Todo mundo sabe que o Copa do Mundo de 2026 terá o Irã na fase de grupos. O que poucos perceberam é que a confirmação da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI), divulgada neste sábado (9), chegou embalada em dez condições formais que transformam cada partida do Grupo G em uma negociação diplomática de alto risco — e que o ministro dos Esportes do país, Ahmad Donyamali, havia declarado dias antes que a participação era impossível. Há um abismo entre a nota oficial da federação e a fala do ministro, e nesse abismo mora a verdadeira história.

O temporal que antecedeu a confirmação iraniana

Os ataques aéreos lançados pelos Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro de 2026 mataram o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e suspenderam o campeonato nacional iraniano. Donyamali foi à televisão estatal declarar que, diante do assassinato do líder e da morte de mais de 1.300 civis iranianos, "sob nenhuma circunstância podemos participar da Copa do Mundo". A frase não era retórica: o ministro citou a ausência de condições de segurança para os atletas e a impossibilidade moral de competir no território de um dos países beligerantes.

O temporal que antecedeu a confirmação iraniana Todo mundo sabe que o Irã vai jo
O temporal que antecedeu a confirmação iraniana Todo mundo sabe que o Irã vai jo

A Fifa, por sua vez, não recuou um milímetro. O presidente Gianni Infantino, no Congresso da entidade no Canadá — onde a delegação iraniana foi barrada no aeroporto de Toronto por ligações suspeitas com a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) —, foi categórico:

"Claro que o Irã participará da Copa do Mundo de 2026. E claro que jogará nos Estados Unidos. A razão é simples: precisamos nos unir. É minha responsabilidade, nossa responsabilidade", disse Infantino na abertura do congresso.

O próprio presidente da FFIRI, Mehdi Taj — ex-integrante da Guarda Revolucionária impedido de entrar no Canadá —, havia classificado a participação como "muito improvável" em declarações ao jornal espanhol Marca. Reparemos no detalhe: em menos de duas semanas, a posição oficial migrou de "impossível" para "definitivamente participaremos, mas com condições".

As dez condições e o que cada uma exige dos anfitriões

A lista apresentada por Taj à TV estatal iraniana ancora-se em pontos que vão do protocolar ao politicamente explosivo. A exigência mais sensível é a concessão de vistos para todos os membros da delegação, incluindo jogadores e comissão técnica que serviram na IRGC — organização classificada como terrorista pelos EUA desde 2019 e pelo Canadá desde 2024. Taj citou nominalmente o atacante Mehdi Taremi e o capitão Ehsan Hajsafi como exemplos de atletas que prestaram serviço militar na Guarda e que precisam de garantia de entrada.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, já sinalizou onde está o limite de Washington: jogadores iranianos são bem-vindos, mas pessoas com laços diretos com a IRGC não poderão integrar a delegação. A distância entre essa posição e a exigência iraniana é, geometricamente, a largura de um campo de futebol — e politicamente, muito maior.

As demais condições incluem segurança reforçada em aeroportos, hotéis e rotas para os estádios; respeito à bandeira e ao hino iraniano durante as partidas; e garantias logísticas para a base da seleção em Tucson, no Arizona. A federação também exige que nenhuma "potência externa" interfira na composição do elenco. A apuração do SportNavo indica que a Fifa rejeitou o pedido iraniano de transferir as partidas para o México e manteve o calendário original: estreia contra a Nova Zelândia em 15 de junho, em Los Angeles; duelo com a Bélgica em 21 de junho, também em Los Angeles; e encerramento da fase de grupos contra o Egito em 27 de junho, em Seattle.

O que a Fifa pode fazer e o que muda a partir de agora

O regulamento preliminar da Copa do Mundo de 2026 prevê, no artigo 5º, itens 2 e 3, que uma associação que se retire do torneio com mais de 30 dias de antecedência pode ser multada em ao menos 250.000 francos suíços — equivalentes a aproximadamente US$ 320.800 — e sofrer suspensão de competições futuras. A Fifa possui "discricionariedade exclusiva" para substituir o Irã por outra associação, e a tendência, segundo especialistas em direito desportivo, é que a vaga permaneça na Confederação Asiática (AFC), com Emirados Árabes Unidos e Iraque como candidatos mais prováveis.

"Nós definitivamente participaremos da Copa do Mundo de 2026, mas os anfitriões devem levar em conta nossas preocupações. Vamos participar do torneio, mas sem qualquer retirada de nossas crenças, cultura e convicções", afirmou a FFIRI em comunicado oficial citado pela agência Al Jazeera.

A declaração tem a estrutura de uma porta entreaberta: a federação confirma presença, mas condiciona tudo a um conjunto de garantias que os EUA, até agora, não demonstraram disposição de cumprir integralmente. Infantino se reuniu com dirigentes e jogadores iranianos em 31 de março, na Turquia, durante dois amistosos preparatórios da seleção — sinal de que o canal diplomático esportivo segue ativo. O governo iraniano, por sua vez, publicou fotos de treino em Teerã nesta semana, com porta-voz Fatemeh Mohejerani afirmando que "as providências necessárias foram tomadas para que os jogadores participem com orgulho e sucesso".

O Irã chega a 2026 em sua sétima Copa do Mundo e quarta consecutiva, tendo dominado as eliminatórias asiáticas. A seleção se prepara para estrear em 15 de junho, contra a Nova Zelândia, no SoFi Stadium, em Los Angeles — cidade que abriga uma das maiores comunidades iranianas do mundo desde a Revolução Islâmica de 1979. Se as dez condições não forem respondidas formalmente pelos anfitriões até o prazo regulamentar, a Fifa terá de acionar o artigo 6º de seu regulamento, que trata de situações de força maior, e decidir em tempo real o futuro de uma vaga conquistada dentro de campo.