Danrley Souza Lessa já estava no radar da Polícia Civil da Bahia há mais de seis meses quando os agentes bateram na porta do apartamento dele, no bairro de Brotas, em Salvador, na terça-feira (6). A prisão em flagrante foi o desfecho de um monitoramento que começou em outubro de 2024. O que torna o caso ainda mais perturbador é o que veio antes disso.
Como Danrley usou o ambiente do Bahia para se aproximar das vítimas
Com cerca de 1,6 mil seguidores nas redes sociais, Danrley se posicionava como fotógrafo, designer gráfico e criador de conteúdo esportivo. Frequentava a Arena Fonte Nova com regularidade e era rosto conhecido nas arquibancadas. Esse capital simbólico — o torcedor presente, o cara da câmera, o estudante de jornalismo — funcionou como credencial de acesso.
Segundo a investigação, ele abordava adolescentes entre 14 e 17 anos para produzir e armazenar materiais envolvendo nudez. Até agora, pelo menos quatro possíveis vítimas foram identificadas. A polícia apreendeu dois celulares com fotos e vídeos suspeitos, que estão em análise pericial para mapear o alcance real dos crimes.
A identidade de torcedor apaixonado, nesse contexto, não era detalhe de perfil. Era instrumento.

A denúncia que partiu do próprio clube e acelerou a investigação
O Esporte Clube Bahia foi quem acionou as autoridades. O clube identificou comportamentos considerados suspeitos e encaminhou o caso à polícia, protocolando a denúncia que deu tração formal ao processo investigativo. Em nota oficial, o Bahia informou ter adotado "as medidas cabíveis no âmbito interno" imediatamente após tomar conhecimento da situação.
"As medidas cabíveis no âmbito interno" foram adotadas de imediato, segundo nota oficial do Esporte Clube Bahia, que também acionou as autoridades competentes.
O clube mantém setor especializado em segurança e acompanhamento de jogadores dentro e fora de campo. Foi esse setor que identificou o padrão de comportamento de Danrley antes que a situação se agravasse ainda mais. A perícia agora vai determinar quantas vítimas reais existem além das quatro já mapeadas.
O que a prisão de Danrley revela sobre segurança em ambientes esportivos
Danrley compareceu à audiência de custódia na quinta-feira (8). A Polícia Civil confirmou que a investigação continua e que pessoas ligadas ao ambiente esportivo e frequentadores do estádio estão entre os possíveis alvos das abordagens investigadas.
O caso expõe uma vulnerabilidade estrutural: estádios e arquibancadas ainda são tratados, operacionalmente, como espaços de celebração coletiva — não como ambientes que exigem protocolos de proteção a menores. O acesso irrestrito de adultos a crianças e adolescentes em eventos esportivos raramente é monitorado com a mesma seriedade que outros pontos de risco.
A postura do Bahia — denunciar ativamente, em vez de esperar a polícia chegar — é exceção, não regra. A maioria dos clubes brasileiros não possui protocolos formais para identificar esse tipo de ameaça dentro da própria torcida.
Danrley seguia monitorado há mais de 180 dias antes da prisão. Nesse intervalo, ao menos quatro adolescentes foram identificadas como possíveis vítimas. A pergunta que a investigação ainda precisa responder — e que os próximos laudos periciais vão balizar — é quantas outras pessoas passaram pela câmera dele sem que ninguém percebesse a tempo.
Se os dois celulares apreendidos revelarem vítimas além das quatro já identificadas, o Ministério Público da Bahia vai ampliar o escopo da denúncia. A audiência de instrução ainda não tem data marcada. Qual será o número final de vítimas quando a perícia concluir a análise dos dispositivos?










