O apito inicial mal havia ecoado pelo Estádio Şükrü Saraçoğlu quando Orkun Kökçü já corria para o meio-campo comemorando. Menos de dois minutos de jogo, cruzamento rasteiro, bola no fundo da rede. Era segunda-feira, 1º de junho, e a Copa do Mundo estava a dez dias de começar. A Turquia avisou ao mundo com a mesma velocidade com que o gol saiu: não venha despreparado.

A goleada por 4 a 0 sobre a Macedônia do Norte não foi surpresa pelo placar — a diferença entre os dois elencos é do tamanho da distância entre Recife e Belém, imensurável em termos de talento e estrutura. A surpresa foi a forma. O técnico Vincenzo Montella escalou um time considerado reserva, preservou boa parte dos titulares para o que vem a seguir, e ainda assim a seleção turca não precisou suar para construir uma das goleadas mais confortáveis da fase de preparação europeia.

O que o 4 a 0 revelou sobre a Turquia de Montella

O primeiro tempo já contou metade da história. Kökçü inaugurou o marcador quase de imediato, e Can Uzun, de apenas 20 anos, não demorou para se apresentar. O atacante do Eintracht Frankfurt estava em campo pela primeira vez como titular pela seleção principal — e marcou, rasteiro, no contra-ataque. Depois, ainda deu a assistência para o terceiro gol, que saiu de cabeça com Deniz Gü no segundo tempo. A atuação de Uzun foi um cartão de apresentação à altura.

Quando Montella resolveu movimentar o banco, o espetáculo ficou ainda mais revelador. Arda Güler, meia do Real Madrid, entrou durante a etapa final — e com ele a sensação de que a Turquia ainda não havia mostrado sua versão mais perigosa. Barış, do Galatasaray, completou a goleada saindo do banco também. Quatro gols, dois reservas marcando, um dos maiores talentos do futebol europeu ainda guardado para quando a Copa começar de verdade.

"A equipe está num ciclo muito positivo", sinalizou o entorno técnico da seleção turca, reforçando retrospecto recente: nove vitórias, dois empates e apenas duas derrotas nos últimos doze jogos disputados desde 2025.

A geração que derruba a narrativa do talento sem resultado

Durante anos, a Turquia foi aquela seleção que prometia demais e entregava de menos nas grandes competições. O ciclo de Montella mudou essa equação de forma concreta. A campanha nas Eliminatórias foi sólida; a chegada às quartas de final da Eurocopa mostrou que o elenco aguenta o tranco em jogos eliminatórios; e o acesso à Liga das Nações A confirmou que não se trata de resultado isolado.

A narrativa dominante dizia que a Turquia tinha talento ofensivo, mas fragilidade defensiva — e os números do passado recente sustentavam esse argumento: 25 gols marcados e 15 sofridos em dez partidas. A contra-leitura, porém, está nos dados de 2026: nas duas únicas partidas disputadas no ano antes deste amistoso, a seleção venceu as duas sem sofrer um gol sequer. A goleada desta segunda-feira reforça essa síntese — o time aprendeu a fechar o jogo sem abrir mão da produção ofensiva.

"Voltamos ao principal torneio do planeta depois de 26 anos com um elenco que pode surpreender qualquer um", afirmou fonte próxima à delegação turca, conforme registrado pelo SportNavo.

A última participação turca numa Copa do Mundo foi em 2002 — e não foi discreta. A seleção chegou à semifinal e terminou na terceira colocação, a melhor campanha da história do país numa Copa. Vinte e quatro anos depois, o grupo que se apresenta tem argumentos técnicos diferentes: Güler com o Real Madrid, Kökçü na liderança do meio-campo, Uzun surgindo como goleador de seleção. A memória de 2002 é referência, não teto.

O Grupo D e o que espera a Turquia a partir de 14 de junho

A Turquia caiu no Grupo D da Copa do Mundo ao lado de Austrália, Estados Unidos e Paraguai. O grupo tem equilíbrio — nenhum adversário é favorito absoluto — mas também não é passagem garantida. A estreia acontece no dia 14 de junho, contra a Austrália, às 01h (horário de Brasília), no Estádio Vancouver Place, no Canadá.

Antes disso, Montella ainda tem um último teste para calibrar o time. No dia 6 de junho, a Turquia enfrenta a Venezuela no Estádio do Inter Miami, na Flórida — já em solo americano, já respirando o ar do continente que vai sediar o torneio. O técnico deve divulgar nas próximas horas a lista definitiva dos convocados para a Copa. A expectativa é que Arda Güler apareça entre os nomes que vão definir o destino turco no torneio.

A Macedônia do Norte, do outro lado desta goleada, não estará na Copa. A seleção foi eliminada na repescagem europeia ao perder por 4 a 0 para a Dinamarca em março, em resultado que fechou de vez a porta do Mundial. Enquanto os macedônios se despediram do sonho, os turcos afiaram a faca. Em 14 de junho, no Canadá, o mundo descobre se essa faca corta de verdade.