Quando Donald Trump declarou, em março de 2025, que a presença do Irã na Copa do Mundo de 2026 em solo americano era uma questão de segurança nacional, o fantasma da política voltou a rondar o maior torneio do futebol. Na quinta-feira, 30 de maio, o próprio presidente dos Estados Unidos reverteu o discurso em conversa com jornalistas na Casa Branca, sinalizando que não via mais obstáculos à participação iraniana.

"Se o Gianni falou, eu concordo. Disse a ele que poderia decidir como quisesse", declarou Trump, referindo-se ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, que já havia garantido publicamente a vaga do Irã no torneio.

O recuo de Trump foi reforçado pelo secretário de Estado Marco Rubio, que afirmou que os jogadores iranianos serão bem recebidos nos Estados Unidos. A expectativa é que a seleção do Irã se instale em Tucson, no Arizona, durante a competição. O país asiático integra o Grupo G ao lado de Nova Zelândia, Bélgica e Egito, com estreia marcada para 15 de junho, em Los Angeles.

A história de Copas marcadas pela política

Quem acompanha o futebol mundial há décadas sabe que a interferência política em Copas não é novidade — ela tem endereço, data e consequências documentadas. O caso mais recente e emblemático é o da Rússia, banida da Copa do Catar 2022 pela FIFA após a invasão da Ucrânia em fevereiro daquele ano. A equipe russa, que havia eliminado Polônia e Suécia nas repescagens europeias, foi excluída a menos de um mês do sorteio final, em março de 2022. A Polônia, adversária que seria a primeira a enfrentar os russos, recebeu a vaga.

O precedente histórico mais antigo remonta à Espanha franquista: em 1950, com o ditador Francisco Franco no poder, a seleção espanhola participou da Copa no Brasil — prova de que a FIFA nem sempre aplicou critérios políticos de forma uniforme ao longo das décadas. Já a África do Sul foi suspensa das eliminatórias da Copa de 1966 por causa do apartheid, só retornando à comunidade futebolística internacional em 1992, após o fim do regime. Uma ausência de 26 anos em Copas, número que ilustra a brutalidade das sanções esportivas.

O caso de Israel merece atenção especial no contexto atual. A seleção israelense está classificada para a Copa de 2026 e integra o Grupo B ao lado de França, Uruguai e Paraguai. Desde o início do conflito em Gaza, em outubro de 2023, organismos como a Associação de Futebol da Palestina protocolaram pedidos formais à FIFA para suspender Israel do futebol internacional — argumentação semelhante à utilizada contra a Rússia. Até o fechamento desta edição, a FIFA não havia tomado nenhuma medida punitiva contra os israelenses.

Quais seleções ainda correm risco de exclusão

Na avaliação do SportNavo, com base no histórico regulatório da FIFA e nos conflitos geopolíticos em curso, pelo menos três contextos merecem monitoramento até o início do torneio, previsto para junho de 2026.

  • Israel — Classificada, mas com pedido de suspensão protocolado pela Palestina. A pressão política global sobre a FIFA é crescente, especialmente após a Copa de 2022 servir de referência para o caso russo.
  • Coreia do Norte — Não se classificou para 2026, mas historicamente tem relação errática com a FIFA. Em 2010, participou da Copa na África do Sul — único torneio mundial de sua história — e depois desapareceu das eliminatórias por anos, se recusando a disputar a fase classificatória para o Catar 2022.
  • Irã — Apesar do recuo de Trump, a situação permanece delicada. Autoridades iranianas chegaram a cogitar disputar os jogos da fase de grupos no México, hipótese descartada pela FIFA. Qualquer escalada nas tensões diplomáticas entre Washington e Teerã antes de junho de 2026 pode reabrir o debate.

Como a FIFA tenta blindar o torneio

O posicionamento de Infantino ao garantir a vaga do Irã segue uma lógica institucional que a FIFA defende desde pelo menos 1986, quando o torneio foi realizado no México após os Estados Unidos recusarem a sede por razões logísticas. O argumento central da entidade é que o futebol deve ser separado da diplomacia — princípio que, na prática, é aplicado de forma seletiva, como demonstra o banimento russo de 2022.

"Acho que devemos deixá-los jogar", disse Trump, em tom que misturou ironia e condescendência ao comentar sobre a força da equipe iraniana, mas que, politicamente, encerrou a controvérsia imediata.

O levantamento do SportNavo sobre as oito últimas edições da Copa mostra que em seis delas houve pelo menos um episódio de tensão política envolvendo a participação ou a exclusão de alguma seleção — de Taiwan à Iugoslávia, passando por Iraque e Afeganistão. A Copa de 2026, sediada em três países (Estados Unidos, México e Canadá) com 48 seleções participantes, amplia matematicamente a probabilidade de novos conflitos surgir até a abertura do torneio, em 11 de junho de 2026, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

O Irã faz seu primeiro jogo no dia 15 de junho, em Los Angeles — uma cidade com mais de 600 mil descendentes de iranianos segundo o Census Bureau americano de 2020, o que torna o contexto ainda mais carregado de simbolismo político e esportivo. A partida de estreia será contra Nova Zelândia, equipe que nas últimas três participações em Copas (2010, 2022 e 2026) jamais avançou além da fase de grupos.