Quem, afinal, está defendendo o Botafogo nessa guerra — ou os dois estão apenas se defendendo? A pergunta parece simples, mas quanto mais você acompanha a troca de farpas entre John Textor e Carlos Augusto Montenegro, menos óbvia ela fica.

O estopim mais recente veio na terça-feira (13/05), quando Montenegro concedeu entrevista ao Canal do Anderson Motta e chamou Textor de "covarde". O ex-presidente rebateu a proposta batizada pelo empresário norte-americano de "SAF Social 2.0" com ironia afiada e uma contabilidade cruel: se a dívida atual da SAF está em R$ 2,7 bilhões, a oferta de ampliar a fatia do clube associativo de 10% para 20% não é generosidade — é transferência de passivo.

Reparemos no detalhe: quando Textor comprou a SAF, os 10% cedidos ao associativo representavam aproximadamente R$ 100 milhões. Com a dívida triplicada, esses 20% agora equivalem a R$ 600 milhões de responsabilidade. Montenegro foi direto ao ponto.

O que Montenegro realmente disse sobre a proposta de Textor

Em tom ácido e sem rodeios, o ex-dirigente demoliu a lógica da "SAF Social 2.0" com números concretos.

"Só tem dois projetos com o Textor: ou o projeto é 2.7, que é o valor da dívida que ele está deixando, ou é projeto 171. SAF 171 ou 2.7, ele pode escolher o nome", disparou Montenegro.

Montenegro também negou qualquer influência nos bastidores da SAF, lembrando que os 10% do clube associativo jamais lhe deram poder de gestão.

"Hoje em dia sou torcedor. Como um cara com 10% vai mandar num clube? Eu tive zero de interferência. Não conheço a SAF, nunca conversei com o Textor", afirmou.

Quando questionado sobre as chances de Textor voltar à SAF, a resposta foi monossilábica na prática: zero — a não ser que o empresário apareça com um cheque de R$ 2,7 bilhões. Textor, que enfrenta dificuldades para levantar sequer US$ 25 milhões, está longe desse valor.

A resposta de Textor e a acusação de campanha difamatória

Antes da entrevista de Montenegro, Textor já havia reagido a áudios e mensagens vazados do ex-presidente. Em comentário publicado no perfil Panorama Botafoguense, no Instagram, o empresário americano não poupou palavras.

"Comentários repugnantes, emblemáticos da campanha difamatória nas sombras que ele vem promovendo há 18 meses. [...] Mestre da manipulação… mas ninguém acreditaria nisso", escreveu Textor.

O americano também lançou uma alfinetada sobre legado esportivo: "Carlos, desculpa termos ofendido seu legado ao retornarmos à forma de campeões. Você não é mais o único presidente que sabe como vencer." A referência é clara — o título da Libertadores de 2022 e o Brasileirão de 2023 foram conquistados na era Textor.

Montenegro rebateu essa narrativa lembrando que, há 18 meses, estava "lustrando o sapato" de Textor em Buenos Aires — referência à final da Libertadores de 2022 — e que não se arrepende do apoio inicial ao empresário. O problema, segundo ele, é o que veio depois: arrogância, endividamento e uso das redes sociais para manipular a narrativa pública.

O que está em jogo além das ofensas no Botafogo

Segundo apuração do SportNavo, a disputa vai muito além de egos. O Botafogo acumula transfer ban ativo, o que trava contratações e compromete o planejamento para o restante do Brasileirão 2026. A dívida de R$ 2,7 bilhões é o número que estrutura toda a crise — e nenhum dos dois lados apresentou, até agora, um plano crível para equacioná-la publicamente.

Montenegro descartou qualquer retorno do clube associativo à gestão da SAF enquanto essa dívida existir: ninguém do social, nas suas palavras, vai querer "colocar o CPF" para administrar esse passivo. Textor, por sua vez, segue sem conseguir capitalizar recursos suficientes para cobrir os compromissos — o que torna a proposta da SAF Social 2.0 um movimento de relações públicas mais do que um plano financeiro concreto.

O embate tem tido repercussão intensa nas redes: o vídeo da entrevista de Montenegro ao Canal do Anderson Motta viralizou entre torcedores botafoguenses na manhã de terça-feira, com o termo "SAF 171" entrando em trending topics regionais no X (ex-Twitter). A polarização entre os grupos que defendem cada lado é visível nos comentários — mas a torcida que simplesmente quer ver o Botafogo competindo no Brasileirão está cada vez mais cansada da novela.

A próxima rodada do Brasileirão 2026 coloca o Botafogo em campo ainda esta semana, e o clube precisa pontuar para não perder espaço no G-8. Enquanto Textor e Montenegro brigam no Instagram e em entrevistas, é em campo que a conta vai chegar — e a tabela não espera resolução de bastidores.