O olho já sangrava quando Arthur Cortines Laxe Ferreira da Conceição se aproximou do carro do BEPE pedindo socorro. Tinha 18 anos, era torcedor do Vasco e havia saído do Maracanã após o empate do clássico deste domingo, 3 de maio. Um policial mandou que ele se virasse sozinho. Outro completou: "É, ganho teu… sai daí… vai procurar uma ambulância." Era noite fechada na Rua São Francisco Xavier e o estudante de nutrição da UERJ sangrava sozinho no meio da rua.

O que mudou

Nada mudou — e esse é o problema que o SportNavo apurou ao mapear os incidentes dos últimos três clássicos cariocas no Maracanã. A cena descrita por Arthur não é nova: gás de pimenta dentro do estádio, cavalaria avançando contra torcedores na saída Sul, agentes do Batalhão Especializado de Policiamento em Estádios (BEPE) ordenando dispersão sem oferecer rota segura de fuga. O que mudou desta vez foi a consequência visível — um projétil de borracha no olho de um adolescente.

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"Eu vi os policiais jogando os cavalos e batendo de cacetete nas pessoas que estavam na grade na minha frente. Quando eu virei para ver onde estavam os outros, para saber se eu já estava mais seguro, eu tomei uma bala de borracha de um dos PMs no olho. Meu olho começou a sangrar muito."

A ambulância presente no local — identificada por Arthur como privada, provavelmente vinculada ao próprio Maracanã — pediu autorização à sua base para transportá-lo a qualquer hospital. A base recusou. O SAMU estimava duas horas de espera. Dois clubes com receita combinada superior a R$ 1,5 bilhão em 2025 — Flamengo e Vasco juntos — e nenhum protocolo de emergência capaz de garantir atendimento a um torcedor baleado a 200 metros do estádio.

O que mudou Um estudante de 18 anos perdeu a visão d
O que mudou Um estudante de 18 anos perdeu a visão d

Por que agora

O que para o torcedor argentino é rotina administrada com câmeras de reconhecimento facial e separação física de torcidas desde 2019, para o torcedor sul-americano em geral ainda é promessa de projeto-piloto. No Brasil, o Estatuto do Torcedor existe desde 2003, mas a responsabilidade pela segurança no entorno dos estádios permanece numa zona cinzenta entre clubes, concessionária do Maracanã, Secretaria de Segurança Pública do Rio e Federação de Futebol do Estado. Quando tudo é responsabilidade de todos, ninguém responde por nada.

Flamengo e Vasco emitiram notas após o clássico, mas nenhuma das duas mencionou Arthur Cortines pelo nome, nem detalhou qualquer protocolo de acolhimento a torcedores feridos. A Federação Carioca de Futebol, que arrecada percentual sobre cada jogo no Maracanã, também não se pronunciou sobre o caso até o fechamento desta matéria. A omissão institucional é tão violenta quanto a bala de borracha — e produz o mesmo resultado: um jovem sem resposta e sem atendimento.

"Aquele mesmo policial mandou eu sair dali e me virar sozinho"

A análise do SportNavo sobre os boletins de ocorrência registrados após clássicos cariocas entre 2023 e 2026 mostra padrão consistente: o número de feridos por ação policial supera o de feridos em confrontos entre torcidas em pelo menos 60% dos episódios documentados. Isso não exime as organizadas de responsabilidade, mas inverte a narrativa que justifica o uso indiscriminado de munição de impacto controlado em multidões mistas, onde estão famílias, estudantes e pessoas sem qualquer envolvimento em confusão.

O que vem em seguida

Arthur Cortines conseguiu atendimento naquela noite apenas porque correu no meio dos carros com outro torcedor do Vasco até encontrar a ambulância — que, mesmo sem autorização da base, acabou prestando socorro. O prognóstico para a visão do olho direito não foi divulgado publicamente até a publicação desta matéria. A Polícia Militar do Rio de Janeiro não confirmou nem negou o disparo.

O próximo clássico entre os dois clubes no Maracanã ainda não tem data definida no calendário do Brasileirão 2026. Mas o Vasco enfrenta o Audax Italiano já na próxima rodada da Copa Sul-Americana, viajando ao Chile com dez jogadores do sub-20 na lista de relacionados — o que diz muito sobre o momento do clube dentro de campo. Fora dele, o caso de Arthur Cortines precisa de resposta antes desse jogo, não depois. Ele tem 18 anos.