"Tenho certeza de que nunca treinei com outro peso pesado que tenha mãos tão pesadas quanto as dele." Quem disse isso foi Tallison Teixeira, o lutador mais alto do plantel de peso pesado do UFC, com 1,98m de envergadura — e ele estava falando de Alex Pereira depois de semanas de sparring em Danbury, Connecticut. Não é elogio de vestiário. É diagnóstico de quem levou os socos.
O que Tallison viu nos treinos que ninguém de fora consegue medir
Tallison Teixeira foi convocado para o camp de Pereira com uma missão específica: simular o perfil físico de Ciryl Gane. Com 1,98m e movimentação de pés acima da média para a categoria, Xicão representa o tipo de pesado técnico que Poatan precisava enfrentar antes do UFC White House, marcado para este domingo, 14 de junho.
O trabalho aconteceu em Danbury sob supervisão de Glover Teixeira, ex-campeão dos meio-pesados e principal treinador de Alex Pereira. Tallison chegou ao camp ainda em preparação para o UFC Macau — onde acabou sendo derrotado por Sergei Pavlovich —, mas o que vivenciou nos rounds com Poatan moldou sua leitura sobre o confronto.
"Mesmo sabendo que nenhuma das sessões de sparring que tivemos era pra valer, a 100%, onde quer que ele coloque as mãos ele começa a te destruir. Ele é o tipo de cara que te sufoca round após round. Quanto mais a luta dura, mais difícil fica."
Isso traduz um dado técnico relevante: Pereira acumula pressão de forma cumulativa. Não é o lutador que busca o nocaute no primeiro contato — é o que vai subtraindo resistência até o adversário não conseguir mais responder. Dos 20 triunfos no MMA, 17 foram por nocaute, uma taxa de 85%. Gane, por sua vez, finalizou cerca de 70% das suas lutas entre nocautes e finalizações, mas opera com um estilo completamente diferente: distância, jab, chute alto, e clinch seletivo.
Os números que sustentam a aposta no nocaute ainda no primeiro terço da luta
A análise de reach importa aqui. Gane tem 211cm de envergadura contra aproximadamente 194cm de Pereira — uma diferença de 17cm que, no papel, favorece o francês para controlar distância. Mas os dados de striking do UFC dizem outra coisa: Pereira absorve mais golpes do que deveria justamente porque não recua. Ele avança, aceita o contato e retribui com potência de nocaute. Contra Israel Adesanya, Magomed Ankalaev, Jiri Prochazka, Sean Strickland e Jamahal Hill — todos campeões —, esse padrão se repetiu.
Gane tem wrestling defense acima de 80% nos dados históricos do UFC, o que significa que não vai ao chão facilmente. Mas Pereira também não precisa disso. A ameaça de queda de Poatan serve para compactar o espaço e forçar trocação — exatamente onde ele é mais perigoso. O problema para Gane não é o plano A de Pereira. É que o plano B de Pereira também termina com alguém no chão…
Tallison foi direto na sua previsão, conforme registrado pelo SportNavo a partir de declarações ao MMA Fighting:
"Não acredito que essa luta vai para a decisão. Acredito que Alex tem muito mais ferramentas para conseguir o nocaute. Obviamente, Gane é muito bom, um cara que respeito muito, um dos melhores strikers da divisão — se não o melhor striker da divisão —, mas Alex é algo diferente. Ele está em outro nível. Só as pessoas que estão lá dentro com ele podem realmente sentir a pressão e entender como é."
O que muda no mapa dos pesados se Pereira sair com o cinturão interino
Uma vitória de Pereira no UFC White House, em Washington, D.C., faria dele o primeiro lutador da história a conquistar três cinturões distintos no UFC — meio-médio (via kickboxing), meio-pesado e pesado. Tallison acredita que esse é o caminho: "Realmente acho que ele vai lá para se tornar o primeiro tricampeão da história do UFC."
Isso reorganiza toda a hierarquia dos pesados. Jon Jones, detentor do cinturão principal, ainda está fora de ação. Um Pereira campeão interino com nocaute sobre Gane criaria pressão imediata por uma unificação — e Jones teria que decidir se volta para enfrentar o brasileiro ou abandona o cinturão. A divisão, que estava estagnada, ganha narrativa e urgência.
Para Tallison, o caminho que viveu no sparring aponta para uma noite curta. Pereira pesa 113,8kg na pesagem — 12kg a mais do que lutava nos meio-pesados — e chegou a Danbury com a missão de entender o que é absorver golpes de pesados reais. Xicão foi o cobaia. E o que saiu dali é uma convicção baseada em dano sentido, não em estatística de planilha. O UFC White House começa às 22h, horário de Brasília, e o co-main event entre Pereira e Gane está previsto para o card principal — vale gravar a transmissão se você não conseguir acompanhar ao vivo.










