Se a Premier League encerrasse nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, o Tottenham estaria na segunda divisão inglesa pela primeira vez desde 1978 — e o placar de 1 a 1 contra o Leeds, no Tottenham Hotspur Stadium, não seria uma anedota. Seria um epitáfio. A realidade, felizmente para os Spurs, ainda não chegou lá. Mas está a dois pontos.
Com 38 pontos na 17ª colocação, o Tottenham tem o West Ham logo abaixo, com 36, na primeira posição da zona de rebaixamento. Burnley e Wolverhampton já estão matematicamente fora da Premier League. Uma terceira vaga ainda está em disputa — e os Spurs estão dentro do raio de alcance.
Uma Premier League que pune quem não compacta
Roberto De Zerbi herdou um elenco estruturalmente desequilibrado, e os números desta temporada expõem o problema com precisão cirúrgica. O Tottenham tem dificuldade crônica para manter compactação entre as linhas defensiva e de meio-campo, o que gera espaços nas transições defensivas — exatamente o ambiente em que o Leeds, na segunda etapa, encontrou conforto para pressionar.
O primeiro tempo contra o Leeds foi quase asséptico: três finalizações no total, duas dos Spurs e uma dos visitantes. Richarlison acertou o alvo, mas parou em defesa tranquila de Darlow. Rodon, de cabeça, quase inaugurou o placar pelo lado do Leeds, obrigando Kinsky a uma intervenção decisiva. O Tottenham tinha posse, mas sem profundidade. A linha de pressão do Leeds era baixa e organizada, bloqueando os corredores centrais.
No segundo tempo, o jogo ganhou volume. Aos 5 minutos, após sobra em cobrança de escanteio, Mathys Tel dominou na entrada da área e bateu com a esquerda no cantinho — gol de categoria técnica indiscutível. Os Spurs abriram o placar e pareciam, por um instante, ter encontrado o equilíbrio emocional que faltava.
Tel e o intervalo entre o gol e o pênalti que resume a temporada
O intervalo entre o gol de Tel e o pênalti cometido por ele foi de exatos 22 minutos — tempo suficiente para transformar a narrativa do jogo e, de certa forma, da temporada inteira dos Spurs. Aos 27 minutos do segundo tempo, o atacante francês tentou afastar a bola da área com uma bicicleta, levantou demais o pé e acertou a cabeça de Ampadu. Pênalti nítido. Calvert-Lewin foi para a cobrança e converteu com firmeza: 1 a 1.
Segundo a avaliação do SportNavo, essa sequência — gol de qualidade técnica seguido de erro de leitura posicional elementar — é a metáfora perfeita para o que o Tottenham tem sido nesta temporada. Momentos de brilho individual que não se sustentam em estrutura coletiva. Tel foi contratado com expectativa alta, mas sua irregularidade é um dado, não uma impressão: o atacante alterna atuações de alto nível com erros de posicionamento que custam pontos.
Nas palavras que circulam no entorno do clube, a sensação é de que Tel ainda não absorveu completamente o sistema de De Zerbi — um modelo que exige mobilidade constante, pressão alta coordenada e tomada de decisão rápida no terço defensivo. Quando o atacante recua para ajudar na saída de bola, como aconteceu aos 18 minutos do primeiro tempo — quando cruzou a bola perigosamente para dentro da própria área —, o risco aumenta exponencialmente.
156 dias sem vencer em casa e o que isso revela taticamente
O jejum de 156 dias sem vitória no Tottenham Hotspur Stadium não é apenas um dado emocional — é um indicador tático. Times que não vencem em casa consistentemente têm, em geral, um problema de transição ofensiva no contexto do jogo equilibrado: são eficientes quando pressionados a atacar fora, mas perdem a fluidez quando o adversário recua e exige criatividade posicional.
Contra o Leeds, os Spurs tiveram 14 minutos de acréscimo para virar o placar. Richarlison, que foi intenso durante toda a partida mas pouco efetivo nas finalizações, perdeu chance clara dentro da área no segundo tempo. Palhinha, quase na pequena área, chutou por cima no primeiro tempo. Betancur cabeceou para fora. O volume de chegadas existiu — a conversão, não.
Nos minutos finais, o goleiro Kinsky protagonizou o lance que evitou uma derrota ainda mais devastadora: defendeu chute à queima-roupa de Longstaff, numa intervenção que os Spurs chamaram de milagrosa. O Tottenham ainda reclamou de pênalti em Maddison no último minuto, mas o VAR não sugeriu revisão. O empate foi o resultado mais honesto possível para o que aconteceu em campo.
O que resta ao Tottenham antes do fim da temporada
Os Spurs têm dois jogos restantes: visitam o Chelsea em 19 de maio e recebem o Everton em 24 de maio. O West Ham, rival direto na luta pela permanência, enfrenta o Newcastle fora de casa e depois recebe o Leeds — justamente o time que empatou com o Tottenham hoje.
A aritmética é simples: o Tottenham precisa de pelo menos um ponto a mais que o West Ham nas duas rodadas finais para garantir a permanência. Uma vitória contra o Chelsea, fora de casa, seria o resultado que redefiniria a pressão sobre o adversário direto. Uma derrota, combinada com vitória do West Ham, colocaria os Spurs dentro da zona de rebaixamento na rodada final.
Tel, que marcou e cometeu o pênalti no mesmo jogo, volta a ser o nome central da discussão. Se De Zerbi mantém o francês como titular contra o Chelsea — ou se opta por uma configuração mais cautelosa no ataque —, essa escolha pode definir não apenas um jogo, mas o destino da temporada inteira do clube. E você, que acompanha a Premier League de perto: acredita que De Zerbi tem condições reais de escalar o Tottenham para vencer no Stamford Bridge e ainda depender de si mesmo no último jogo?









