O Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas (FGV) se reúne nesta quarta-feira (29) para decidir, em caráter definitivo, se John Textor permanece afastado da gestão da SAF do Botafogo. Não há horário fixado para a divulgação do veredicto. Não há recurso possível.
O que levou Textor ao banco dos réus
Na semana passada, o mesmo tribunal tirou Textor da cadeira de forma imediata e provisória. Dois atos foram determinantes para a decisão. O primeiro foi a assinatura de um acordo de compra e venda (SPA) que previa a transferência da SAF para uma empresa localizada em paraíso fiscal, em janeiro de 2026. Textor assinou o contrato pelas três partes envolvidas: a própria SAF, a Eagle Bidco — subsidiária inglesa sob administração judicial — e a Eagle Football Group, com sede nas Ilhas Cayman.
O segundo fator foi o ajuizamento de um pedido de recuperação judicial sem deliberação em assembleia. Os árbitros classificaram o ato como violação frontal das regras de governança e desobediência a ordens expressas emitidas anteriormente pelo próprio tribunal. A recuperação judicial é a saída de curto prazo que o empresário norte-americano defende para enfrentar a insolvência da SAF, clube que acumula dívidas em volume descrito internamente como crise financeira sem precedentes.
A sentença que afastou Textor foi assinada pelos árbitros Adriana Braghetta, Alina de Miranda Valverde Terra e Lauro da Gama e Souza Júnior.

Por que a FGV tem a palavra final
A Justiça do Rio de Janeiro extinguiu o processo que tramitava na esfera comum sobre o controle da SAF e transferiu a competência para a Câmara de Mediação e Arbitragem da FGV. O mecanismo é de natureza privada e autônoma, mas tem poder de execução jurídica e vincula as partes — Ares, Textor e o Botafogo associativo — pelo acordo firmado entre elas. Sem instância superior para acionar, o veredicto desta quarta encerra o litígio no que diz respeito à gestão imediata do clube.
A estrutura acionária do futebol alvinegro coloca a Eagle Football Group como detentora de 90% da SAF. O associativo controla os 10% restantes. Textor é o sócio majoritário da Eagle, mas está suspenso do exercício de qualquer função executiva desde a liminar da semana passada.
"É o juízo final. A história do bem e do mal. Quero ter olhos para ver a maldade desaparecer." — Nelson Cavaquinho, canção que se tornou hino nas rodadas de samba cariocas e que ganhou nova camada de sentido diante do imbróglio societário do Glorioso.
Os cenários possíveis após o veredicto
Se o tribunal confirmar o afastamento definitivo, Textor perde o poder de representar a SAF em qualquer instância, abrindo caminho para que a Ares — principal credora da Eagle — assuma ou indique gestores para o clube. A Ares já se posicionou contra Textor nas disputas recentes, o que sinaliza tensão direta entre o fundador da Eagle Football e seus próprios financiadores.
Se os árbitros reverterem a liminar e reinstituírem Textor, ele retorna com o desafio imediato de viabilizar a recuperação judicial — processo que, segundo apuração do SportNavo, segue contestado por parte dos credores e carece de aprovação formal dos acionistas para ter legitimidade plena.
Independentemente do resultado, a SAF segue com o passivo financeiro intacto. O modelo de SAF, criado pela Lei 14.193/2021, permite que credores executem dívidas diretamente contra a empresa de futebol, separada do patrimônio do clube associativo — o que torna a insolvência da SAF um risco real de liquidação do futebol profissional do Botafogo.
O que muda para o Botafogo dentro de campo
A instabilidade societária já afeta o planejamento esportivo. O elenco campeão da Copa Libertadores de 2024 passou por saídas relevantes na janela de transferências, e o clube entrou no Campeonato Brasileiro sem reforços de peso anunciados até o momento desta publicação. Conforme levantamento do SportNavo, nenhum contrato de contratação expressiva foi registrado junto à CBF nas últimas três semanas.

O Botafogo volta a campo pelo Brasileirão no próximo fim de semana. O resultado do tribunal, esperado para esta quarta-feira, vai definir quem assina os próximos cheques e autoriza movimentações no mercado — inclusive eventuais renovações de contrato com atletas cujos vínculos vencem ao final de 2025.








