Confesso: em 2022, quando a CBF anunciou a adoção formal do protocolo de concussão no futebol brasileiro, escrevi que o passo era suficiente para nos colocar no caminho certo. Errei. O que aconteceu no Serra Dourada com o goleiro Tadeu, do Goiás, mostrou que regulamento no papel e aplicação em campo são coisas radicalmente diferentes.

O que aconteceu com Tadeu no Serra Dourada

Aos sete minutos do segundo tempo do confronto entre Goiás e Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro, Tadeu e o meia Zé Rafael se chocaram em disputa de bola e caíram desacordados no gramado. O choque foi frontal, o tipo de impacto que qualquer protocolo internacional de concussão classifica como situação de risco imediato. Zé Rafael conseguiu deixar o campo caminhando, com dificuldade. Tadeu precisou ser retirado de ambulância, com colar cervical, direto para o Hospital Neurológico de Goiânia. O jogo ficou paralisado por seis minutos — tempo suficiente para o goleiro ser substituído por Marcos e Willian entrar na vaga do meia do Palmeiras.

"E aí galera, beleza? Só passando para dizer que está tudo bem aqui. Para vocês ficarem tranquilos", disse Tadeu em áudio gravado após os exames no hospital.

A boa notícia é que o goleiro estava consciente e orientado quando gravou o áudio. A notícia preocupante é o que aconteceu antes de ele deixar o campo: ainda dentro do gramado, após recuperar parcialmente a consciência, Tadeu tentou retirar o próprio colar cervical para continuar jogando. Os médicos precisaram contê-lo e seguir com o protocolo de remoção.

A interpretação dominante ignora o detalhe mais grave

A narrativa mais confortável sobre o episódio é a de que o protocolo funcionou — afinal, o goleiro foi substituído, foi ao hospital, passou por exames e mandou áudio tranquilizando os torcedores. Mas essa leitura passa por cima do detalhe mais revelador: um atleta que acabou de perder a consciência tentou, por conta própria, remover equipamento de segurança e retornar à partida. Isso não é garra. É o retrato de uma cultura esportiva que ainda trata concussão como algo a ser superado no calor do jogo.

O que aconteceu com Tadeu no Serra Dourada Tadeu saiu de ambulância e quase volt
O que aconteceu com Tadeu no Serra Dourada Tadeu saiu de ambulância e quase volt

Pense num piloto de Fórmula 1 que, após bater a cabeça no cockpit, tenta desligar o sistema de segurança e voltar à pista. A imagem é absurda. No futebol, virou cena corriqueira. O regulamento da CBF prevê a chamada substituição temporária por concussão, que permite retirar o atleta para avaliação sem penalizar a equipe numericamente — mecanismo inspirado no protocolo da FIFA implementado de forma mais rígida a partir de 2021. A questão é: os médicos de campo têm autonomia real para aplicar esse mecanismo sem pressão do banco, do próprio jogador ou do contexto da partida?

"Triste demais. Lutamos e batalhamos muito. Acredito que fizemos um jogo muito bom, talvez um dos melhores nosso na competição", disse Tadeu ao falar sobre a derrota, já fora do hospital — demonstrando lucidez, mas também o quanto o resultado ainda pesava mais do que o susto.

O que o caso Tadeu exige do futebol brasileiro agora

O Goiás, que terminou a partida contra o Palmeiras na lanterna da Série A com nove pontos, volta a campo na sexta-feira, dia 16, quando recebe o Bahia às 20h na Serrinha. Tadeu — dependendo dos laudos — pode estar disponível. E aí mora o terceiro problema: não há na regulamentação brasileira um período mínimo obrigatório de afastamento após concussão confirmada em campo, diferentemente do protocolo da Premier League, que exige avaliação neurológica com laudo liberatório antes de qualquer retorno ao treinamento.

Falhou. Não o médico que corretamente manteve o colar e removeu o goleiro — esse profissional fez seu trabalho. O que falhou foi o sistema em torno dele: a ausência de um período de afastamento protocolar mínimo, a pressão implícita do contexto competitivo e a falta de fiscalização da CBF sobre como cada clube aplica as diretrizes em tempo real. Enquanto o futebol masculino brasileiro movimenta R$ 6,8 bilhões em receitas na temporada 2026, segundo dados da Pluri Consultoria, investir em infraestrutura médica independente — médicos de concussão sem vínculo com os clubes, como ocorre na NFL desde 2013 — segue sendo tratado como custo, não como obrigação.