A última vez que uma torcida protestou contra seus próprios donos às vésperas de uma final da FA Cup foi… nunca. Não há registro. E é exatamente por isso que o que vai acontecer no Wembley Way neste sábado, 16 de maio, tem peso histórico — independentemente do que aconteça dentro do estádio. O grupo Not A Project CFC confirmou uma marcha a partir da estação de metrô de Wembley Park até o estádio, às 13h30 (horário local), antes do Chelsea enfrentar o Manchester City na grande final da FA Cup. É um ato que não tem precedente na história da competição mais antiga do futebol mundial.

Do Brentford a Wembley — como os protestos foram escalando

Tudo começou em janeiro de 2026, num jogo contra o Brentford, com gritos isolados e faixas discretas. Menos de quatro meses depois, a situação escalou para algo que ninguém no futebol inglês havia visto antes. Em abril, o Not A Project CFC convidou torcedores do Strasbourg — clube francês também controlado pela BlueCo — para marcharem juntos antes da derrota por 1 a 0 para o Manchester United, nos últimos dias do técnico Liam Rosenior no cargo. Na semifinal da FA Cup contra o Leeds, o grupo foi além: contratou um caminhão com a mensagem 'BlueCo Out' circulando pelas ruas. Cada protesto maior que o anterior, como um volume que vai subindo — e aí vem o problema.

O problema é que a BlueCo não respondeu. Segundo porta-voz do Not A Project CFC ao Standard Sport, após o último ato o clube prometeu "autorreflexão" — e ficou só nisso.

"Após nosso último protesto, o clube falou em autorreflexão. Não tivemos nenhuma comunicação sobre o resultado dessa autorreflexão, e isso é um problema contínuo: a falta de responsabilidade e de comunicação com os torcedores", declarou porta-voz do grupo ao Standard Sport.

Seis técnicos em quatro anos — o rastro de uma gestão sem rumo

A BlueCo chegou ao Stamford Bridge em 2022 liderada por Behdad Eghbali e Todd Boehly, com um plano audacioso: investir pesado em jovens talentos, desenvolvê-los, vencer títulos e lucrar com vendas. Aproximadamente 2 bilhões de dólares foram gastos na construção do elenco. O retorno? Um prejuízo pré-imposto de 350 milhões de dólares — o maior na história do futebol mundial. E o Chelsea caminha para terminar a temporada 2025/2026 no meio da tabela da Premier League, após uma derrota humilhante por 3 a 1 para o Nottingham Forest.

Liam Rosenior durou apenas 107 dias no cargo — vindo do Strasbourg, clube irmão da BlueCo, com um contrato de cinco anos e meio. Antes dele, Enzo Maresca havia deixado o clube em janeiro em meio a um conflito interno. O Chelsea agora busca seu sexto técnico permanente em quatro anos, com Calum McFarlane servindo como interino. Na avaliação do SportNavo, a instabilidade no banco é sintoma, não causa: o problema está nas diretorias de futebol, com os co-diretores esportivos Paul Winstanley e Laurence Stewart também na mira dos protestos — uma faixa específica questionando suas atuações será exibida na marcha de Wembley.

O que os torcedores querem — e o que Wembley representa

David Cook, 34 anos, um dos principais organizadores do Not A Project CFC, foi direto ao ponto quando questionado sobre a contradição de protestar numa final de Copa:

"Sei que vai parecer estranho para alguns torcedores. Você chega à final da FA Cup e isso é um sinal de sucesso. Mas isso é sobre como o clube está sendo administrado. Este é nosso clube, somos apaixonados e apoiamos nosso time. Queremos ele de volta."

A pesquisa do Chelsea Supporters' Trust, publicada em janeiro com 4.000 respostas anônimas, revelou descontentamento em múltiplas áreas: atmosfera nos jogos, acesso a ingressos, preços abusivos e, acima de tudo, falta de confiança na direção esportiva do clube. O grupo também planeja uma segunda ação no dia 19 de maio, na partida contra o Tottenham: na marca dos 22 minutos — referência ao ano em que a BlueCo assumiu o clube —, os torcedores dentro do estádio vão se levantar, virar as costas para o campo durante um minuto e entoar o canto "We want our Chelsea back".

A sombra do Tottenham — o espelho que o Chelsea não quer encarar

Há uma comparação que circula nos grupos de torcedores do Chelsea com frequência crescente: o paralelo com o Tottenham dos anos 2000 e 2010, um clube que gastou fortunas, trocou de treinador compulsivamente e perdeu identidade em meio a promessas corporativas que nunca se materializaram. Os fãs do Chelsea temem que o espiral já tenha começado. É quase como uma banda de rock que troca de vocalista a cada disco — tecnicamente pode funcionar, mas ninguém mais reconhece o som.

Cook resumiu o sentimento de quem vai marchar por Wembley Way com uma clareza desconcertante:

"Esperamos causar um impacto grande o suficiente para que potenciais investidores da BlueCo possam ver o que está acontecendo."

A mensagem não é só para o estádio. É para o mercado. Os protestos, segundo o grupo, continuarão além desta temporada e uma página de financiamento coletivo será lançada para sustentar as ações futuras. A final da FA Cup contra o Manchester City começa às 15h (horário de Londres) deste sábado. Ganhe ou perca, a luta dos torcedores volta ao Stamford Bridge na terça-feira, no minuto 22, com o Chelsea recebendo o Tottenham na última rodada da Premier League.