Se o Oeste tivesse que escolher seu favorito ao título agora, a resposta seria quase automática: 64 vitórias na temporada regular, 19 triunfos nos últimos 20 jogos antes do descanso dos titulares, e a última derrota em casa com Shai Gilgeous-Alexander em quadra datando de 25 de janeiro, contra o Toronto. O Oklahoma City Thunder não é apenas o campeão vigente — é o time que mais dominou a temporada 2025/26. O problema é que a NBA tem uma memória cruel para quem tenta repetir.

A ressalva é importante: o último time a conquistar títulos consecutivos foi o Golden State Warriors em 2017 e 2018. Desde então, oito temporadas, oito campeões diferentes. Essa sequência não é coincidência — é estrutural. Com o salary cap nivelando elencos, a fadiga acumulada de uma campanha profunda nos playoffs e a inevitável evolução dos adversários que estudaram o campeão durante o verão, o bicampeonato na NBA moderna virou o equivalente a atravessar o trânsito da Avenida Paulista às 18h de sexta-feira: tecnicamente possível, estatisticamente improvável.

O que os números dizem sobre o Thunder desta temporada

O OKC encerrou a fase regular com recorde de 64-18, melhor da liga, o que garante vantagem de quadra em todos os confrontos do Oeste. Gilgeous-Alexander terminou segundo na artilharia com 31,1 pontos por jogo e é o principal candidato ao MVP — título que já carrega da temporada anterior. Chet Holmgren, seu parceiro de garrafão, entregou uma linha estatística que poucos pivôs conseguem na liga:

  • 17,1 pontos por jogo — produção ofensiva de All-Star
  • 8,9 assistências por jogo — segundo melhor entre pivôs da liga
  • 1,9 bloqueios por jogo — segundo lugar na NBA inteira

Holmgren funciona como um multiplicador de espaço: quando ele está na quadra, o Thunder consegue jogar com cinco jogadores que ameaçam a cesta de fora, o que abre corredores para as penetrações de SGA. É o equivalente a ter um semáforo verde perpétuo numa avenida de mão única — a defesa adversária simplesmente não tem onde se esconder.

Por que o Suns não é adversário para ignorar

O técnico Mark Daigneault foi direto ao ponto antes do Jogo 1: apesar de ter chegado via play-in, o Phoenix é um time de playoffs real. A franquia terminou 45-37 na temporada regular e avançou às quartas de final do NBA Cup. Devin Booker entregou 26,1 pontos e 6 assistências por jogo, números que colocam qualquer defesa em alerta permanente.

"Esta corrida de playoffs é tão única e diferente da última, e precisamos ter a capacidade de entender que cada série vai ser diferente, cada jogo vai ser diferente", disse o ala-armador Jalen Williams antes do início da série.

A declaração de Williams não é protocolo — é diagnóstico. O Thunder de 2026 não é mais o grupo de jovens surpreendentes que ninguém esperava. Agora carregam o alvo nas costas, com adversários que passaram meses assistindo vídeo e montando planos específicos para parar SGA. O Suns, por sinal, conta com Dillon Brooks, especialista defensivo que já incomodou Gilgeous-Alexander em confrontos anteriores pela rivalidade canadense — Brooks e SGA são companheiros de seleção, o que significa que o armador do OKC conhece os truques do adversário, mas o inverso também é verdadeiro.

O que os números dizem sobre o Thunder desta temporada Thunder pode repetir o tí
O que os números dizem sobre o Thunder desta temporada Thunder pode repetir o tí
"O grupo que está naquele vestiário tem uma tonelada de resiliência e quer fazer as coisas de forma diferente", afirmou o técnico do Suns, Jordan Ott, sobre a mentalidade de sua equipe após chegar pelo play-in.

O efeito cascata no Oeste se o Thunder tropeçar

Uma eventual queda precoce do OKC reescreveria o mapa de poder da conferência. Os San Antonio Spurs — que voltaram aos playoffs pela primeira vez em sete anos e já venceram o Jogo 1 contra Portland, com Victor Wembanyama quebrando recordes de estreia na pós-temporada — seriam os maiores beneficiados. O francês anotou números históricos em sua estreia nos playoffs, ultrapassando marcas de Tim Duncan, e coloca San Antonio como a ameaça de longo prazo mais interessante do torneio. Denver e Lakers também espreitam, com os Nuggets disputando o Jogo 2 contra o Minnesota ainda nesta semana.

O que o SportNavo calculou a partir dos dados de Net Rating — métrica que mede a diferença de pontos marcados e sofridos a cada 100 posses — é revelador: o Thunder teve o melhor diferencial da liga na temporada regular, mas times com alto Net Rating também costumam sofrer mais contra adversários que jogam em ritmo lento, forçando poucos arremessos e apostando em erros. O Suns de Booker tem exatamente esse perfil: controla o ritmo, valoriza cada posse e pode transformar uma série em teste de paciência.

O Thunder precisa de mais do que talento para o bi

Historicamente, os times que repetiram o título na NBA tinham uma combinação específica: profundidade no banco acima da média, um segundo astro capaz de carregar o time quando o principal descansa nos playoffs e nenhuma lesão significativa nas primeiras rodadas. O OKC reforçou o banco nesta entressafra e manteve o núcleo intacto — vantagem real sobre qualquer rival que tenha passado por reconstrução. A sequência de 19-1 antes do descanso final sugere que o grupo chegou aos playoffs no pico físico e mental.

O Jogo 2 da série Thunder x Suns está programado para esta semana, com Oklahoma City largando na frente após vencer o Jogo 1 no Paycom Center. Se SGA repetir o nível de 31 pontos por jogo e Holmgren continuar dominando o garrafão, o OKC deve fechar a série em menos de seis jogos — e aí começa o teste de verdade, contra Spurs, Nuggets ou Lakers nas rodadas seguintes.

O Thunder tem o elenco, tem a vantagem de quadra e tem o melhor jogador da liga. Falta provar que tem a fórmula para o que nenhum time conseguiu desde os Warriors de Durant e Curry: fazer duas vezes seguidas.