A Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos pode se tornar um evento para poucos privilegiados. A decisão da New Jersey Transit de cobrar US$ 150 pelo transporte de ida e volta para os jogos no MetLife Stadium representa um aumento de 1.000% em relação aos US$ 15 usuais da rota, criando uma barreira financeira sem precedentes na história dos Mundiais.
O peso histórico dos custos em Copas anteriores
Desde que a Copa do Mundo se tornou um evento global massivo, na década de 1970, nunca houve tamanho impacto financeiro no transporte para os estádios. Na Copa de 1994, também realizada nos Estados Unidos, o custo médio de transporte público para os jogos girava em torno de US$ 5 a US$ 10, valores que hoje equivaleriam a aproximadamente US$ 12 a US$ 24, ainda assim bem abaixo dos US$ 150 propostos para Nova Jersey.

O MetLife Stadium sediará oito jogos da Copa de 2026, incluindo a final de 19 de julho. Para um torcedor que deseje assistir a três partidas no local, apenas o transporte custará US$ 450, valor superior ao de muitos ingressos em Copas anteriores. Na Copa de 2018, na Rússia, ingressos para jogos das oitavas de final custavam entre US$ 105 e US$ 440, enquanto na Copa de 2022, no Catar, os preços variavam de US$ 70 a US$ 600 para a primeira fase.
"O atual modelo de preços da NJ Transit terá um efeito inibidor. Tarifas elevadas inevitavelmente empurram os torcedores para opções alternativas de transporte", disse Heimo Schirgi, diretor de operações da Copa do Mundo de 2026.
O custo real para o torcedor comum
Uma análise do SportNavo sobre os custos totais para assistir aos jogos em Nova Jersey revela números alarmantes. Um torcedor brasileiro que queira assistir à final da Copa enfrentará gastos que podem ultrapassar US$ 5.000. Os ingressos para a decisão no mercado primário custam entre US$ 800 e US$ 3.000, enquanto no mercado de revenda os valores podem chegar a US$ 8.000.
Somando hospedagem em Nova York por três noites (média de US$ 400 por noite), alimentação (US$ 150 por dia), passagem aérea do Brasil (US$ 1.200 a US$ 1.800) e o transporte de US$ 150, o custo mínimo alcança US$ 4.000 apenas para assistir a um jogo. Para comparação, na Copa de 1994, um torcedor gastava em média US$ 800 para a mesma experiência, equivalente a US$ 1.600 em valores atuais.
Kris Kolluri, presidente-executivo da New Jersey Transit, defendeu os preços citando o fechamento do estacionamento público ao redor do estádio e as exigências de segurança da Copa. A empresa estima custos adicionais de US$ 48 milhões para garantir a operação durante o torneio.

Precedentes e comparações internacionais
A polêmica financeira contrasta com a tradição de acessibilidade das Copas. Na Copa de 1970, no México, ingressos custavam o equivalente a US$ 2 atuais. Na Copa de 1982, na Espanha, a média era de US$ 15 em valores corrigidos. Mesmo a Copa de 2014, no Brasil, considerada uma das mais caras da história, manteve ingressos populares a R$ 30 (US$ 13 na época) para a primeira fase.
A governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill, argumentou que a Fifa, que faturará US$ 11 bilhões com a Copa, deveria absorver os custos adicionais de transporte. A entidade rebateu esclarecendo que os US$ 11 bilhões representam receita, não lucro, e que opera como organização sem fins lucrativos.
"Não vou deixar que os passageiros de Nova Jersey paguem essa conta pelos próximos anos. A Fifa deve pagar pelas viagens", declarou Sherrill.
Impacto na atmosfera dos estádios
O modelo de preços elevados pode transformar radicalmente o perfil do público nos estádios americanos. Copas históricas como a de 1970 e 1986 foram marcadas pela diversidade social dos torcedores presentes, criando atmosferas únicas que entraram para a história do futebol. O grito de "Olé, olé, olé" popularizado na Copa de 1986 surgiu justamente das arquibancadas populares do Estádio Azteca.
Com barreiras financeiras de US$ 150 apenas para o transporte, a Copa de 2026 corre o risco de se tornar um evento corporativo, similar ao que aconteceu em algumas finais de Champions League nas últimas décadas. A Uefa já enfrenta críticas pela elitização de seus eventos, com ingressos para a final de 2024 custando até € 2.000.
A Fifa alertou que o modelo atual força torcedores a buscar alternativas de transporte, aumentando riscos de congestionamentos e chegadas tardias que podem comprometer a experiência do Mundial. A organização destacou que nenhum outro evento esportivo global enfrentou exigência similar de absorção de custos de transporte público.
Os oito jogos programados para o MetLife Stadium incluem partidas das fases de grupos, oitavas de final, semifinal e a grande final de 19 de julho de 2026, prometendo ser um dos palcos centrais da Copa mais cara da história.









