O telefone tocou, e do outro lado estava Phil Foden. Thomas Tuchel tinha acabado de anunciar a lista final da Copa do Mundo 2026 e precisava fazer a ligação mais difícil da semana. Cole Palmer recebeu a mesma chamada. Trent Alexander-Arnold, também. Três nomes que, para boa parte da imprensa inglesa, eram convocações certas — e que agora assistirão ao torneio de fora.
O que Tuchel disse e o que os números revelam sobre os cortados
Tuchel não fugiu do assunto na coletiva de imprensa desta sexta-feira. Ele admitiu o peso emocional das decisões e deixou claro que fez contato individual com cada atleta preterido.
"Ligações telefônicas difíceis. Respeito todos eles. Como jogadores, como personalidades. Reduzir isso foi difícil, às vezes dolorosamente difícil. Até mesmo nas ligações telefônicas eu sentia a emoção. Liguei para todos os jogadores que estiveram conosco pelo menos uma vez."
Mas sentimento à parte, a lógica tática diz muita coisa. Foden e Palmer são, em essência, meias-atacantes que precisam de liberdade posicional e espaço entre linhas para render. O problema é que Tuchel construiu um 4-2-3-1 bastante vertical e pressionado — e nesse modelo, o xG (expected goals) gerado por ambos na temporada 2025/2026 da Premier League vem de situações que dependem de um sistema diferente: mais posse, mais circulação pelo corredor central.
Veja a comparação de três métricas centrais entre os cortados e os convocados que ocupam posições similares:
- Phil Foden — xG por 90 minutos: 0,41 | Progressive passes por jogo: 4,2 | PPDA (pressão defensiva): participação baixa no pressing do City, que não replica o estilo de Tuchel
- Cole Palmer — xA (expected assists) por 90: 0,38 | Progressive passes: 5,1 | Porém, ações defensivas por jogo: 2,9 — um dos números mais baixos entre os candidatos ao grupo
- Eberechi Eze (convocado) — xA por 90: 0,29 | Ações defensivas por jogo: 5,7 | Progressive passes: 4,8 — perfil mais completo dentro do pressing alto que Tuchel exige
O PPDA — métrica que mede quantos passes o adversário consegue dar antes de sofrer uma ação defensiva da equipe — é o dado que mais justifica os cortes quando você olha friamente. Tuchel quer um time que pressione em bloco alto, e tanto Foden quanto Palmer têm histórico de baixa participação nesse tipo de ação coletiva. Eze e Morgan Rogers, convocados, têm números defensivos quase o dobro dos cortados — uma diferença do tamanho da distância entre Belém e Florianópolis em termos de impacto no modelo de jogo.
A lógica do grupo e quem ganhou espaço na lista inglesa
O argumento central de Tuchel vai além dos números individuais. O técnico apostou na continuidade do bloco usado nas últimas Datas Fifa — setembro, outubro e novembro de 2025 — e evitou quebrar uma identidade que, segundo ele, estava funcionando.
"Em março, abrimos as portas e demos uma oportunidade a todos. Sentimos que tínhamos um ar fresco, jogadores mais jovens que jogavam com entusiasmo, uma boa mistura com os veteranos, o que extraiu o melhor dos jogadores. Queremos recriar esse espírito."
Os nomes que entraram no lugar dos cortados dizem muito sobre essa escolha. Elliot Anderson, do Newcastle, é um volante-box-to-box com alto volume de progressive passes (6,3 por jogo nesta temporada) e presença constante nas pass networks do meio-campo inglês nos últimos estágios. Morgan Rogers, do Aston Villa, acumulou 7 assistências na Premier League 2025/2026 e tem mobilidade para pressionar pela ala esquerda — exatamente o perfil que Tuchel precisava para equilibrar Saka do outro lado.
Noni Madueke também entra como um jogador de transição rápida: seus números de carry progressivo (condução em direção ao gol) ficam acima de Foden em 1v1 contra blocos baixos, o que pode ser decisivo num grupo como o L, onde Colômbia, Congo e Uzbequistão tendem a defender com linhas compactas.
A espinha dorsal segura: Declan Rice como pivô defensivo, Jude Bellingham como meia de ruptura e Harry Kane como referência no ataque. Esses três são os nomes em torno dos quais Tuchel organizou tudo — e a escolha dos demais obedece ao que cada um precisa ao redor desse trio.
O risco real de chegar à Copa sem criatividade de elite
A decisão de Tuchel tem coerência tática, mas carrega um risco concreto: a Inglaterra chega ao Mundial sem nenhum jogador no elenco capaz de criar xG e xA nos níveis que Foden e Palmer entregaram na temporada regular. Foden terminou 2025/2026 com 0,41 xG por 90 minutos — o maior da lista de candidatos ingleses. Palmer liderou em xA com 0,38. Nenhum dos convocados chega perto desses números individualmente.

A aposta é que o coletivo compense o que a individualidade perdeu. Pode funcionar contra Congo e Uzbequistão, mas a Colômbia — adversário mais qualificado do Grupo L — tem um bloco médio organizado e James Rodríguez ainda capaz de castigar qualquer espaço que a Inglaterra deixe aberto na transição.
A estreia inglesa no Grupo L está marcada para 17 de junho. Tuchel saberá rapidamente se a coesão do grupo compensa a ausência de dois dos maiores criadores que a Premier League produziu nos últimos dois anos.










