmo assim, a Climatempo avaliou que "tudo indica que o El Niño que entrará em ação, em breve, deve ser no mínimo forte". Para o futebol brasileiro, a diferença entre moderado e forte pode ser a diferença entre um jogo adiado e uma arena destruída.

O alerta que veio dos Estados Unidos em maio Super El Niño pode alagar estádios
O alerta que veio dos Estados Unidos em maio Super El Niño pode alagar estádios

O Sul debaixo d'água e os clubes gaúchos na berlinda

O INMET explica com precisão técnica por que o Rio Grande do Sul é a região mais vulnerável do Brasil ao El Niño: o fenômeno intensifica a corrente de jato subtropical e potencializa o transporte de umidade oriunda da Amazônia para o estado, sustentando sistemas de baixa pressão que resultam em tempestades e inundações. O trimestre maio-julho de 2026 já indica tendência de chuvas acima da média na região, segundo as projeções mais recentes do CPC/NOAA.

Para o Grêmio e o Inter, isso não é abstração meteorológica — é memória recente e dolorosa. Em 2024, ambos os clubes ficaram semanas sem jogar em Porto Alegre. O Grêmio chegou a disputar partidas do Brasileirão em Caxias do Sul, Manaus e São Paulo, acumulando desgaste físico e logístico que comprometeu sua campanha. O Inter, que terminou o ano em 13º lugar na Série A de 2024, atribuiu parte do rendimento irregular exatamente ao período de deslocamentos forçados. Com um El Niño potencialmente mais intenso em 2026, o risco de repetição — ou agravamento — desse cenário é real.

O Athletico-PR, de Curitiba, também entra no mapa de risco. A Ligga Arena está localizada em uma das capitais com maior índice pluviométrico do Sul do país. Em El Niños anteriores, o Paraná registrou enchentes que interditaram vias de acesso a estádios e forçaram a realocação de partidas. Decidiu. E o clube que se preparar antes terá vantagem competitiva sobre os que esperarem o céu abrir.

O Nordeste na contramão das chuvas — e o que isso significa para Bahia e Sport

Enquanto o Sul se prepara para o excesso, o Norte e o Nordeste enfrentam o lado oposto do mesmo fenômeno. O El Niño provoca secas prolongadas nessas regiões — um padrão documentado em todos os episódios intensos desde o século XX. Na seca de 1997-98, o Nordeste registrou déficit hídrico de até 60% em relação à média histórica em alguns estados. O impacto no futebol é menos visível do que campos alagados, mas igualmente grave.

O Sul debaixo d'água e os clubes gaúchos na berlinda Super El Niño pode alagar e
O Sul debaixo d'água e os clubes gaúchos na berlinda Super El Niño pode alagar e

Para o Bahia, que disputa a Série A do Brasileirão em 2026, e para o Sport Recife, a estiagem severa compromete primeiro a logística: estradas estaduais que ligam cidades do interior a capitais ficam deterioradas pelo ressecamento do solo e pela falta de manutenção em períodos de crise hídrica. A chegada de delegações adversárias, a distribuição de ingressos e até o abastecimento de água nos estádios podem ser afetados. Há um precedente direto: durante o El Niño de 2015-16, o Nordeste enfrentou apagões frequentes causados pela baixa nos reservatórios das hidrelétricas, e partidas noturnas em algumas cidades foram ameaçadas por instabilidade no fornecimento de energia.

Na avaliação do SportNavo, a combinação de riscos climáticos regionais opostos — inundação no Sul, seca no Nordeste — cria um desafio sem precedente recente para o calendário da CBF, que já opera no limite da capacidade com datas de Brasileirão, Copa do Brasil e compromissos de seleção comprimidos em menos de dez meses.

O que a CBF pode fazer antes que o céu decida por ela

Historicamente, a Confederação Brasileira de Futebol reagiu a crises climáticas de forma reativa, não preventiva. Em 2024, as rodadas foram reorganizadas às pressas, com clubes gaúchos recebendo autorizações emergenciais para mandar jogos em praças neutras. O regulamento do Brasileirão permite o adiamento de partidas por força maior, mas não estabelece critérios climáticos objetivos — uma lacuna que especialistas em direito esportivo criticam há anos.

Modelos internacionais sugerem que a CBF poderia adotar ao menos três medidas preventivas antes do segundo semestre de 2026: definir previamente praças alternativas para clubes do Sul e do Nordeste em caso de impedimento climático; estabelecer um protocolo de monitoramento meteorológico integrado ao INMET para decisões de adiamento com pelo menos 72 horas de antecedência; e criar janelas de reposição no calendário — algo que a Premier League inglesa, por exemplo, já faz sistematicamente para partidas suspensas por neve ou tempestade.

O El Niño de 1997-98, o mais intenso já registrado, elevou a temperatura média do Pacífico equatorial em 2,5°C acima da normal e causou prejuízos estimados em US$ 33 bilhões em todo o mundo. Se o episódio de 2026 se aproximar desse patamar, o futebol brasileiro enfrentará não apenas partidas adiadas, mas uma crise de infraestrutura que pode se estender até a reta final do campeonato, em dezembro. A CBF tem entre agora e julho para agir. Depois disso, será como tentar afinar um instrumento durante o concerto — tarde demais para mudar o que já está tocando.