Quando a Copa do Mundo de 1994 desembarcou nos Estados Unidos, um ingresso para a fase de grupos custava entre US$ 45 e US$ 95 — valores que, corrigidos pela inflação, chegariam hoje a algo entre US$ 90 e US$ 190. Trinta e dois anos depois, o mesmo torneio volta ao solo americano com ingressos que ultrapassam US$ 2.000 na categoria mais cara para a estreia da seleção dos EUA, no dia 12 de junho, contra o Paraguai no SoFi Stadium, em Los Angeles. A distância entre os dois números diz muito sobre o que a Copa do Mundo se tornou — e sobre quem ela agora se destina.

O que Trump viu que a Fifa prefere não enxergar

Em entrevista ao New York Post, Donald Trump foi direto: não pagaria os preços cobrados pela Fifa pelos ingressos da Copa do Mundo 2026. O presidente americano foi além e apontou o eleitorado que ele próprio representa — moradores de Queens e Brooklyn — como o público que está sendo deixado de fora. A declaração tem peso político óbvio, mas também captura uma tensão real: o torneio que o governo Trump ajudou a trazer para casa está sendo disputado numa faixa de preço inacessível para boa parte dos americanos que votaram nele.

O que Trump viu que a Fifa prefere não enxergar Trump não pagaria para ver os EU
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A defesa da Fifa e os números que ela escolhe mostrar

Gianni Infantino respondeu durante um evento em Beverly Hills — não exatamente o endereço mais simbólico para falar de inclusão popular. O presidente da Fifa afirmou que 25% dos ingressos da fase de grupos custam menos de US$ 300 e comparou os valores aos praticados em jogos universitários norte-americanos. A entidade também argumenta que a precificação elevada serve para combater a revenda especulativa, prática endêmica no mercado americano de eventos esportivos. O torneio, que vai de 11 de junho a 19 de julho, já vendeu cerca de 5 milhões dos 7 milhões de ingressos disponíveis — o que, na leitura da Fifa, valida a estratégia.

O problema, como apurou o SportNavo, é que o argumento dos 25% abaixo de US$ 300 não responde à pergunta central: esses ingressos mais baratos chegaram às mãos de torcedores comuns ou foram absorvidos por pacotes e distribuidores credenciados? A Football Supporters Europe (FSE) não aceitou a explicação da entidade e, em março de 2026, formalizou uma denúncia contra a Fifa na Comissão Europeia, classificando a estrutura de preços como excessiva e discriminatória.

Uma Copa para quem mora no compasso da Faria Lima

Há um paralelo incômodo com o Brasil. No compasso da Faria Lima em horário de pico — onde o metro quadrado mais caro do país convive com a desigualdade mais visível — o torcedor brasileiro que sonha em ver a seleção jogar em Los Angeles ou Nova York precisa calcular não apenas o ingresso, mas passagem, hospedagem e câmbio. Um bilhete para a estreia dos EUA contra o Paraguai no SoFi Stadium, mesmo na categoria mais acessível, representa mais de R$ 1.500 ao câmbio atual, antes de qualquer outro gasto. Para a maioria dos 215 milhões de brasileiros, a Copa de 2026 será assistida pela televisão — como, aliás, foi para a maioria dos americanos em 1994.

A estreia americana como termômetro do torneio inteiro

O jogo dos EUA contra o Paraguai, em 12 de junho, no SoFi Stadium — casa do Los Angeles Rams com capacidade para 70 mil espectadores — será o primeiro grande teste de público e atmosfera do torneio. Se as arquibancadas mostrarem setores vazios ou predominantemente ocupados por corporações e pacotes de hospitalidade, a imagem vai circular pelo mundo antes do apito inicial. A Fifa sabe disso. Trump também sabe. A diferença é que um deles tem interesse em que o estádio pareça cheio a qualquer custo — e o outro descobriu que criticar os preços da Copa é, eleitoralmente, um gesto de custo zero.

Com 2 milhões de ingressos ainda disponíveis e o torneio a pouco mais de um mês do início, a pergunta que fica é concreta: se os preços não caírem nas próximas semanas, a Fifa vai aceitar a pressão política e abrir um lote de ingressos populares de última hora — ou vai preferir manter a estratégia e torcer para que as câmeras de TV não mostrem as cadeiras vazias no SoFi no dia 12 de junho?