Quando Kristyna Janku chegou à delegacia para prestar depoimento, ela ainda não sabia exatamente o que a aguardava. Os policiais exibiram gravações. Ela precisou assistir para confirmar que era ela. Quatro anos de imagens capturadas em vestiários e chuveiros do clube Slovacko, da primeira divisão feminina da República Tcheca — e ela jamais havia percebido a câmera. Esse detalhe, por si só, resume a dimensão do que o treinador Petr Vlachovsky fez com suas atletas.

Quatro anos de silêncio no vestiário do Slovacko

Kristyna atuou por mais de dez anos no futebol feminino tcheco e descreveu o ambiente do Slovacko como uma família. Vlachovsky era parte dessa família — até deixar de ser.

"Éramos como uma grande família. Durante todo o tempo, era como se ele fosse outra pessoa. Ele tinha uma segunda personalidade", declarou a atleta ao jornal tcheco Seznam Zpravy.
O treinador não se limitou a armazenar as gravações: segundo a investigação policial, ele as compartilhava com outro homem pela internet. Um dos policiais responsáveis pelo caso avisou Kristyna sobre o teor das conversas que acompanhavam o material.

"O policial me avisou: 'Você é a pessoa mais comentada nessas conversas'. Foram coisas realmente repugnantes", disse a jogadora.

A investigação concluiu que as gravações ocorreram ao longo de quatro anos, em episódios sistemáticos — não casuais. Vlachovsky foi condenado também por posse de material de abuso sexual infantil, o que torna ainda mais perturbador o quadro geral do caso. A câmera nunca foi vista pelas atletas durante todo esse período… e aí vem o problema.

A sentença que escandalizou o futebol feminino tcheco

Diante de um conjunto de provas que incluía anos de gravações ilegais, compartilhamento de conteúdo íntimo e material de abuso infantil, a Justiça tcheca decidiu suspender a pena de prisão de Vlachovsky. A punição concreta foi uma proibição de exercer a função de treinador na República Tcheca por cinco anos. Cinco anos — o mesmo tempo que um jogador médio leva para atravessar a fase mais produtiva da carreira.

A analogia que me ocorre é musical: imagine um produtor flagrado gravando artistas sem consentimento em estúdios privados, condenado a não trabalhar em São Paulo por um quinquênio. Nada impede que ele vá para o Rio, para Lisboa, para Buenos Aires. A lógica é a mesma — e é exatamente essa brecha que aterroriza as entidades do futebol feminino europeu.

Marketa Vochoska Haindlova, representante da Associação Tcheca de Jogadores de Futebol, foi direta ao apontar o risco real criado pela sentença branda.

"Não deveria ser possível, como nesse caso, que o treinador simplesmente mude de um continente para outro e faça o que bem entender", afirmou Haindlova.

O sindicato dos jogadores tcheco passou a pressionar por uma punição vitalícia e com validade internacional — o que exigiria coordenação entre federações nacionais e a FIFA, instituição que, historicamente, só age com velocidade quando a pressão midiática se torna insuportável.

O que o caso Vlachovsky revela sobre a segurança no futebol feminino europeu

Quem acompanhou o crescimento do futebol feminino na Europa ao longo das últimas três décadas sabe que o salto de qualidade técnica e visibilidade não veio acompanhado, na mesma velocidade, de estruturas de proteção às atletas. Nos anos 1990, quando a UEFA começou a formalizar competições femininas continentais, os vestiários eram improvisados, as comissões técnicas eram mistas sem qualquer protocolo de conduta, e a fiscalização de ambientes privados simplesmente não existia como categoria de preocupação institucional.

Hoje, em 2026, clubes como Barcelona, Chelsea e Lyon — os três mais títulos na Champions League feminina do século XXI — operam com instalações de alto nível e departamentos jurídicos que incluem protocolos de segurança para atletas. Mas esses são os gigantes. A vasta maioria dos clubes de primeira divisão em países como República Tcheca, Hungria, Eslováquia e Bulgária ainda funciona com estruturas que remontam aos anos 1980: vestiários sem monitoramento de acesso, câmeras de segurança voltadas apenas para áreas externas e ausência de políticas escritas de conduta para membros da comissão técnica.

O caso Vlachovsky não é uma anomalia isolada — é o sintoma mais visível de um sistema que nunca foi desenhado para proteger quem deveria proteger. A FIFA mantém desde 2017 o programa Safeguarding in Football, que estabelece diretrizes globais de proteção a atletas vulneráveis, mas a adesão efetiva por parte das federações nacionais é voluntária e irregular. A Federação Tcheca de Futebol, por exemplo, não possui até o momento uma política pública e acessível de denúncias anônimas para casos de abuso dentro de clubes.

Kristyna Janku tornou o caso público sabendo do custo pessoal envolvido. Sua motivação, no entanto, aponta para algo além do próprio sofrimento.

"Paradoxalmente, isso está me ajudando, transformando o negativo em positivo, quando vejo que podemos tentar trazer alguma mudança. Não quero que nenhuma outra menina ou mulher no futebol, ou em qualquer outro esporte, seja prejudicada dessa forma", disse a atleta.

A Associação Tcheca de Jogadores de Futebol deve apresentar formalmente à UEFA, nas próximas semanas, uma proposta de criação de um registro internacional de profissionais banidos por crimes contra atletas — mecanismo semelhante ao que já existe no futebol inglês desde 2014, gerido pela FA, e que impede técnicos punidos no país de obterem licença em qualquer divisão afiliada à federação britânica. Sem um equivalente europeu unificado, a sentença de cinco anos de Vlachovsky pode, na prática, durar zero.