O homem mais poderoso do país-sede de uma Copa do Mundo disse publicamente que não compraria um ingresso para assistir ao torneio. Esse paradoxo, que parece saído de roteiro de comédia política, é a situação exata em que Donald Trump e a FIFA se encontram a menos de dois meses do pontapé inicial do Mundial de 2026.

Uma declaração que a FIFA não esperava de Washington

Em entrevista ao New York Post, Trump foi direto ao ser informado que o valor mínimo para assistir à estreia da seleção americana no torneio é de US$ 1 mil — aproximadamente R$ 5,6 mil na cotação atual.

"Eu também não pagaria isso, para ser honesto", declarou o presidente dos Estados Unidos.
A frase, dita com a naturalidade de quem avalia uma má compra no mercado, produziu um efeito político imediato: deputados americanos Nellie Pou e Frank Pallone Jr. já enviaram carta aberta a Gianni Infantino exigindo esclarecimentos sobre a política de vendas e acusando a entidade de liberar ingressos em pequenas quantidades deliberadamente para criar escassez artificial e inflar preços.

Infantino respondeu com a frieza de um CEO diante de acionistas insatisfeitos.

"Precisamos olhar para o mercado. Estamos no país em que o entretenimento é o mais desenvolvido do mundo, então precisamos aplicar os preços de mercado", afirmou o presidente da FIFA.
Não há tragédia: há contabilidade.

O que a história dos ingressos em Copas revela

Para entender a dimensão do problema, basta percorrer o arquivo histórico dos Mundiais. Na Copa de 1994, também disputada nos Estados Unidos, o ingresso mais barato para a fase de grupos custava US$ 25 — equivalente a cerca de US$ 52 em valores corrigidos pela inflação de 2026. No Brasil, em 2014, o preço mínimo oficial foi de R$ 200 (cerca de US$ 90 na época), e a FIFA já era alvo de protestos nas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro por conta dos valores. Na Rússia, em 2018, ingressos de categoria 4 — reservados exclusivamente a residentes locais — chegavam a 1.280 rublos, equivalentes a menos de US$ 20. No Catar, em 2022, o ingresso mais barato para torcedores estrangeiros na fase de grupos era de US$ 69.

A Copa do Mundo 2026, portanto, representa um salto de preço sem precedente documentado na história do torneio. Pacotes VIP para a final de 19 de julho no MetLife Stadium, em Nova Jersey — que receberá oito jogos, incluindo a decisão, com Brasil, França, Alemanha e Inglaterra programados para a fase de grupos no local — estão sendo comercializados por US$ 35 mil, aproximadamente R$ 198 mil. Mesmo sem correção inflacionária sofisticada, a comparação com 1994 é escandalosa: o ingresso mais barato cresceu mais de 1.800% em termos nominais num período de 32 anos.

Na avaliação do SportNavo, o dado mais revelador não é o preço da final, mas o da fase de grupos: ingressos para jogos ordinários já ultrapassam US$ 2 mil, valor que em 2014 comprava um pacote para quatro partidas no Brasil com categoria premium.

A tensão política que a FIFA subestimou

Mundiais anteriores produziram atritos entre a entidade e governos anfitriões, mas raramente com a exposição pública que o caso americano ganhou. Em 2014, o governo Dilma Rousseff negociou durante meses a chamada "Lei Geral da Copa", que incluía regras sobre venda de ingressos e proteção ao consumidor brasileiro. A FIFA resistiu, mas cedeu em pontos específicos após pressão do Congresso Nacional. Na África do Sul, em 2010, a entidade foi criticada por reservar blocos inteiros de ingressos para parceiros comerciais, deixando torcedores locais sem acesso às categorias mais baratas.

O que diferencia 2026 é a combinação de fatores: o anfitrião é os Estados Unidos, mercado que a FIFA quer usar como parâmetro de precificação; o governo é liderado por um presidente com enorme apelo populista e sem constrangimento em confrontar organizações internacionais publicamente; e o Congresso americano — com deputados de ambos os partidos — já se movimentou institucionalmente antes mesmo do início do torneio, previsto para 11 de junho.

A carta dos parlamentares Pou e Pallone Jr. não é um gesto retórico. Nos Estados Unidos, investigações do Congresso sobre práticas comerciais de entidades esportivas têm histórico de consequências reais — basta lembrar que foi uma investigação do Departamento de Justiça americano, em 2015, que resultou na prisão de 14 dirigentes da própria FIFA em Zurique, num caso que expôs décadas de corrupção sistêmica na entidade.

O que a FIFA pode — e não pode — fazer agora

A margem de manobra da entidade é estreita. Reduzir preços de forma generalizada implicaria renegociar contratos com revendedores autorizados e parceiros comerciais, além de reconhecer publicamente que a política original era inadequada — o que Infantino evitou fazer até agora. A alternativa intermediária, já testada em edições anteriores, é ampliar cotas de ingressos em categorias mais baratas para residentes locais. Nova York, por exemplo, realizou sorteio de ingressos a US$ 50 para moradores da cidade — um gesto simbólico diante de uma estrutura de preços que coloca o torneio fora do alcance da maioria dos americanos.

O impacto político, contudo, já está dado. Trump transformou uma crítica casual ao New York Post num problema de relações públicas para a FIFA. A entidade que escolheu os Estados Unidos como sede justamente pelo poder econômico do mercado americano agora enfrenta o paradoxo de ser criticada pelos próprios americanos — incluindo o inquilino da Casa Branca — por cobrar demais.

A Copa do Mundo começa em 11 de junho. A FIFA tem até lá para decidir se responde à pressão política com concessões concretas ou mantém a linha de Infantino de que preço de mercado é preço de mercado. A história mostra que a entidade raramente recua sem pressão suficiente. Desta vez, a pressão vem da Pennsylvania Avenue.