Todo mundo sabe que São Paulo acordou nesta quinta-feira, 14 de maio, com o presidente do seu Conselho Deliberativo formalmente suspenso. O que a maioria ainda não processou direito é o caminho que levou a esse desfecho — uma sequência de movimentos que, vistos em retrospecto, parecem óbvios, mas que foram se acumulando em silêncio até explodir num despacho distribuído a todos os conselheiros logo pela manhã.
A narrativa que circula nos bastidores tricolores é a de uma disputa política comum, do tipo que qualquer clube grande enfrenta de tempos em tempos. Dois grupos, interesses divergentes, rusgas de poder. Quem acompanha o São Paulo de perto sabe que essa leitura é insuficiente. O que a Comissão de Ética descreveu em seu documento não é uma briga política ordinária — é a descrição de um réu que tentou controlar o próprio julgamento.
O que Olten fez que transformou uma crise política numa crise institucional
Olten Ayres de Abreu Jr. já enfrentava representações disciplinares por quebra de estatuto e gestão temerária quando decidiu dar um passo que agravou irreversivelmente sua situação: tentou destituir a própria Comissão de Ética, o órgão responsável por julgá-lo. A manobra não passou despercebida. Antonio Maria Patiño Zorz, presidente da Comissão, foi explícito no e-mail enviado aos conselheiros nesta manhã.
"O presidente do CD está travando os corriqueiros andamentos deste caso. A propósito, pelo que me foi cientificado, mais duas representações foram protocoladas na secretaria dos conselhos em desfavor do presidente do CD e ainda não foram repassadas para a comissão de ética", escreveu Zorz.
O documento vai além: descreve como, a partir do processo de número 2026009, Olten passou a dar "determinações limitativas às secretárias", interferindo diretamente nos trabalhos de intimação e organização dos feitos. Zorz foi categórico ao apontar o absurdo da situação: o representado fazendo gestão de como cumprir procedimento do qual é o réu. Isso não é política clubística — é obstrução de processo interno.
Há ainda um elemento que torna o caso ainda mais grave: um inquérito policial em andamento para apurar as circunstâncias em que foi produzido um parecer assinado por dois membros do Conselho Consultivo — José Eduardo Mesquita Pimenta e Ives Gandra Martins — cujo conteúdo era favorável à proposta de mudança estatutária apresentada por Olten no final de 2025. Os dois signatários contestaram o teor do documento e renunciaram aos seus cargos na véspera. Quando membros do próprio Conselho Consultivo repudiam um parecer com suas assinaturas e pedem demissão, o problema deixou de ser político e virou jurídico.
A narrativa do golpe institucional que não se sustenta sob análise
Há quem defenda que o afastamento de Olten é, na verdade, uma articulação da oposição para derrubá-lo antes do julgamento definitivo, marcado para 6 de julho. O argumento tem alguma lógica superficial: comissões de ética em clubes brasileiros raramente agem com essa velocidade, e o timing — às vésperas de uma sessão que poderia definir o futuro do presidente do Conselho — levanta suspeitas legítimas sobre motivações políticas.
O problema com essa leitura é que ela ignora os fatos documentados. A Comissão não agiu por iniciativa própria num vácuo: agiu em resposta a condutas específicas e registradas de Olten. O próprio despacho detalha o agravamento da postura do presidente após a tentativa de destituição da Comissão. Não é a oposição que está acusando Olten de obstrução — é o órgão que ele tentou eliminar, descrevendo por escrito as ações que justificam a suspensão imediata.
"Quando um dirigente tenta controlar o processo que vai julgá-lo, ele deixa de ser réu e passa a ser um problema estrutural para o clube", observou um ex-conselheiro de clube de grande porte, que acompanha o caso de fora.
A análise que o SportNavo faz deste episódio aponta para algo que vai além das trincheiras políticas do Morumbi: a fragilidade dos mecanismos de governança dos grandes clubes brasileiros quando confrontados com dirigentes dispostos a usar o aparato institucional contra ele mesmo. O caso do São Paulo é um espelho, e o reflexo não é confortável.
O que acontece agora e o que o São Paulo precisa resolver até julho
Com o afastamento em vigor desde esta quinta-feira, o vice-presidente do Conselho Deliberativo, João Farias Junior, foi instado pela Comissão de Ética a convocar uma sessão extraordinária com a maior brevidade possível para que os conselheiros referendem ou não a suspensão de Olten. Esse passo é decisivo: se a maioria do Conselho não referendar a suspensão, a Comissão perde autoridade prática sobre o caso antes mesmo do julgamento definitivo.
A Comissão também se posicionou sobre a estrutura de votação que deve ser utilizada para julgar as representações disciplinares contra Olten — um ponto que, por si só, já era disputado internamente. A definição desse rito processual importa porque determina quais conselheiros votam, com qual quórum e sob quais condições, o que pode ser decisivo num ambiente tão polarizado quanto o atual Conselho Deliberativo do São Paulo.
O julgamento definitivo de Olten Ayres de Abreu Jr. está marcado para 6 de julho. Até lá, o clube precisa resolver ao menos três questões simultâneas: a sessão extraordinária convocada por Farias Junior para referendar a suspensão, o andamento do inquérito policial sobre o parecer contestado por Mesquita Pimenta e Ives Gandra Martins, e a gestão das duas novas representações protocoladas contra Olten que ainda nem chegaram formalmente à Comissão de Ética. São Paulo tem seis semanas para colocar sua casa em ordem antes que o julgamento decida o capítulo seguinte dessa crise.









