Não, o Manchester City não está condenado a repetir o colapso do Manchester United após Sir Alex Ferguson. A narrativa é sedutora, os paralelos são convenientes, e Wayne Rooney — que viveu de dentro a derrocada do United — a alimentou com autoridade ao declarar à BBC Sport que o clube terá "dificuldades em manter o nível de sucesso atual" depois da saída de Pep Guardiola, prevista para o fim desta temporada 2025/26. O problema é que a comparação, por mais dramática que seja, ignora variáveis institucionais que tornam os casos fundamentalmente distintos.

A narrativa do colapso e o que os números não confirmam

A lógica do pessimismo parte de uma premissa real: Guardiola dominou a Premier League de forma sem precedentes. Em nove temporadas no comando, o técnico espanhol conquistou seis títulos ingleses, além de uma Liga dos Campeões, e está na briga pelo sétimo campeonato doméstico neste ciclo — o City se encontra a cinco pontos do líder Arsenal com um jogo a menos e ainda com vida na disputa. O aproveitamento de Guardiola na Premier League supera 70% ao longo de toda a sua gestão, uma marca que nenhum técnico inglês moderno sequer se aproximou de manter por tanto tempo.

Rooney foi preciso ao apontar que a influência de Guardiola ultrapassa a lousa tática: o catalão é um ativo de mercado. Jogadores de elite aceitam projetos salariais menores para jogar sob sua tutela, e esse magnetismo pessoal não é transferível. O ex-atacante chegou a mencionar Vincent Kompany — hoje no Bayern de Munique — como alternativa que compreende a cultura do clube, enquanto o italiano Enzo Maresca, atual técnico do Chelsea, figura como o nome mais cotado para a sucessão.

"O clube terá dificuldades em manter o nível de sucesso atual", disse Rooney à BBC Sport, lembrando que Ferguson e Wenger levaram anos construindo suas identidades nos clubes — e que seus sucessores nunca conseguiram reproduzir o mesmo patamar.

A comparação com o United de 2013 e o Arsenal de 2018, contudo, desmorona quando se examina a arquitetura institucional. Ferguson deixou um clube com dívidas estruturais, um elenco envelhecido e uma diretoria esportiva que nunca havia operado sem ele. Wenger saiu de um Arsenal que havia passado quase uma década sem vencer a Premier League e com um modelo financeiro ainda em transição para o Emirates Stadium. O City de 2026 é outra realidade.

Por que a estrutura do City resiste onde o United afundou

O grupo Abu Dhabi United Group, controlador do City desde 2008, construiu ao longo dos anos algo que Ferguson e Wenger nunca tiveram: um departamento técnico com autonomia real. Txiki Begiristain, diretor esportivo que trabalhou ao lado de Guardiola desde os tempos do Barcelona, e o CEO Ferran Soriano moldaram um modelo de recrutamento baseado em dados e perfil de jogo — não em caprichos de um único técnico. Erling Haaland, Phil Foden, Bernardo Silva e Rayan Cherki, que marcou em jogos desta temporada, são contratações que refletem uma filosofia de clube, não apenas uma preferência pessoal do treinador.

O City Football Group, que administra mais de dez clubes em diferentes continentes, funciona como uma rede de identificação de talentos que nenhum clube inglês dos anos 2000 possuía. Quando Guardiola precisou de um lateral esquerdo nesta temporada, o nome Rayan Aït-Nouri apareceu no radar do clube antes mesmo de qualquer negociação pública. Essa inteligência coletiva é o verdadeiro ativo intransferível — não o técnico.

  • Ferguson saiu do United em 2013 sem sucessor identificado com antecedência; o City já discute candidatos há meses
  • Wenger nunca delegou decisões de elenco; Guardiola sempre operou com Begiristain como par estratégico
  • O United de 2013 tinha dívidas superiores a £ 400 milhões; o City opera com superávit operacional desde 2015
  • Maresca, ao contrário de David Moyes ou Unai Emery, já trabalhou dentro do ecossistema City Football Group — foi técnico do Manchester City sub-23

O teste real começa em Burnley

A prova mais imediata do que o City é capaz de fazer sem Guardiola no banco ainda está no futuro, mas o presente já oferece dados relevantes. Nesta temporada, o clube venceu a Copa da Liga inglesa e segue na disputa da FA Cup, com final marcada contra o Chelsea no sábado. Contra o Burnley, Erling Haaland abriu o placar aos cinco minutos com o pé esquerdo, assistido por Jeremy Doku — dois jogadores recrutados pelo departamento esportivo, não por Guardiola pessoalmente.

"O que você não pode controlar, esqueça. Foque e faça melhor o que não fizemos bem esta temporada para brigar pela Premier League. Ainda estamos na briga", disse Guardiola em sua coletiva de imprensa antes do duelo com o Crystal Palace, em tom que mistura pragmatismo com a determinação de quem sabe que cada jogo pode ser o último de um ciclo histórico.

O SportNavo mapeou os dados das últimas cinco transições técnicas em clubes campeões ingleses e a única que não gerou queda de desempenho imediata foi justamente aquela em que a estrutura de recrutamento permaneceu intacta — o Liverpool de Klopp para Slot, em 2024, que manteve Arne Slot dentro de uma filosofia já estabelecida. O City tem condições de replicar esse modelo, especialmente se Maresca chegar com o respaldo de Begiristain.

O que Guardiola deixa e o que ninguém pode herdar

Guardiola encerra sua passagem pelo City com 20 troféus conquistados desde 2016, incluindo seis títulos da Premier League em oito temporadas completas. Nenhum técnico na história do futebol inglês acumulou tamanho domínio em período equivalente. Esse número — seis campeonatos em oito anos — é o que torna qualquer sucessor vulnerável à comparação, independentemente de sua competência.

Maresca, caso assuma, enfrentará um desafio que não é tático nem financeiro, mas psicológico: o peso de suceder uma lenda viva. O italiano de 44 anos ganhou o Championship com o Leicester em 2023/24 e está na sua primeira temporada de alto nível no Chelsea. Sua familiaridade com o modelo City pode ser um amortecedor — mas não uma garantia. O que o clube precisa evitar, acima de qualquer escolha de nome, é o erro que destruiu o United e paralisou o Arsenal por anos: tomar decisões de sucessão sob pressão emocional, sem critério técnico.

O City joga contra o Crystal Palace na quarta-feira, 21 de maio, no Etihad Stadium, com a obrigação de vencer para manter a diferença de pontos para o Arsenal abaixo de cinco — e Guardiola confirmou que Rodri e Khusanov treinaram e são dúvida para o jogo. A temporada termina com três rodadas pela frente, e o treinador que herdar esse elenco receberá um plantel com média de idade de 26,3 anos.