Diz-se que o impacto de um jogador estrangeiro em um clube europeu se mede pelos títulos conquistados. Na verdade, não se mede — e os adeus de Casemiro, Endrick e Robert Lewandowski no fim de semana de 17 e 18 de maio de 2026 deixaram isso explícito. Os três saíram de campo sem um troféu coletivo nas mãos nesta temporada, mas foram ovacionados como se tivessem vencido tudo. A diferença entre o que a estatística diz e o que a torcida sente é, às vezes, da distância entre Recife e Porto Alegre — e nenhum número fecha esse vão.

Casemiro encerra um ciclo em Old Trafford com vitória e homenagem coletiva

Quando Gary Neville e Roy Keane ocupavam o meio-campo do Manchester United, Old Trafford tinha a reputação de ser um campo intransponível para qualquer adversário. Casemiro chegou em 2022 com a missão implícita de resgatar essa identidade — e, mesmo em uma fase institucional turbulenta do clube, cumpriu a função de âncora em um setor que havia desmoronado. No sábado (17), o volante de 34 anos foi titular na vitória por 3 a 2 sobre o Nottingham Forest, recebeu bandeiras e aplausos das arquibancadas antes do apito inicial e foi substituído nos minutos finais sob ovação unânime.

A partida teve um episódio que resumiu bem a temporada irregular do United: o segundo gol, marcado por Matheus Cunha, passou por longa revisão no VAR porque a bola tocou no braço de Mbeumo antes da finalização. O gol foi validado, mas o debate sobre a decisão durou mais do que a comemoração. Casemiro, convocado por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo, deixa o clube com 160 jogos disputados pela camisa vermelha e um único título relevante — a Copa da Liga Inglesa de 2023. O legado, porém, vai além da prateleira de troféus: foi ele quem devolveu ao meio-campo do United a capacidade de destruir jogadas antes que chegassem à área.

"Casemiro fez o que poucos conseguem: manteve o nível em um clube que estava se reconstruindo ao redor dele", escreveu o jornalista inglês Henry Winter no The Times, em análise publicada após o jogo.

Endrick sai aplaudido mesmo com o Lyon sendo goleado por 4 a 0

Há um precedente histórico que ajuda a entender o que aconteceu em Lyon no domingo (18). Em 2014, quando Alexandre Pato se despediu do Milan após uma série de lesões e atuações inconsistentes, a torcida rossonera ficou em silêncio — não havia afeto suficiente para cobrir a decepção. O caso de Endrick no Lyon foi o oposto: o brasileiro de 18 anos saiu de campo aos 25 minutos do segundo tempo, com o time já perdendo por 4 a 0 para o Lens, e a torcida do Groupama Stadium se levantou para aplaudir.

Emprestado ao clube francês pelo Real Madrid desde o fim de 2025, Endrick viveu uma temporada de adaptação que, segundo a avaliação do SportNavo, foi mais consistente do que os números brutos sugerem. O atacante operou em um sistema tático que raramente o colocava como referência central, mas construiu repertório técnico e físico para o que vem pela frente. A derrota por 4 a 0 para o Lens, na última rodada da Ligue 1, não apagou a impressão positiva que deixou em Lyon — e Ancelotti, que também o convocou para a Copa do Mundo, já sinalizou que conta com ele no Real Madrid a partir de julho.

Casemiro encerra um ciclo em Old Trafford com vitória e homenagem coletiva Três
Casemiro encerra um ciclo em Old Trafford com vitória e homenagem coletiva Três
"Ele vai voltar diferente. O empréstimo fez o que precisava fazer", disse uma fonte próxima à comissão técnica do Real Madrid, segundo o jornal AS.

Lewandowski fecha o ciclo no Camp Nou enquanto Raphinha rouba a cena

Robert Lewandowski anunciou no sábado que não renovará com o Barcelona ao fim do contrato, encerrando um ciclo de quatro anos na Catalunha. O polonês de 37 anos entrou em campo pela última vez no Camp Nou na vitória por 3 a 1 sobre o Real Betis, mas quem assumiu o protagonismo foi Raphinha — o brasileiro marcou os dois primeiros gols do Barça e foi lembrado publicamente por Ancelotti como um dos nomes observados para a Copa do Mundo. O terceiro gol foi de João Cancelo; Isco descontou para o Betis.

A comparação com a despedida de Ronaldo Nazário do Barcelona em 1997 — que também saiu sem o título que merecia — é inevitável, mas incompleta. Lewandowski chegou em 2022 como o substituto de uma era, marcou 93 gols em 135 jogos pelo clube e conquistou uma La Liga. Saiu em um momento em que o projeto blaugrana já mirava a próxima geração, com Lamine Yamal e Pedri como eixos. A ovação que recebeu no Camp Nou foi genuína — e diferente do silêncio que costuma receber quem sai pela porta dos fundos.

O que as três despedidas dizem sobre o futebol que vem pela frente

No mesmo fim de semana, o Manchester City conquistou a Copa da Inglaterra ao bater o Chelsea, consolidando a hegemonia de Pep Guardiola em mais uma competição doméstica. O Al Nassr, de Cristiano Ronaldo, perdeu a final da Champions League Asiática II para o Gamba Osaka — mais um título que escapa das mãos do português nesta temporada. O contraste entre essas histórias e as despedidas de Casemiro, Endrick e Lewandowski revela algo sobre o momento do futebol europeu: a era dos ciclos longos está se fragmentando, e jogadores que antes passariam uma década no mesmo clube agora migram em janelas de dois ou três anos.

Casemiro e Endrick se reencontrarão na seleção brasileira de Ancelotti, que estreia na Copa do Mundo em junho. O volante chega como um dos líderes do grupo; o atacante, como a maior aposta de futuro do Brasil. Lewandowski, por sua vez, deve encerrar a carreira europeia e avaliar propostas da MLS ou da Saudi Pro League. Os três deixaram marcas reais nos clubes que passaram — e a Copa do Mundo de 2026 será o próximo palco para medir o que esse legado vale em campo.

Casemiro e Endrick embarcam para a Copa do Mundo. Lewandowski fecha as malas para um destino ainda indefinido.