Uma comissão de R$ 4,5 milhões detectada na véspera de uma votação do Conselho de Administração foi o estopim. Eduardo Toni, diretor de marketing do São Paulo, pediu demissão do cargo após semanas de pressão interna relacionadas ao contrato de patrocínio com a Unimed — um acordo de R$ 45 milhões por três anos que precisou ser refeito às pressas para retirar a participação da corretora New Honest como intermediária.

O contrato que virou bomba política

O acordo original com a Unimed previa que a New Honest recebesse R$ 4,5 milhões como comissão de intermediação — exatos 10% do valor total do contrato. O problema: a cláusula foi detectada apenas na véspera da votação pelo Conselho de Administração, o que obrigou a diretoria a refazer o documento do zero, excluindo a corretora e fechando o negócio diretamente com a seguradora. Segundo o clube, a New Honest, que já presta serviços de plano de saúde para funcionários e atletas tricolores, não possuía o histórico habitual para intermediar acordos de patrocínio desta natureza.

Toni, no entanto, rechaçou as críticas com veemência. Em resposta ao Estadão, ele afirmou que

"a intermediação foi transparente, documentada e autorizada pela presidência e demais diretores"
, acrescentando que a New Honest recebeu um mandato oficial do São Paulo para buscar empresas do setor de seguros após tentativas frustradas de negociação direta com outras marcas. Ele ainda defendeu que a corretora possui registro na Classificação Nacional de Atividades Econômicas — o CNAE — compatível com agenciamento de negócios, e que a prática é corrente no mercado.

Casares, Massis e a herança de uma gestão dividida

Para entender a dimensão do conflito, é preciso voltar alguns passos. Toni é aliado declarado do ex-presidente Julio Casares e permaneceu no cargo mesmo após Harry Massis Jr. assumir a presidência com a renúncia do antecessor. Essa continuidade sempre gerou atrito — um diretor com lealdade política ao grupo anterior operando dentro de uma nova gestão que precisa afirmar sua própria autoridade. A equação é instável por definição.

Quem argumenta em defesa de Toni aponta que ele era um profissional experiente, que trouxe contratos relevantes e que a politização da análise sobre a New Honest seria uma perseguição disfarçada de auditoria. O argumento tem algum mérito formal: comissões de 10% em contratos de patrocínio não são anomalia no mercado esportivo brasileiro. O que derruba essa linha de raciocínio, contudo, é o contexto específico: a corretora em questão já prestava serviços operacionais ao clube e não tinha histórico documentado em prospecção de patrocinadores master — duas realidades completamente distintas. Uma empresa habituada a gerenciar planos de saúde corporativos não tem, necessariamente, a estrutura de relacionamento para intermediar acordos de exposição de marca em camisas de time de futebol.

Na saída, Toni não poupou o ambiente interno. Ele atribuiu sua demissão a

"ódio e disputa fratricida da política interna"
do São Paulo — uma frase que diz mais sobre o estado do clube do que qualquer relatório financeiro conseguiria.

Um histórico de contratos questionados

A análise exclusiva do SportNavo mostra que este não é o primeiro contrato de Toni a gerar ruído na gestão Massis Jr. Dois acordos anteriores já haviam levantado questionamentos entre conselheiros: o contrato com a Live Nation, que obriga o São Paulo a mandar partidas fora do MorumBis em períodos de shows no estádio, e a renovação com a New Balance por seis anos, que gerou pedido formal de esclarecimentos dos conselheiros diante de uma proposta concorrente que estaria sobre a mesa. Três contratos sob questionamento em uma mesma gestão de marketing não é coincidência — é padrão.

O contrato que virou bomba política Toni deixa o São Paulo e expõe a guerra
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Quem sustenta a gestão de Toni diria que contratos longos e com intermediários são necessários em um mercado competitivo como o do futebol brasileiro. Razoável. Mas a transparência processual — especialmente em um clube com estrutura de governança que exige votação em Conselho de Administração — precisa ser rigorosa. Detectar uma cláusula de R$ 4,5 milhões para uma corretora apenas na véspera da votação não é detalhe administrativo; é falha grave de processo.

O que muda no marketing tricolor

Com a saída de Toni, o São Paulo precisa resolver dois problemas simultâneos: preencher a cadeira do diretor de marketing e votar novamente o contrato com a Unimed, desta vez sem a participação da New Honest. O Conselho de Administração deve reanalisar o patrocínio nas próximas semanas, agora com o acordo refeito e a intermediária retirada do documento. O contrato de R$ 45 milhões por três anos permanece na mesa — e aprovado, representará um reforço financeiro relevante para um clube que segue gerenciando sua folha dentro das restrições do futebol nacional.

O SportNavo apurou que a disputa pelo cargo ainda não tem nome definido, o que significa que o São Paulo entra nessa votação crítica sem um diretor de marketing titular. A combinação de vácuo político, contrato sensível e conselho dividido é, no mínimo, um cenário que exige velocidade de resposta da presidência de Massis Jr. — justamente o recurso que mais tem escasseado no Morumbi.