A fumaça ainda pairava no vestiário do King Abdullah Sports City, em Jidá, quando uma transmissão ao vivo aberta por Lamine Yamal mostrou, para 300 mil espectadores, um goleiro de 35 anos conversando calmamente com funcionários — cigarro na mão, indiferente às câmeras. Era Wojciech Szczesny, reserva na final da Supercopa da Espanha vencida pelo Barcelona sobre o Real Madrid por 3 a 2, comemorando do seu jeito um título que ele ajudou a construir ao longo da temporada 2025/2026.

O segundo flagra e o padrão que ninguém mais ignora

Não era a primeira vez. Em outubro de 2024, após a goleada de 4 a 0 sobre o Real Madrid no Santiago Bernabéu — um dos maiores El Clásicos em termos de placar da última década —, Szczesny já havia sido filmado exalando fumaça no vestiário enquanto os companheiros festejavam. Naquela ocasião, o episódio circulou nas redes com certa leveza, quase como curiosidade. Mas quando a cena se repete na Supercopa, transmitida ao vivo por Yamal antes de o jovem atacante virar a câmera e murmurar "isso não pode gravar", o tema muda de registro: deixa de ser anedota e vira questão de imagem institucional.

O segundo flagra e o padrão que ninguém mais ignora Szczesny fuma no vestiário d
O segundo flagra e o padrão que ninguém mais ignora Szczesny fuma no vestiário d

Há um paralelo histórico que me ocorre sempre que esse tipo de debate surge. Na Inglaterra dos anos 1980 e início dos 90, tabagismo entre atletas profissionais era quase banal — há fotos célebres de jogadores do Liverpool e do Arsenal fumando nos vestiários após FA Cups. O que mudou não foi a biologia humana, mas o escrutínio midiático e o peso da marca pessoal no futebol moderno. Szczesny opera numa era em que cada vestiário tem câmeras, cada celebração é transmitida ao vivo e cada cigarro aceso rende manchete.

Lobo Carrasco e a fala que esquentou o debate na Espanha

A reação mais dura veio de dentro do próprio universo blaugrana. No programa espanhol El Chiringuito, Lobo Carrasco — ex-jogador e ídolo histórico do Barcelona nos anos 1980, peça fundamental no time que disputou a final da Copa da Europa de 1986 — não poupou palavras.

"Aqueles que fumam são pessoas doentes, e devemos ajudá-las a se libertar desse hábito que consome a vida delas e transmite uma imagem horrível às crianças que querem se tornar jogadores de futebol. Ele precisa saber onde está, profissionalmente e esportivamente. É preciso manter a calma e preservar a própria imagem, e então, em casa, fazer o que quiser", disparou Carrasco.

A crítica de Carrasco toca num ponto que a avaliação do SportNavo considera central nessa polêmica: a tensão entre vida privada e responsabilidade pública de um atleta de elite. Szczesny não é um jogador de quinta divisão — é o goleiro titular de um clube que acumulou, na temporada 2025/2026, os títulos da Supercopa da Espanha, da Copa do Rei e de La Liga. A visibilidade que esse currículo gera é proporcional ao escrutínio que atrai.

A posição de Szczesny — e por que ela divide opiniões

O goleiro polonês, contratado em setembro de 2024 para substituir o lesionado Marc-André ter Stegen após encerrar sua carreira na Juventus, nunca escondeu o vício. Ao Mundo Deportivo, ainda antes de estrear pelo Barça, foi direto:

"Há coisas que não mudo na minha vida pessoal e não é da conta de ninguém se eu fumo. Acredito que isso não afeta o que faço em campo, trabalho o dobro. Se alguém pensa que eu vou mudar a maneira como sou na minha vida pessoal, pode pensar de novo porque eu sou quem eu sou", disse Szczesny.

Ao jornal Sport, numa entrevista posterior, o tom foi mais reflexivo — e, paradoxalmente, mais impactante:

"Há coisas na minha carreira que é melhor não imitar. De certa forma, não consigo ser um bom exemplo, mas tento ser a melhor versão de mim mesmo. Sobre fumar, por favor, não me sigam e não façam isso. Perdi essa batalha", admitiu o polonês.

Essa autoconsciência — rara no futebol de alto nível — é ao mesmo tempo sua maior defesa e seu maior problema. Szczesny reconhece o mau exemplo, pede que jovens não o imitem, mas recusa qualquer mudança. É uma posição honesta, mas que, no contexto de três títulos conquistados numa temporada em que foi peça-chave, gera uma contradição difícil de ignorar: o mesmo homem que "perdeu a batalha" contra o cigarro venceu La Liga, a Supercopa e a Copa do Rei.

Rendimento em campo e o peso da imagem institucional

Do ponto de vista estritamente técnico, o argumento de Szczesny tem sustentação. Peter Schmeichel — referência absoluta da posição nos anos 1990, campeão da Premier League por cinco vezes com o Manchester United entre 1993 e 1999 — também era fumante confesso durante boa parte de sua carreira ativa. René Higuita, Fabian Barthez, David Seaman: o futebol europeu tem um historial extenso de goleiros de alto rendimento com hábitos que contradizem o manual da performance. A posição de goleiro, ao contrário das demais, exige explosões curtas de esforço e não sustentação aeróbica prolongada — o que não justifica o tabagismo, mas ajuda a entender por que seus efeitos sobre o rendimento são menos imediatos.

O problema de Szczesny não é fisiológico — é de narrativa. Num clube que movimenta centenas de milhões de euros em patrocínios e que tem Lamine Yamal, de 17 anos, como o rosto mais valioso do futebol mundial, a imagem de um cigarro aceso no vestiário não é um detalhe privado: é conteúdo global. Com o Barcelona — já classificado para a semifinal da Champions League 2025/2026 — prestes a disputar jogos de altíssima visibilidade nas próximas semanas, Hansi Flick terá que decidir se o assunto merece resposta oficial ou se o silêncio institucional é a estratégia mais segura.

A questão concreta que fica: se Szczesny for escalado como titular nas semifinais da Champions e for novamente flagrado fumando numa eventual celebração, o Barcelona terá condições de continuar ignorando o tema — ou a pressão de patrocinadores vai forçar uma posição pública do clube?