"Qualquer analista que afirmar que sabe quem vai ao segundo turno no Rio Grande do Norte hoje está chutando." A frase é de um consultor eleitoral que acompanha o estado há três ciclos olímpicos eleitorais — e ela resume melhor do que qualquer tabela o estado atual da corrida ao Palácio de Despachos. Entre junho de 2025 e maio de 2026, três institutos diferentes produziram três retratos completamente distintos da mesma disputa.

O que cada pesquisa mostrou e quando foi feita

O ponto de partida é junho de 2025. O Instituto Seta ouviu 1.500 eleitores entre os dias 14 e 17 daquele mês e encontrou Allyson Bezerra (União Brasil) na liderança com 31,33%, mais que o dobro do segundo colocado. Carlos Eduardo Xavier, o Cadu (PT), aparecia com 15,20%, e Rogério Marinho (PL) fechava o pódio com 13,80%. Naquele momento, Álvaro Dias mal era citado espontaneamente — 0,40% no cenário sem apresentação de nomes.

Nove meses depois, o Instituto Data Ranking realizou entrevistas presenciais e domiciliares nos dias 24, 25 e 26 de março de 2026, com amostra estratificada por sexo, faixa etária, escolaridade e renda. O resultado: Allyson ainda liderava, mas com 39,20%, Álvaro Dias aparecia em segundo com 20,6%, e Cadu Xavier despencava para 9,1%. A margem de erro era de 2,19 pontos percentuais.

Então chegou a pesquisa Affare, contratada pelo Partido Novo e realizada entre 16 e 21 de maio de 2026, com 1.500 entrevistas telefônicas automatizadas e margem de erro de 2,58 pontos. O cenário virou de cabeça para baixo: Álvaro Dias assumiu a liderança com 34,5%, Allyson recuou para 28,6%, e Cadu Xavier saltou para 24,4% — quase o triplo do que registrava no Data Ranking dois meses antes. O levantamento está registrado sob os números RN-03580/2026 e BR-03850/2026.

Em síntese comparativa:

  • Instituto Seta (junho/2025): Allyson 31,33% | Cadu 15,20% | Rogério 13,80% | Álvaro abaixo de 1%
  • Data Ranking (março/2026): Allyson 39,20% | Álvaro 20,60% | Cadu 9,10%
  • Affare (maio/2026): Álvaro 34,50% | Allyson 28,60% | Cadu 24,40%

Metodologia e período explicam parte das divergências

A diferença mais evidente está na forma de coleta. O Data Ranking usou entrevistas presenciais e domiciliares, método que historicamente capta melhor o eleitor de menor renda e menor acesso a telefone — perfil que no Nordeste tende a ser mais fiel ao PT e a candidatos com enraizamento local. A Affare usou ligações telefônicas automatizadas, modalidade que sobre-representa eleitores com celular ativo e maior engajamento político, segmento que no RN inclui uma fatia bolsonarista e liberal mais articulada.

O intervalo de tempo também pesa. Entre março e maio de 2026, dois eventos alteraram o tabuleiro: a associação pública de Álvaro Dias ao pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL) ganhou visibilidade nacional, e Cadu Xavier passou a aparecer vinculado diretamente ao presidente Lula nas peças de campanha do PT. A pesquisa Affare já capturou esse reposicionamento — e mostrou Cadu quase triplicando sua pontuação em relação ao Data Ranking.

"Quando o eleitor começa a enxergar a eleição estadual como um reflexo da federal, os números mudam rápido. O voto de governador vira voto de Lula ou voto de Bolsonaro, e aí a lógica local perde espaço", observou um especialista em comportamento eleitoral nordestino ouvido em matéria do SportNavo.

A rejeição é outro dado que complica a leitura. Na pesquisa Affare, Cadu Xavier lidera a rejeição com 42,3%, mesmo sendo o candidato do grupo governista. Álvaro Dias aparece logo atrás com 35,0% de rejeição — número alto para quem lidera as intenções de voto. Isso significa que a liderança de Álvaro é frágil: ele tem o maior percentual de intenção, mas também uma barreira de crescimento considerável.

O que muda nas próximas semanas antes do período eleitoral formal

O quadro partidário ainda não está fechado. Rogério Marinho, que aparecia com 13,80% na pesquisa Seta de junho de 2025, praticamente desapareceu dos levantamentos mais recentes — sinal de que a consolidação de Álvaro Dias como nome do campo bolsonarista no RN absorveu boa parte desse eleitorado. A questão é se Marinho permanecerá fora da disputa ou se tentará um reposicionamento até o prazo de filiação partidária.

No campo presidencial, o RN replica a polarização nacional: a pesquisa Affare mostrou Lula com 43,3% e Flávio Bolsonaro com 40,2% no estado, com rejeição em empate técnico — 45,5% e 45,6%, respectivamente. Esse equilíbrio torna o RN um estado genuinamente competitivo em todos os níveis, o que explica por que os números para governador oscilam tanto a cada nova rodada de pesquisas.

A próxima leva de levantamentos, esperada para junho e julho de 2026, será decisiva para entender se a liderança de Álvaro Dias na Affare representa uma tendência real ou um efeito de metodologia. Com três candidatos dentro da margem de erro em pelo menos um dos institutos, qualquer eleitor potiguar que quiser acompanhar a evolução do quadro deve marcar no calendário as datas de registro dos próximos levantamentos no TRE-RN — os números de junho vão revelar se o movimento de Cadu Xavier em direção ao segundo lugar tem sustentação ou se foi ruído estatístico.