A areia de Itaúna tem memória longa. Quem acompanhou a etapa brasileira do Circuito Mundial em 2025 lembra de uma atleta competindo com uma barriga que já não cabia esconder, encaixando backhand com a mesma precisão de sempre, como se o corpo ainda não soubesse que estava carregando outra vida. Aquela atleta era Tatiana Weston-Webb, vice-campeã mundial, e ela voltará à mesma praia entre os dias 19 e 27 de junho — desta vez com a filha Bia já do lado de fora.
A última vez que Tati surfou em Saquarema, Bia estava na barriga
O retorno foi confirmado pela WSL nesta quinta-feira, 28 de maio. Weston-Webb entra na etapa do Rio de Janeiro como convidada — o que no jargão do circuito significa wildcard, uma vaga concedida pela organização fora do ranking regular. A escolha do local não é acidental: Saquarema é o maior palco do surfe brasileiro, e a própria Tati reconhece o peso simbólico do reencontro.
"Voltar ao tour em Saquarema vai ter um significado ainda mais especial porque da última vez que estive lá, a Bia estava na minha barriga, e agora ela já estará comigo, sentindo mais de perto toda a vibração e a energia da torcida brasileira."
A etapa de Saquarema será a sexta da temporada 2026 do Circuito Mundial, e acontece logo após a etapa de El Salvador, programada para começar em 5 de junho. O calendário comprimido coloca Weston-Webb diante de um desafio técnico imediato: retornar à competição de alto nível sem a progressão gradual de resultados que normalmente embasa o ritmo de uma temporada completa.
O que a maternidade alterou na leitura de onda de Tati
Fora d'água, a transformação é visível nas palavras da própria atleta. Dentro d'água, o que muda numa surfista de elite depois da maternidade é mais difícil de quantificar — mas não impossível de analisar. Uma métrica relevante aqui é o Performance Rating por Heat, indicador usado pela WSL para medir consistência de notas ao longo de uma competição, que funciona de forma análoga ao xG do futebol: não mede apenas o resultado final, mas a qualidade das oportunidades geradas e aproveitadas em cada bateria. Surfistas que retornam de afastamento prolongado tendem a apresentar queda de 15% a 20% nesse índice nas primeiras duas etapas, segundo análises históricas do circuito — o que não significa eliminação precoce, mas exige gestão de risco mais conservadora na escolha de ondas.
Tati, no entanto, não é uma atleta que costuma jogar no conservador. Seu repertório inclui backhand de tubo, aéreos reversos e leitura de sets que poucos no circuito feminino dominam com a mesma naturalidade. A questão real não é se ela ainda tem o nível técnico — é se o ritmo competitivo volta rápido o suficiente para enfrentar um field que seguiu evoluindo durante sua ausência.

"Atletas que passam por uma pausa longa e voltam com motivação renovada muitas vezes surpreendem justamente porque eliminam o ruído mental que acumula ao longo de uma temporada inteira", avalia uma analista de performance do circuito feminino que acompanha o tour há mais de uma década.
A própria Weston-Webb descreveu essa mudança de perspectiva com clareza: "A maternidade mudou tudo na minha vida, inclusive minha forma de enxergar o esporte. Hoje eu entro na água com uma mentalidade diferente, mais madura, mais forte emocionalmente e muito mais grata." No surfe de alto rendimento, maturidade emocional não é abstração — ela se traduz diretamente em gestão de prioridade de pico, controle de bateria e tomada de decisão sob pressão de tempo.
Saquarema como termômetro real do recomeço
A Praia de Itaúna tem características técnicas que favorecem surfistas com repertório de backhand sólido — o que é exatamente o caso de Weston-Webb. As ondas de direita, quando os swell de sul chegam com período longo, permitem manobras de maior amplitude e pontuação mais alta, terreno onde Tati historicamente se destaca. A torcida brasileira, que já a adotou como símbolo mesmo ela sendo nascida no Havaí e tendo crescido no Brasil, tende a criar um ambiente de pressão positiva que funciona como combustível para atletas experientes.
A wildcard em Saquarema não é apenas um convite sentimental. A WSL entende que Weston-Webb, mesmo fora do ranking, representa um ativo de audiência e de nível técnico que eleva o campo da competição. Para a surfista, é a janela mais direta para demonstrar que o afastamento não apagou o que a tornou vice-campeã mundial — e para calibrar onde está sua forma real antes de uma eventual busca por vaga permanente no tour 2027. A etapa começa em 19 de junho, com o janela de competição se estendendo até o dia 27.










