40 libras. Esse foi o volume total de peso que Khamzat Chimaev precisou eliminar do corpo durante o camp para o UFC 328, em Newark, Nova Jersey — e os últimos 4 desse montante quase custaram o cinturão antes mesmo de ele pisar no octógono. Segundo Arman Tsarukyan, que integrava a equipe do lutador na semana da luta, Chimaev acordou no meio da madrugada antes da pesagem oficial sem energia e declarou, literalmente, que não queria continuar o corte.

O que Tsarukyan viu nos bastidores do UFC 328

Arman Tsarukyan concedeu uma entrevista ao podcast JAXXON e descreveu com riqueza de detalhes o estado físico de Chimaev na semana que antecedeu a pesagem, realizada em 8 de maio de 2026 no Hyatt Regency Morristown. O peso-leve armênio contou que, na terça-feira anterior ao evento, o campeão dos médios ainda carregava 12 a 13 libras acima do limite de 185 lbs. As primeiras 9 foram eliminadas sem grandes problemas, mas o colapso veio no período noturno.

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"Ele acordou e disse pra gente: 'Estou tão fraco, sem energia. Não sei como vou cortar essas últimas quatro libras.' Mas a gente empurrou ele com muita força."

Tsarukyan foi categórico ao afirmar que Chimaev não queria terminar o processo: a equipe, composta por ele e pelos treinadores, precisou insistir ativamente para que o lutador chegasse à balança dentro do limite. Na avaliação do SportNavo, esse relato lança luz sobre algo que ficou visível para qualquer olho técnico durante a transmissão do UFC 328 — a deterioração progressiva do ground and pound e do clinch de Chimaev a partir do segundo round.

A lógica fisiológica por trás do colapso nos rounds finais

Um corte de peso severo compromete diretamente métricas que são invisíveis aos olhos do espectador casual, mas determinantes no desempenho de alta performance. A literatura esportiva especializada aponta que cortes acima de 8% do peso corporal em 24 horas prejudicam o VO2 máx em até 15% — uma estatística avançada que mede a capacidade máxima de absorção de oxigênio e que, para o leigo, representa simplesmente quanto gás um atleta tem disponível para manter a intensidade. Chimaev, que entrou no camp consideravelmente acima do peso de meio-pesado (205 lbs), comprometeu esse reservatório energético de forma grave.

O resultado ficou evidente no cartel da luta. Chimaev venceu o primeiro round com dominância técnica — takedown accuracy elevada, controle de posição no chão e striking diferencial positivo. Mas do segundo round em diante, o sprawl foi ficando mais lento, a base para o double-leg diminuiu e o volume de golpes caiu. Sean Strickland, especialista em ritmo e pressão constante, soube explorar exatamente esse espaço criado pelo desgaste físico do adversário, e converteu a vantagem acumulada em uma decisão dividida a seu favor.

A polêmica da pesagem e o protocolo do UFC

Após as imagens de Chimaev na balança circularem nas redes sociais — o lutador visivelmente abatido, com a musculatura marcada pelo processo de desidratação extrema —, surgiram rumores de que ele teria beneficiado de uma leniência indevida da Comissão Atlética de Nova Jersey. Tsarukyan rebateu a especulação com dados procedimentais precisos: antes da pesagem oficial, todos os lutadores passam por uma verificação prévia conduzida pelo próprio UFC, e quem aparece com 186 lbs nessa etapa simplesmente não recebe autorização para comparecer à balança pública.

"Se aparecer 186 na balança automática, você não pode ir para a pesagem oficial. Ele passou pelo controle interno do UFC e estava dentro do limite. Só então foi autorizado a subir na balança."

O protocolo descrito por Tsarukyan é consistente com as práticas documentadas pela Nevada e New Jersey Athletic Commissions para eventos do porte do UFC 328. A pesagem preliminar interna serve exatamente como filtro para evitar que situações embaraçosas — e potencialmente ilegais — se tornem públicas. Chimaev bateu 185 lbs, mas o custo fisiológico desse número foi pago com juros dentro do octógono.

O impacto sobre o futuro de Chimaev nos pesos médios e pesados

Tsarukyan também trouxe à tona um contexto que explica, ao menos parcialmente, por que o corte foi tão brutal: Chimaev estava se preparando para migrar para os meio-pesados (205 lbs), e o camp foi estruturado com esse cenário em mente. A defesa do cinturão dos médios surgiu como uma oportunidade de curto prazo, e o atleta entrou no ciclo de treinamentos com o corpo já orientado para uma categoria acima. Joe Rogan, comentarista oficial do UFC, também mencionou publicamente essa narrativa de mudança de categoria durante o período que antecedeu o evento.

Com a derrota para Strickland via decisão dividida, o cartel de Chimaev registra agora sua segunda derrota na organização — a primeira havia sido contra Shavkat Rakhmonov em circunstâncias igualmente polêmicas. A pergunta que fica é se o sueco-checheno vai, de fato, subir para os meio-pesados ou se tentará recuperar o cinturão dos médios em uma revanche com Strickland. Tsarukyan afirmou ter convicção de que, em condições físicas plenas, o resultado teria sido diferente — e que os juízes, além disso, erraram nos scores. O próximo passo de Chimaev ainda não foi anunciado pelo UFC, mas a organização tem histórico de acionar revanchas de ex-campeões em até 180 dias após a perda do título.

Na sala de pesagem do Hyatt Regency Morristown, às 10h da manhã de 8 de maio, Chimaev pisou na balança com os olhos fundos e os ombros levemente curvados — a imagem de um homem que já havia lutado uma batalha invisível antes de encarar Strickland.