Quantos treinadores teriam a coragem de ligar pessoalmente para Cole Palmer — o jogador com mais progressive carries da Premier League 2025/26 — e dizer que ele não vai à Copa do Mundo? Thomas Tuchel fez exatamente isso, e a resposta que ele deu à imprensa foi tão calculada quanto a lista que montou.

A convocação da Inglaterra para o Mundial dos Estados Unidos, México e Canadá chegou sem Cole Palmer (Chelsea), sem Harry Maguire (Manchester United) e sem Phil Foden (Manchester City). Três nomes que dominaram as manchetes inglesas nos últimos anos, três telefonemas emocionalmente pesados para Tuchel fazer. O que chama atenção não é a ausência em si — é o critério que o alemão expôs publicamente para justificá-la.

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O que Tuchel enxergou nos dados que o torcedor não viu

Palmer teve uma temporada de alto volume ofensivo pelo Chelsea na 2025/26, mas Tuchel sinalizou um problema estrutural: a Inglaterra já tinha muitos jogadores com perfil de camisa 10 puro, e escalar cinco deles ao mesmo tempo seria jogar fora de posição alguém. O xG gerado por Palmer via chutes de fora da área é impressionante — historicamente acima de 0,15 xG por 90 minutos nesse tipo de finalização —, mas o problema é que Bellingham, Eze e Madueke também operam no mesmo corredor de criação. Quando você olha o pass network da Inglaterra nos treinos de novembro de 2025, o time ficou mais fluido com perfis mais verticais.

Tuchel foi direto na coletiva:

"Para alguns, era uma questão de posicionamento, de não trazer cinco jogadores camisa 10 e fazê-los jogar fora de posição."

Essa lógica faz sentido quando você olha para o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) que a Inglaterra apresentou em novembro — uma métrica que mede a pressão alta do time. Com jogadores como Mainoo e Rice no meio, o PPDA caiu (ou seja, a pressão aumentou), o que exige meias com capacidade de pressing intenso, não só criação. Palmer não é um jogador de alta intensidade de pressão; é um criador de espaço. Num sistema que quer pressionar alto, isso cria desequilíbrio.

  • xG gerado por Palmer em 2025/26: alto volume, especialmente em chutes de média distância
  • PPDA da Inglaterra em novembro de 2025: melhorou com o grupo mais jovem no meio-campo
  • Progressive passes por 90 de Kobbie Mainoo: consistentemente acima da média da Premier League para meias defensivos, com transição rápida

Maguire e o problema do perfil de build-up

A ausência de Harry Maguire é diferente — e mais reveladora sobre o modelo defensivo que Tuchel quer montar. O zagueiro do Manchester United ainda tem qualidade de saída de bola, mas seu perfil de defensive actions (ações defensivas por 90 minutos) caiu na temporada 2025/26 comparado ao auge em 2022. Aos 33 anos, Maguire perdeu mobilidade lateral, o que compromete o pressing alto que Tuchel quer implementar.

O que para o argentino é um líbero clássico de saída de bola — valorizado até hoje no sistema de Scaloni — para o inglês moderno é um jogador que precisa também executar ações defensivas de alta intensidade, cobrir espaço nas transições e participar do pressing. Maguire cobre bem o primeiro perfil; o segundo já não acompanha o ritmo que Tuchel exige.

Tuchel foi honesto sobre o peso emocional das decisões:

"Ligações telefônicas difíceis. Respeito todos eles. Como jogadores, como personalidades. Reduzir isso foi difícil, às vezes dolorosamente difícil. Até mesmo nas ligações telefônicas eu sentia a emoção."

Ao mesmo tempo, o técnico deixou claro que o critério não foi apenas desempenho individual, mas encaixe tático dentro de um espírito de grupo que ele identificou em novembro de 2025:

"Em novembro, sentimos que tínhamos um ar fresco, jogadores mais jovens que jogavam com entusiasmo, uma boa mistura de jovens e veteranos, o que extraiu o melhor dos jogadores. Queremos recriar esse espírito."

A Inglaterra que chega ao Grupo L e o que está em jogo contra a Croácia

Com Bellingham, Kane, Rice e Saka confirmados, a Inglaterra mantém seu núcleo duro. O acréscimo de Madueke, Eze e Mainoo ao grupo principal cria um elenco com mais versatilidade de pressão e transição — exatamente o que o Grupo L exige. A estreia contra a Croácia, em Dallas, no dia 17 de junho, é o primeiro teste real dessa aposta.

A decisão de liberar as mulheres dos jogadores no hotel da concentração na Flórida também faz parte do mesmo raciocínio de Tuchel: criar um ambiente relaxado antes da viagem para Kansas. O goleiro Jordan Pickford resumiu bem a lógica do técnico: "O torneio só começa para a gente no dia 17 de junho. Então, eu acho que vamos treinar duro, nos acostumar ao clima e ter um pouco de liberdade, um pouco de diversão." Jude Bellingham aproveitou — sua namorada, Ashlyn Castro, viajou quatro horas de carro após o amistoso contra a Nova Zelândia para encontrá-lo.

Conforme analisado no SportNavo, a aposta de Tuchel é coerente internamente: um grupo que já treinou junto por três períodos, com métricas de pressing melhoradas e menos sobreposição de perfis ofensivos. A pergunta que fica é se Kane consegue xA (expected assists) suficiente num sistema onde Palmer, o maior criador individual do Chelsea na temporada, foi cortado.

É o mesmo cenário que a Alemanha viveu em 2018, quando Löw cortou veteranos e apostou num grupo mais jovem — só que agora a aposta de Tuchel tem fundamento tático documentado, e a estreia contra a Croácia, no dia 17 de junho em Dallas, vai revelar se os números sustentam a decisão ou se a reputação que ficou em casa vai fazer falta.