— Cara, o zagueiro do Vila Nova marcou de novo.
— Qual? O número 3?
— Sim. Quatro gols na Série A. Zagueiro, mano.

Tiago Pagnussat completa 36 anos em junho de 2026, mas os números desta temporada no Vila Nova não falam de um jogador em declínio. Falam de alguém que encontrou, tardiamente no calendário da vida, o ambiente certo para mostrar o que sabe fazer.

O dado que ninguém olha mas explica tudo

Quatro gols. Em 35 jogos. Na Brasileirão Série A. Sendo zagueiro.

Parece pouco até você comparar. A média de gols de zagueiros na elite do futebol brasileiro raramente ultrapassa dois por temporada completa. Pagnussat já dobrou essa marca e ainda tem partidas a disputar em 2026. É um dado que passa batido nos relatórios de quem olha só para os atacantes, mas que conta muito sobre o perfil desse jogador: um defensor que joga também para frente, que briga nas bolas paradas e que entende o jogo além da marcação.

São Jorge d'Oeste, no Paraná, não é exatamente um celeiro de zagueiros goleadores. Mas o garoto que saiu de lá e percorreu clubes como Atlético Mineiro, Bahia, Ceará, Nagoya Grampus e Avaí chegou ao Vila Nova com um currículo acumulado e uma eficiência ofensiva que poucos da posição conseguem apresentar.

Como ele chega a esse número

A trajetória de Pagnussat é construída por ciclos curtos e aproveitamento máximo de cada janela. No Atlético Mineiro, ele integrou o elenco que conquistou a Copa do Brasil de 2014 e o Campeonato Mineiro de 2015 — dois títulos que colocaram o seu nome no radar de quem busca zagueiros com experiência de pressão real.

O Bahia viria depois. E lá, Pagnussat não apenas jogou — se destacou individualmente. Foi incluído na Seleção do Campeonato Baiano em 2017 e em 2018, além de integrar a Seleção da Copa do Nordeste de 2017, ano em que o clube conquistou o próprio torneio. Reconhecimento por mérito, não por antiguidade.

O capítulo japonês, em 2022 pelo Nagoya Grampus, foi breve: 14 jogos na J1 League, mais seis na J-League Cup e dois na Emperor Cup. Um período de adaptação a outro futebol, outro ritmo, outra cultura. Poucos zagueiros brasileiros da Série A atual passaram por esse filtro.

O retorno ao Brasil pelo Ceará, em 2023, e depois pelo Avaí, em 2024, mostrou um jogador mantendo produção consistente mesmo em trocas de clube. No Vila Nova, onde já havia passagem anterior, o ambiente de familiaridade parece ter funcionado como catalisador.

Os outros números que falam o mesmo idioma

Além dos 4 gols, Pagnussat acumula 2 assistências na temporada atual. São 35 jogos disputados — o que indica regularidade, não apenas flash. Em um elenco que disputa a Série A, estar presente em praticamente todos os compromissos é, por si só, uma estatística de valor.

O físico ajuda a contar essa história. Com 191 cm e 88 kg, ele é um dos zagueiros mais imponentes da competição. Estrutura que serve tanto na marcação aérea quanto nas disputas de bola parada ofensivas — o que explica diretamente a produtividade em gols.

O Campeonato Goiano de 2025 — título conquistado pelo Vila Nova — serve de contexto: Pagnussat chegou ao clube já com esse troféu estadual no currículo recente, o que significa que ele conhece o ambiente vencedor da casa. Não é um recém-chegado tentando se adaptar. É alguém que já sabe onde as coisas funcionam.

Para fins de comparação qualitativa: zagueiros com passagens internacionais, múltiplos títulos regionais e consistência acima de 30 jogos por temporada são raros na faixa dos 35 anos no futebol brasileiro. Pagnussat está nessa faixa. E entregando.

O risco de confiar só nesse dado

Quatro gols de zagueiro são sedutores. Mas há armadilhas nessa leitura.

Primeiro: gols de zagueiro, na maioria dos casos, vêm de bolas paradas. Se o Vila Nova reduzir o volume de escanteios e faltas em posição favorável, esse número cai naturalmente — sem que isso signifique queda de rendimento defensivo real.

Segundo: com 35 anos e uma carreira de alta intensidade percorrida por múltiplos clubes e ligas, a gestão física passa a ser variável crítica. Não há dado disponível sobre minutagem exata por jogo, o que impede uma análise mais precisa de carga acumulada.

Terceiro: o Vila Nova disputa a Série A pela primeira vez em muito tempo. O nível de exigência técnica e física é diferente do que o clube enfrentou nas últimas temporadas na Série B. Manter esses números até o final da competição é o verdadeiro teste.

O que os dados não permitem é ignorar o que já foi entregue. Trinta e cinco jogos, quatro gols, duas assistências. Isso já está escrito.

É o mesmo cenário que o Ceará viveu em 2023, quando confiou em Pagnussat para uma temporada de Série B e o viu entregar consistência suficiente para justificar a renovação — só que agora a aposta é na elite, e o zagueiro parece ter chegado exatamente quando precisava chegar.