Quantos desfibriladores existem nos campos sintéticos e quadras de tênis do interior do Paraná? A pergunta não é retórica — ela é o epicentro de um debate urgente que três mortes em menos de três semanas forçaram à superfície. William Pinheiro, Valdirlei Heuer e Eric de Oliveira praticavam esportes que amavam quando seus corações pararam. Nenhum dos três estava em uma arena profissional com equipe médica de plantão.
O intervalo entre o primeiro e o último caso é de apenas 16 dias — um ritmo que, no calendário de uma Superliga de vôlei, mal cobre duas rodadas completas. No esporte amador paranaense, esse mesmo intervalo registrou três paradas cardiorrespiratórias fatais em cidades que vão do litoral ao interior: Matinhos, Maringá e Ponta Grossa. A concentração geográfica e temporal não é coincidência estatística; é sintoma.
Os três casos e o padrão que os une
O primeiro óbito ocorreu em 19 de abril, em uma arena esportiva no bairro Jardim Sumaré, em Maringá. Eric de Oliveira, 41 anos, caiu de forma repentina durante uma partida entre amigos. O SAMU foi acionado e realizou manobras de reanimação por mais de uma hora no local — o óbito foi confirmado ainda dentro da arena. Treze dias depois, em 2 de maio, William Pinheiro — o "Kiko" — marcou um gol aos 14 minutos de jogo na Copa Matinhos de Futebol 7, no campo sintético do Gaúcho, em Matinhos, e em seguida começou a passar mal. Ele foi socorrido pela organização do evento e levado a uma UPA, mas não resistiu. A Federação de Futebol 7 do Paraná (F7PR) divulgou nota de pesar e se colocou à disposição da família.
O terceiro caso fechou a sequência na noite de 4 de maio, em Ponta Grossa. Valdirlei Heuer, 53 anos, ex-diretor de tênis do Clube Verde e praticante com mais de 40 anos de experiência em quadra, havia acabado de concluir uma partida de treino e se sentou para descansar quando começou a passar mal. O SAMU foi acionado rapidamente e tentou reanimá-lo por 20 minutos, sem sucesso. O Clube Princesa dos Campos publicou nota oficial destacando que Heuer foi "um pilar fundamental na construção da história e do prestígio deste Clube".
O que os protocolos dizem — e o que os eventos não tinham
A apuração do SportNavo junto a especialistas em medicina esportiva indica que o Conselho Federal de Medicina e entidades como a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomendam a presença de desfibriladores externos automáticos (DEAs) em qualquer evento esportivo com mais de 500 participantes ou espectadores — e treinamento básico em RCP para ao menos dois membros da organização. Nos três casos paranaenses, não há registro público de que esses equipamentos estavam disponíveis no local. No caso de Kiko, a organização da Copa Matinhos socorreu o atleta, mas ele só recebeu atendimento médico especializado na UPA, fora do campo.

"A Copa Matinhos perde não apenas um atleta, mas também um amigo sempre presente nos momentos de alegria que o futebol proporciona", publicou a organização do torneio em nota oficial.
A comparação com protocolos internacionais é desfavorável ao cenário brasileiro. Na Espanha, a Real Federación Española de Fútbol exige DEA em todos os campos com iluminação artificial desde 2019. Na Itália, após a morte do jogador Piermario Morosini em 2012, uma lei federal tornou obrigatório o desfibrilador em qualquer atividade esportiva organizada — amadora ou profissional. No Brasil, a Lei 13.722/2018 obriga a presença de DEA apenas em ginásios, estádios e arenas com capacidade acima de 1.500 pessoas, deixando de fora a imensa maioria dos espaços onde o esporte amador acontece.
O silêncio das federações e a conta que o esporte amador paga
A F7PR emitiu nota de solidariedade após a morte de William Pinheiro, mas não divulgou nenhuma medida concreta sobre protocolos de segurança para as próximas rodadas da Copa Matinhos. A Federação Paranaense de Tênis também não se pronunciou sobre o caso de Valdirlei Heuer até o fechamento desta matéria. Esse silêncio institucional é o mesmo que se repete em outros estados — e é tão previsível quanto o trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira: todo mundo sabe que vai acontecer, ninguém age antes do congestionamento.
"Sua dedicação incansável, seu espírito de liderança e seu amor pelas cores do Princesa dos Campos deixam um legado que jamais será esquecido", escreveu o Clube Verde em nota sobre Valdirlei Heuer.
O que federações e organizadores precisam adotar com urgência
Especialistas em medicina esportiva apontam um conjunto mínimo de medidas que qualquer torneio amador deveria implementar imediatamente. A lista inclui: presença de ao menos um DEA por campo ou quadra em uso; treinamento em RCP para dois membros da comissão organizadora por evento; triagem cardiovascular básica — incluindo eletrocardiograma — para atletas acima de 35 anos antes de competições; e protocolo escrito de acionamento do SAMU com endereço preciso do local. Profissionais de saúde que acompanharam o caso de Eric de Oliveira em Maringá reforçaram que sintomas como dor no peito, falta de ar e tontura durante atividade física nunca devem ser ignorados, e que check-ups regulares são determinantes para praticantes de esportes de média e alta intensidade.
O sepultamento de Valdirlei Heuer foi realizado na tarde desta terça-feira (5), no Cemitério Parque Campos Gerais, em Ponta Grossa. A Copa Matinhos de Futebol 7 não divulgou se a competição será retomada e em quais condições de segurança — essa resposta, mais do que qualquer nota de pesar, definirá o tamanho do legado que esses três atletas deixam para o esporte amador paranaense. O debate chegou — faltam as ações.








