O tapete ainda estava aquecido quando o microfone chegou às suas mãos. Quinze pontos a mais no placar, um adversário derrubado em sequências rápidas de rolls, e a noite do RAF 9 já tinha um protagonista claro antes mesmo do co-main event. Arman Tsarukyan venceu Mugzy por tech fall — placar 16-5 no primeiro período — e, em vez de comemorar com economia, apontou o canhão para o nome que ocupava o card da mesma noite: Colby Covington.
O placar de Tsarukyan que ninguém esperava ver tão rápido
A luta começou com um susto. Mugzy acertou uma entrada de quatro pontos — uma projeção limpa que, por um instante, deixou o placar mais equilibrado do que o esperado. Tsarukyan, número 1 no ranking dos leves do UFC, não é o tipo de atleta que entra em colapso por surpresa. A resposta veio em sequência: single leg executado com precisão, controle de pernas e múltiplos rolls consecutivos que empilharam pontos antes que o adversário pudesse reorganizar a guarda. Quando a vantagem chegou a dez pontos — limiar para o tech fall nas regras do wrestling olímpico — a arbitragem encerrou o combate.
O armênio permanece invicto sob o banner do Real American Fight, e a vitória desta noite reforça uma tese que os analistas de apostas já precificaram: Tsarukyan é o lutador mais completo da fila pelos leves, com odds que o colocam como favorito a -200 em qualquer matchup abaixo do cinturão. Sua sequência no UFC inclui vitórias sobre Charles Oliveira, Beneil Dariush e Mateusz Gamrot — um portfólio que poucos contendores na história da divisão conseguiram montar.
Covington no RAF 9 e o desafio que veio das matas
Colby Covington disputou o co-main event do mesmo card contra Chris Weidman — e foi exatamente isso que Tsarukyan calculou ao fazer seu callout em tempo real. A lógica era simples: se Covington vencer, o confronto ganha narrativa imediata dentro do mesmo evento. O ex-campeão interino dos meio-médios do UFC, dono de um cartel de 17 vitórias e 7 derrotas, migrou para o wrestling profissional depois de uma sequência difícil no cage — incluindo derrotas para Leon Edwards e Kamaru Usman em disputas de título.
A transição de Covington para o circuito RAF não é apenas uma história de reinvenção. É, na leitura de quem acompanha o esporte, uma jogada de posicionamento: manter relevância em um ecossistema de competição real enquanto negocia seu retorno ou legado no MMA. Tsarukyan leu esse movimento e respondeu com clareza.
"Me sinto ótimo. Eu sabia que ia vencer. Temos o Colby Covington hoje à noite — espero que ele ganhe e eu vou dar uma surra nele. Vou mostrar quem é o melhor wrestler de MMA nas matas."
A declaração, feita imediatamente após o tech fall sobre Mugzy, não foi improviso. Tsarukyan escolheu o momento com consciência: câmeras ligadas, card ainda em andamento, Covington prestes a entrar em ação. No jogo de atenção que o esporte de combate exige, o armênio jogou com timing de lutador — não de assessor de imprensa.
O que esse duelo de wrestling significaria para os leves do UFC
A divisão dos leves vive uma espécie de engarrafamento de contendores qualificados. Islam Makhachev segura o cinturão com dominância, mas a fila abaixo dele nunca foi tão disputada. Tsarukyan é o número 1 no ranking oficial e esteve perto do título na última disputa, perdendo para Makhachev por decisão unânime em fevereiro de 2024 — uma luta que durou os cinco rounds completos e mostrou o nível do armênio.
Covington nunca competiu nos leves no UFC. Sua base é nos meio-médios (77 kg), e um eventual confronto com Tsarukyan no RAF seria dentro das regras do wrestling, não do MMA. Mas a relevância narrativa do duelo extrapola o formato: qualquer vitória de Tsarukyan sobre um nome reconhecido como Covington amplifica o argumento de que o armênio merece a próxima chance pelo cinturão — independentemente de o adversário estar em outra divisão ou em outro esporte.
Matéria publicada no SportNavo detalhou a trajetória de Tsarukyan no RAF como estratégia de manutenção de forma e visibilidade entre lutas no UFC — um modelo que outros atletas de elite começam a replicar, usando o wrestling profissional como laboratório técnico sem o risco de lesões de uma luta no cage.
Do ponto de vista tático, o confronto seria a versão mais pura do debate que os fãs de MMA travam há anos: qual wrestling é mais efetivo, o do lutador que veio das artes marciais mistas ou o do especialista que construiu carreira inteira no grappling? Tsarukyan tem base em sambo e luta greco-romana, com adaptação ao cage. Covington é um wrestler universitário americano que transformou o sprawl-and-brawl em identidade de luta.
Não há tragédia no horizonte para nenhum dos dois — há contabilidade. Tsarukyan some do radar dos leves se ficar parado; Covington perde relevância se só competir contra veteranos em declínio. Um confronto entre os dois no RAF resolve os dois problemas de uma vez.
Se Covington vencer o co-main event desta noite contra Weidman, a negociação tem todos os elementos para avançar: os dois atletas no mesmo card, o desafio feito ao vivo, e um público que já consome wrestling profissional como extensão do universo do MMA. A próxima etapa depende do resultado da luta principal do RAF 9 — e de quanto a Dana White vai tolerar seu contendor número 1 construindo legado fora do octógono.
Tsarukyan está na fila. Ele só garantiu que ninguém vai esquecer disso.












