O que leva um meia de 33 anos, formado nas categorias de base do Flamengo, com passagem por testes na Roma e título pela seleção sub-20, a estar na Série B em 2026 vestindo a camisa 30 da Chapecoense? A pergunta é legítima — e a resposta não cabe em uma linha de tabela.
Thomás Jaguaribe Bedinelli, ou simplesmente Thomás Bedinelli, nasceu em Juiz de Fora no dia 24 de fevereiro de 1993. Sua trajetória é o tipo de arco que o futebol brasileiro produz com frequência mas raramente para para examinar: um jogador tecnicamente qualificado, que transitou por estruturas de elite na adolescência, acumulou títulos relevantes em categorias de base e foi construindo uma carreira profissional sólida, se não glamourosa. Não há tragédia: há contabilidade.
Em 2026, com 30 jogos disputados pelo Chapecoense na Brasileirão Série B, Bedinelli entrega números que merecem leitura cuidadosa — e um contexto que vai muito além da planilha.
Início de carreira
A formação de Bedinelli começou em uma escolinha do CFZ em Juiz de Fora, cidade mineira que já revelou nomes para o futebol nacional. Do CFZ, ele passou pelo Sport da própria cidade — não o Sport Recife, mas o clube local — antes de dar um salto geográfico e institucional considerável: as categorias de base do Botafogo, no Rio de Janeiro.
Foi no Flamengo, porém, que o meia encontrou o ambiente de maior visibilidade em sua formação. Com a camisa rubro-negra, ele conquistou o Campeonato Carioca Sub-17 em 2010 e a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2011 — a Copinha, que é historicamente o termômetro mais confiável do futebol de base brasileiro. Em 2013, ainda pelo Flamengo, levantou a Taça Rio de Juniores. Três títulos em categorias de base por um dos maiores clubes do país não é currículo de figurante.
Possuindo cidadania italiana, Bedinelli realizou um período de testes na Roma, experiência que, embora não tenha se convertido em contrato profissional na Itália, atesta o nível de interesse que o jogador despertou ainda jovem. Decidiu. Voltou ao Brasil para construir carreira no futebol nacional.
Números que importam
Na temporada atual, Bedinelli acumula 30 jogos pela Chapecoense na Série B de 2026, com 5 gols e 3 assistências. Para um meia de características mais organizadoras do que finalistas — o que o perfil posicional e físico (179 cm, 76 kg) sugere —, esses números representam participação direta em 8 tentos, uma contribuição ofensiva relevante para um time que disputa a segunda divisão nacional.
Conforme registrado pelo SportNavo em abril de 2026, o nome de Bedinelli apareceu em movimentações de mercado que envolviam simultaneamente Cruzeiro e Chapecoense, sinalizando que o jogador ainda gera interesse fora do clube catarinense. Isso, por si só, é um dado: aos 33 anos, ele não é um nome descartado pelo mercado.
Para efeito de comparação contextual, um meia titular na Série B costuma disputar entre 28 e 34 jogos por temporada completa. Com 30 partidas já registradas em 2026, Bedinelli está dentro da faixa de jogador de utilização regular — não reserva, não eventual, mas peça de rotação consistente ou titular estabelecido.
Estilo de jogo
O perfil de Bedinelli como meia foi sendo moldado ao longo de uma carreira que passou por diferentes realidades táticas. Formado em um Flamengo que, no início da década de 2010, ainda operava com estruturas de base mais tradicionais, o jogador desenvolveu características de meio-campo com capacidade de ligação entre setores — o tipo de função que exige leitura de jogo acima da média física.
Seu peso corporal (76 kg para 179 cm) aponta para um atleta de porte médio, sem a robustez de um volante destruidor nem a leveza de um meia de velocidade pura. É o perfil clássico do organizador, aquele que toca, movimenta e aparece nos momentos certos — o que explicaria os 5 gols em 30 jogos: não é um finalizador compulsivo, mas também não desperdiça as oportunidades que chegam.
A passagem pela seleção brasileira sub-20 em 2012, com conquista do Torneio Internacional 8 Nações, reforça a leitura de um jogador que, em seu auge formativo, tinha capacidade técnica acima da média de sua geração.
Conquistas e momentos marcantes
O palmarés de Bedinelli é mais rico do que o de muitos jogadores que passaram por clubes maiores na fase adulta. Pelo Flamengo nas categorias de base: Campeonato Carioca Sub-17 (2010), Copa São Paulo de Futebol Júnior (2011) e Taça Rio de Juniores (2013). Pela seleção brasileira sub-20: Torneio Internacional 8 Nações (2012). Já na fase profissional, pelo Santa Cruz: Troféu Asa Branca (2017). Pelo Sport: Taça Ariano Suassuna (2018).
São seis títulos documentados — dois deles em competições profissionais no Nordeste, o que indica que Bedinelli encontrou espaço e protagonismo em clubes regionais de expressão após a fase de formação no eixo Rio-São Paulo. A passagem por Santa Cruz e Sport, ambos com tradição no futebol pernambucano, representa um turning point relevante na carreira: foi ali que ele consolidou a longevidade profissional que o mantém ativo em 2026.
O que esperar daqui pra frente
Com 33 anos e 30 jogos na Série B de 2026, Bedinelli está em um momento de carreira que o futebol brasileiro trata com ambiguidade: velho o suficiente para ser descartado por clubes que priorizam juventude, experiente o suficiente para ser valioso em projetos que precisam de equilíbrio e leitura de jogo.
O interesse de mercado registrado em abril — com Cruzeiro e Chapecoense movimentando peças na mesma janela — indica que o jogador pode ter opções além de Chapecó nos próximos meses. Se a Chapecoense avançar na Série B e disputar acesso à Série A, o papel de Bedinelli como meia experiente em uma campanha de pressão pode ganhar ainda mais relevância. Se o clube não atingir seus objetivos, o mercado de inverno de 2026 pode redesenhar o cenário.
O que os dados desta temporada dizem, sem romantismo: um meia de 33 anos que disputa 30 jogos e contribui com 8 participações em gols (5 gols, 3 assistências) não está em declínio funcional. Está em manutenção. E no futebol brasileiro, manutenção com esse nível de entrega ainda tem valor de mercado — especialmente na segunda divisão, onde experiência e consistência pesam tanto quanto velocidade e explosão.










