Se fosse possível condensar noventa anos de Copa do Mundo numa única prateleira de troféus, o Brasil ocuparia mais espaço do que qualquer outro país. A BBC realizou esse exercício de síntese com uma lista dos dez maiores jogadores da história dos Mundiais — e três nomes verde-amarelos apareceram entre os primeiros: Ronaldo, Cafu e Pelé. Três jogadores, três décadas diferentes, três formas irredutíveis de ser lenda.

A publicação chegou no dia da abertura da Copa do Mundo de 2026 — um detalhe que não é ornamental. A BBC escolheu o momento em que o mundo inteiro olha para o futebol para dizer: antes de começar o novo capítulo, relembre quem escreveu os melhores. E o Brasil, com três representantes no top 10, aparece como a única seleção capaz de enviar múltiplos jogadores ao coração desse panteão.

O critério que Klose não sobreviveu

O primeiro sinal de que a lista da BBC não seria uma tabela de estatísticas puras veio com uma ausência notável. Miroslav Klose, o maior artilheiro da história das Copas com 16 gols em quatro torneios — 2002, 2006, 2010 e 2014 —, ficou de fora. O autor da lista, o jornalista Alex Bysouth, reconheceu a omissão: o alemão poderia figurar num disputado 11º lugar, mas não chegou aos dez. A explicação implícita é reveladora: Copa do Mundo não se mede apenas em gols. Mede-se em narrativa, em impacto, em capacidade de transformar um torneio em algo maior do que o resultado.

Nesse critério narrativo, os brasileiros são imbatíveis. Pelé venceu três Copas — 1958, 1962 e 1970 — tornando-se o único jogador na história a ter o nome gravado em três troféus diferentes. Klose marcou mais gols do que qualquer outro, mas nunca foi o personagem central de uma Copa inteira da forma como Pelé foi em 1970, no México, ou como Ronaldo foi em 2002, no Japão e na Coreia do Sul.

Cafu e o recorde que ninguém mais tem

Em 9º lugar na lista da BBC aparece um nome que costuma ser subestimado fora do Brasil: Marcos Evangelista de Morais, o Cafu. O lateral-direito do São Paulo e da Roma é o único jogador da história a disputar três finais de Copa do Mundo — 1994, 1998 e 2002. Essa marca específica supera até mesmo os números de Klose: enquanto o centroavante alemão acumula 16 vitórias em Copas, Cafu ostenta 16 triunfos em quatro torneios, segundo a própria BBC, mas carrega algo que nenhuma tabela de artilharia consegue registrar.

«O lateral-direito incansável entrou em campo vindo do banco de reservas quando o Brasil derrotou a Itália nos pênaltis no Rose Bowl, em 1994, foi vice-campeão na França quatro anos depois e, em seguida, levantou o troféu como capitão em 2002. Cafu é da realeza da Copa do Mundo», escreveu a BBC.

Três finais em oito anos. Para contextualizar a raridade desse feito: entre 1994 e 2002, apenas oito seleções disputaram as finais da Copa. Cafu esteve em todas as três. Ele entrou pela primeira vez em 1994 como reserva, saiu campeão; voltou em 1998 como titular e perdeu para Zidane e a França de Aimé Jacquet; ergueu a taça em 2002 como capitão, depois de dois gols de Ronaldo sobre a Alemanha. São três arcos narrativos completos dentro de uma única carreira.

Ronaldo e o gol que apagou Paris

Em 3º lugar na lista da BBC, Ronaldo ocupa o pódio com uma história que transcende o esporte. Os anos entre 1998 e 2002 foram marcados por uma lesão grave no joelho que quase encerrou sua carreira na Inter de Milão. Sua participação na Copa de 2002 chegou a ser colocada em dúvida publicamente. O que veio depois entrou para a mitologia do futebol.

«Os anos que antecederam a Copa do Mundo de 2002 foram marcados por uma grave lesão no joelho. Ronaldo quase não jogou pela Inter de Milão ou pela seleção brasileira, e sua participação no torneio ficou em dúvida. Mas no Japão e na Coreia do Sul, ele conseguiu reacender lampejos de genialidade, marcando oito gols, incluindo dois na final contra a Alemanha, para dissipar as dolorosas lembranças de Paris», registrou a BBC.

Os oito gols de Ronaldo em 2002 representam mais do que qualquer artilheiro brasileiro havia marcado numa única Copa desde Leônidas da Silva em 1938. E "as dolorosas lembranças de Paris" que a BBC menciona remetem à final de 1998 — quando Ronaldo convulsionou horas antes do jogo, jogou mesmo assim e viu a França de Zidane vencer por 3 a 0. A Copa de 2002 foi, em certa medida, uma redenção que poucos atletas conseguem escrever com tamanha precisão dramática.

Pelé no topo e o Brasil como nação de Copas

No 1º lugar, a BBC não encontrou dificuldade. A escolha de Pelé foi descrita pelo autor como evidente, quase automática. O rei do futebol é o único homem a conquistar três Copas do Mundo em diferentes décadas, e a BBC o chama de «o nome mais icônico que o esporte já teve». Nascido Edson Arantes do Nascimento em 1940, Pelé estreou na Copa de 1958 na Suécia aos 17 anos — tornando-se o jogador mais jovem a marcar numa final — e se despediu do torneio em 1970, no México, com a que muitos consideram a maior seleção da história.

Diego Maradona aparece em 2º lugar na lista, e Lionel Messi entra na relação disputando a Copa de 2026, mas o fato de três brasileiros ocuparem as posições 1, 3 e 9 diz algo estrutural: o Brasil não produziu apenas grandes jogadores, produziu personagens de Copa. Jogadores cuja grandeza se amplifica em julho, que sabem transformar pressão em protagonismo numa frequência que nenhuma outra nação reproduziu com a mesma consistência — cinco títulos mundiais, oito finais disputadas, presença em todos os 22 torneios da história.

A Copa de 2026 está em curso, e o Brasil tenta retomar o protagonismo que essas três lendas simbolizam. Acompanhar os jogos da seleção nas próximas semanas é revisitar, a cada partida, a tradição que Pelé, Ronaldo e Cafu ajudaram a construir — e que esta geração carrega como herança e como cobrança, em medidas iguais. O próximo capítulo do Brasil na Copa será escrito nos gramados americanos, e o peso desse passado estará presente em cada lance, conforme registrado pelo SportNavo ao longo do torneio.