O Tottenham Hotspur está, neste início de maio de 2026, a dois pontos de escapar do rebaixamento mais inédito e humilhante de sua história recente na Premier League. Dezoito na tabela, separados do West Ham apenas pela diferença de gols e com quatro jogos restantes, os Spurs vivem um pesadelo que poucos anos atrás seria impensável para um clube que disputou a final da Champions League em 2019.

Três técnicos e uma queda sem freio

A temporada 2025/2026 entrou para a história do clube pelo pior motivo possível: três treinadores em menos de um ano. Thomas Frank chegou com a proposta de um futebol direto e físico, típico do que construiu no Brentford, mas não resistiu à inconsistência do elenco. Igor Tudor, contratado em seguida com a promessa de intensidade balcânica e um pressing mais agressivo, também não encontrou terreno fértil. A saída do croata abriu espaço para Roberto De Zerbi, o italiano que revolucionou o Brighton com seu estilo de construção posicional — quase um tiki-taka adaptado ao ritmo físico inglês — e que depois teve passagem discreta pelo Marseille.

De Zerbi estreou com derrota para o Sunderland, recém-promovido à Premier League, e já naquela ocasião foi direto ao ponto: o problema dos Spurs é mental. Desde então, acumulou um empate e uma vitória — justamente sobre o Wolverhampton, lanterna da competição — em três partidas à frente do clube. Pouco para sorrir, mas suficiente para o italiano manter o discurso firme às vésperas do confronto com o Aston Villa, marcado para este domingo, dia 3 de maio.

De Zerbi e a batalha contra a voz que paralisa

Quem já viveu em Londres conhece aquela névoa psicológica que a cidade impõe nos momentos de pressão — o peso da expectativa na torcida do White Hart Lane é algo que se sente na pele. De Zerbi parece entender isso com precisão cirúrgica. Em entrevista coletiva nesta sexta-feira, 1º de maio, o treinador foi além da análise tática e entrou em território quase filosófico:

"Ouçam, quero deixar isto bem claro. O desafio mais importante agora é silenciar aquela voz dentro de nós, dentro dos jogadores, dentro da comissão técnica e dentro dos torcedores. Essa voz pode gerar pensamentos negativos."

Ele completou reforçando a crença na qualidade do elenco, independentemente da crise emocional instalada:

"Somos bons o suficiente para vencer os jogos e somos bons o suficiente para nos mantermos na primeira divisão. Depois, veremos. É a única maneira que conheço: trabalhar duro e dar o meu melhor."

Quem acompanhou o trabalho de De Zerbi no Brighton sabe que essa abordagem não é postura de microfone. O italiano de fato constrói ambientes de alta confiança — o que os ingleses chamam de psychological safety — antes de implementar qualquer ideia tática. O problema é que o Tottenham tem quatro rodadas, não quatro meses.

Lesões, calendário e a matemática cruel

A análise do SportNavo aponta que, além do fardo emocional, De Zerbi enfrenta um elenco depauperado fisicamente. As lesões acumuladas ao longo da temporada limitam as opções táticas e impedem qualquer variação de sistema mais sofisticada — algo que o próprio treinador prioriza em seu trabalho de pressing alto e saída de bola pelo lado. O resultado é um time que depende mais de reação individual do que de organização coletiva.

A tabela restante tem dupla natureza. Aston Villa neste domingo é o adversário imediato e representa o maior obstáculo — o clube de Birmingham briga por vaga europeia. Após isso, os Spurs enfrentam Leeds, Chelsea e Everton. Leeds e Everton também lutam contra o rebaixamento, o que torna esses confrontos verdadeiros finais eliminatórias. O Chelsea, por sua vez, vive temporada irregular mas tecnicamente superior.

O que os próximos quatro jogos decidem

Com dois pontos de desvantagem para o West Ham, primeiro clube fora da zona de rebaixamento, a conta matemática é simples mas o caminho é íngreme. Qualquer tropeço em casa contra o Leeds, por exemplo, pode encerrar as esperanças antes da última rodada. Pela primeira vez em décadas, o Tottenham Hotspur — clube que já contratou Gareth Bale, Harry Kane e Dele Alli em suas fases áureas — olha para a Championship como uma possibilidade real.

Conforme levantamento do SportNavo, nenhum clube inglês com a dimensão histórica e financeira dos Spurs foi rebaixado da Premier League nos últimos 25 anos em circunstâncias semelhantes. A sequência começa já no domingo contra o Aston Villa, no Tottenham Hotspur Stadium, às 15h (horário de Brasília). Uma derrota praticamente fecha a porta. Uma vitória mantém viva a última chama de uma temporada que ninguém no norte de Londres vai querer lembrar.