Thiago Almada é, ao mesmo tempo, um dos jogadores mais importantes da atual campeã do mundo e um dos reservas mais bem utilizados do Atlético de Madrid — e essa frase, que parece elogio, é exatamente o problema.
Os números da temporada 2025/2026 revelam a contradição com precisão cirúrgica: 38 partidas disputadas, quatro gols, duas assistências. À primeira vista, uma campanha razoável para qualquer meia europeu. Mas Thiago Almada não é qualquer meia: de 38 jogos, apenas 17 foram como titular, totalizando 1.614 minutos — menos de um tempo completo por partida em média. Para efeito de comparação, a diferença entre os minutos que ele jogou pelo Atleti e os que jogaria se fosse titular absoluto nas mesmas 38 partidas equivale, em termos proporcionais, à distância entre Recife e Fortaleza: geograficamente perto no mapa, mas longe o suficiente para mudar tudo no trajeto.
O que Scaloni enxerga que Simeone não usa
Na seleção argentina, a leitura sobre Almada é radicalmente diferente. Lionel Scaloni o trata como herdeiro direto do espaço deixado por Ángel Di María após a aposentadoria do camisa 11 — e os números referendam a confiança do técnico: quatro gols e três assistências com a camisa albiceleste, incluindo um gol decisivo contra o Uruguai e a assistência mais comentada no jogo em que a Argentina aplicou um baile no Brasil, partida que ocorreu antes da chegada de Carlo Ancelotti à seleção brasileira. Na Argentina, os ataques passam pelos seus pés. No Atlético, ele entra quando o jogo já está definido — ou quando Simeone precisa de alguém disposto a driblar e criar incerteza no adversário.
"A intenção é clara: quer um papel protagonista. Almada busca um time em que os ataques passem pelos seus pés", noticiou o TyC Sports, veículo argentino que acompanha a situação do jogador.
Aos 25 anos, com contrato até meados de 2030 com o Atleti, Almada tem tempo para reconstruir uma trajetória. A questão é que ele não quer esperar. Após a Copa do Mundo — que seria seu segundo Mundial, desde que passe pelo corte definitivo de Scaloni —, o meia pretende avaliar o futuro com frieza e, se o cenário no clube não mudar, sinalizar que quer sair… e aí vem o problema.
Precedentes que explicam o dilema de Almada no Atlético
A situação de Almada guarda semelhanças com casos anteriores de jogadores que chegaram ao Atlético de Madrid como promessas e acabaram saindo por falta de protagonismo. Thomas Lemar, contratado em 2018 por cerca de 70 milhões de euros, passou anos como peça de segundo plano no esquema de Diego Simeone antes de ser vendido. Joao Félix, a contratação mais cara da história do clube, viveu situação ainda mais dramática: conflito aberto com o treinador, empréstimos sucessivos e saída definitiva sem entregar o que prometia. A diferença de Almada em relação a esses casos é que ele chegou com um perfil mais compatível com o que Simeone pede — intensidade, versatilidade, capacidade de mudança de ritmo —, mas ainda assim não conseguiu se firmar como titular.
O que o SportNavo apurou ao cruzar os dados da temporada europeia com o histórico recente do Atlético é que o clube madrileno tem um padrão consolidado: usa jogadores criativos como acionadores táticos, não como protagonistas da construção. Simeone não mudou esse DNA em mais de uma década no cargo, e há poucas razões para crer que mudará para acomodar Almada na reta final de 2026.
Destinos possíveis e a prioridade europeia de Almada
A lista de interessados, segundo o TyC Sports, não é curta. O Boca Juniors acompanha a situação com atenção especial — a relação de Almada com Juan Román Riquelme é próxima, e o clube xeneize sempre foi um destino afetivo para o jogador. O Palmeiras também monitora o cenário há algum tempo, ciente de que um meia com passagem pelo futebol europeu e prestígio na seleção argentina representaria reforço de alto impacto para o mercado brasileiro.

"A prioridade é permanecer na elite europeia", deixou claro Almada a pessoas próximas, segundo o TyC Sports. A passagem pelo Lyon antes de chegar a Madri mostrou que ele sabe se destacar no futebol do Velho Continente.
A experiência no Lyon — clube onde se firmou e chamou atenção do Atlético — é o argumento mais concreto que Almada carrega nas negociações. Ele já provou que consegue ser titular e decisivo em campeonato europeu de alto nível. O que falta é um clube que queira construir o jogo em torno dele, não apenas usá-lo como carta na manga.
O poder de barganha do Atlético e o que muda depois da Copa
Qualquer saída de Almada passa, obrigatoriamente, pelo Atlético de Madrid. Com contrato vigente até 2030, o clube detém controle total sobre uma eventual negociação e não precisará aceitar qualquer proposta — especialmente se Almada chegar à Copa do Mundo em boa forma e sair do torneio valorizado. Um Mundial de destaque com a Argentina pode elevar seu valor de mercado de forma significativa, o que beneficia o Atleti financeiramente, mas também exige que o clube encontre um substituto à altura.
A permanência no Wanda Metropolitano depende de uma resposta de Simeone que, até agora, o técnico não deu sinais de querer oferecer. Se o treinador argentino — compatriota de Almada, o que torna o silêncio ainda mais eloquente — mantiver o jogador no papel de impacto vindo do banco, a saída em julho se tornará o desfecho mais lógico. A Copa do Mundo começa em junho, e Almada tem, no máximo, algumas semanas após o encerramento do torneio para definir seu futuro antes que a janela de transferências europeia se feche.









