Ganhar por 8 a 0 e ainda ouvir 'time sem vergonha' do próprio torcedor. O paradoxo que tomou o Maracanã nesta segunda-feira não é irracional — é a expressão de uma conta que vinha sendo acumulada há semanas no Flamengo.

O que a goleada sobre o Madureira não apagou

Antes mesmo de a bola rolar, a arquibancada já cantava. Os gritos de "time sem vergonha" e "para jogar no 'Mengo tem que ter disposição" ecoaram pelo Maracanã como pré-jogo. Uma faixa estendida na mureta do setor Norte dizia tudo: "viemos pelo manto, não por vocês".

POV: sos el trompetista de la hinchada en un partido de CONMEBOL #LibertadoresFS 🎺

O 8 a 0 sobre o Madureira garantiu a vaga na final do Campeonato Carioca, onde o Flamengo enfrentará o Fluminense no clássico. Mas o placar não silenciou a torcida. No apito final, os protestos voltaram — desta vez após a goleada, não antes dela.

O contexto é direto: o Flamengo acumula vices na Supercopa do Brasil e na Recopa Sul-Americana, incluindo a derrota para o Lanús (Argentina), que gerou um protesto pacífico no Ninho do Urubu dias depois. A derrota por 3 a 0 para o Palmeiras no último sábado, pelo Brasileirão, foi a gota que transbordou. Uma goleada num jogo de menor pressão não redefine esse acúmulo.

Carrascal vira símbolo da frustração fora do campo

Jorge Carrascal entrou na mira da torcida de um jeito que vai além das quatro linhas. O colombiano foi expulso na derrota para o Palmeiras e, nos dias seguintes, virou alvo de um protesto organizado na frente de sua casa — episódio que cruzou a linha entre cobrança esportiva e assédio pessoal.

No pré-jogo contra o Cusco, pela 6ª rodada da fase de grupos da Libertadores, os xingamentos direcionados a Carrascal se misturaram com gritos de "Meu Flamengo não precisa de você". O primeiro tempo daquela partida terminou sem gols, o que gerou uma mistura de vaias e aplausos no Maracanã — retrato fiel do estado de espírito da torcida.

Na avaliação do SportNavo, o caso Carrascal é sintomático de algo maior: quando a torcida perde a paciência com um jogador específico, ele vira o repositório de toda a frustração acumulada com o coletivo. O colombiano não é o único problema — mas virou o rosto do problema.

Alex Sandro fala, mas o vestiário ainda não convenceu

Na saída de campo após o 8 a 0, Alex Sandro tentou colocar panos quentes com uma resposta que soou mais como protocolo do que convicção.

"No nosso elenco só há jogadores experientes, que já passaram por essa situação. É difícil controlar como a torcida vai torcer. O que nos resta é fazer nosso trabalho dentro do campo, melhorar a cada vez, e é isso que estamos fazendo. A torcida do Flamengo sempre teve uma enorme importância para o clube e os jogadores, mas temos que focar no nosso trabalho", disse o lateral.

A fala é defensável, mas chega num momento em que o elenco acumula resultados ruins nas competições de maior prestígio. Jogadores experientes, como o próprio Alex Sandro, são cobrados exatamente porque a experiência deveria se traduzir em consistência — e ela não apareceu nas finais perdidas desta temporada.

Filipe Luís e membros da diretoria também têm sido alvos de queixas. A pressão não é só sobre os jogadores de campo — é institucional. Lembra um pouco a dinâmica de Ted Lasso, onde a crise nunca é só técnica: ela sempre revela uma fratura de confiança entre quem joga e quem assiste. No Flamengo de 2026, essa fratura está exposta.

O efeito cascata nas próximas semanas

A final do Campeonato Carioca contra o Fluminense é o próximo teste imediato. Será o sexto Fla-Flu em final de Carioca, com data e horário ainda a definir para o próximo domingo. Uma derrota nesse contexto teria peso desproporcional — não pelo título em si, mas pelo que confirmaria sobre o estado mental do grupo.

Na Libertadores, o Flamengo ainda briga pela classificação na fase de grupos. Na 6ª rodada contra o Cusco, o empate no primeiro tempo mostrou que a equipe ainda não tem regularidade para alternar entre diferentes competições sem queda de rendimento.

No Brasileirão, a derrota por 3 a 0 para o Palmeiras deixou o Flamengo pressionado na tabela. O acúmulo de competições com elenco instável e clima interno deteriorado é uma combinação que já derrubou times maiores em temporadas anteriores.

A final do Carioca no domingo é o jogo que vale acompanhar com atenção: se o Flamengo vencer o Fluminense, a narrativa muda de direção. Se perder, a pressão sobre Carrascal, o elenco e a diretoria vai escalar para um nível que nenhuma goleada sobre o Madureira vai conseguir conter.