Três coisas aconteceram quase simultaneamente na noite de quarta-feira (13) no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul: Ferreirinha entrou em campo, desfechou um soco na nuca do zagueiro Rodrigo Sam e viu o cartão vermelho antes de completar um minuto jogando. Tudo isso em 33 segundos. O São Paulo perdeu por 3 a 1 para o Juventude, foi eliminado da Copa do Brasil e demitiu Roger Machado ainda naquela noite. A sequência não é coincidência — é sintoma.

O soco que o árbitro não perdeu

O árbitro Rodrigo José Pereira de Lima foi preciso na súmula enviada à CBF. Segundo o documento, Ferreirinha correu para pressionar Rodrigo Sam e desferiu um soco na nuca do adversário enquanto a bola estava fora de disputa. Cartão vermelho direto, aos 44 minutos do primeiro tempo. O zagueiro recebeu atendimento médico, mas permaneceu na partida.

Quem defende Ferreirinha argumenta que o lance foi involuntário, um descuido de quem acabara de entrar e ainda buscava ritmo. O problema com esse argumento é o próprio relato oficial: o árbitro descreveu um soco, não um cotovelo acidental, não um lance de bola dividida. A distinção importa juridicamente e esportivamente.

A conduta pós-expulsão agravou tudo. Segundo a súmula, após a confirmação do vermelho, o atacante proferiu ao árbitro:

"Vai tomar no seu c*, filho da p***, você é uma vergonha."

Esse conjunto — agressão física dentro de campo, xingamentos ao árbitro registrados em súmula — abre precedente para punição severa no Superior Tribunal de Justiça Desportiva. A questão não é se haverá julgamento, mas por quantas rodadas Ferreirinha ficará fora.

O colapso que não começou no Alfredo Jaconi

Há uma versão conveniente para o que aconteceu: o São Paulo vencia o confronto de ida, estava em posição confortável e um episódio isolado virou a chave. Essa leitura é incompleta. O clube chegou a Caxias do Sul com aproveitamento de 49% na temporada sob Roger Machado — número que, para um clube com a estrutura tricolor, equivale a andar na contramão numa rodovia federal.

A diferença entre o São Paulo que foi eliminado e um clube que realmente compete por títulos nacionais é do tamanho da distância entre Recife e Porto Alegre: visível no mapa, sentida no corpo, impossível de ignorar. Com um jogador a menos desde o final do primeiro tempo, o Juventude construiu o 3 a 1 sem ser pressionado de forma consistente. O problema não era numérico — era estrutural.

Os bastidores confirmaram o que o campo mostrou. O árbitro relatou na mesma súmula que, ao se dirigir ao vestiário no intervalo, foi abordado por dois dirigentes são-paulinos. Rui Costa, segundo o documento, disse: "Seu safado, tu está de sacanagem." Rafinha, ex-lateral e hoje dirigente, repetiu: "Tu não apita mais jogo do São Paulo, tu está de sacanagem." Os dois podem responder perante o STJD.

Roger Machado fora e Dorival no horizonte caro demais

A demissão de Roger Machado foi anunciada ainda na madrugada de quinta-feira (14), horas depois do apito final. O técnico havia assumido o clube com a missão de estabilizar o ambiente após uma sequência instável de resultados, mas entregou uma eliminação precoce em competição que o São Paulo tinha como prioritária na temporada.

O Juventude tratou o assunto com ironia nas redes sociais. A conta oficial do clube gaúcho publicou, logo após a classificação: "Fica tisti não, Roger Machado 😘". A provocação foi direta e calculada — e funcionou exatamente porque o São Paulo não tinha como responder com futebol.

O nome que circula internamente como substituto é Dorival Júnior. A lógica técnica faz sentido: o treinador tem histórico de reconstrução em clubes grandes, conhece o elenco tricolor e tem prestígio suficiente para reorganizar o vestiário. A lógica financeira, porém, complica. Segundo o jornalista Alexsander Vieira, setorista do clube, a avaliação interna é direta:

"Não dá para pagar o mesmo que ele recebia no Corinthians."

Isso significa que o São Paulo precisará convencer Dorival a aceitar um salário abaixo do que ele receberia em outros destinos, ao mesmo tempo em que entrega um projeto esportivo crível. Tarefa difícil para um clube que acaba de ser eliminado pela quinta fase da Copa do Brasil e viu seus próprios dirigentes xingarem o árbitro no corredor do Alfredo Jaconi.

O São Paulo volta ao Brasileirão no próximo final de semana sem técnico confirmado, sem Ferreirinha por prazo indefinido e com dois dirigentes sujeitos a punições desportivas. A primeira decisão prática da diretoria — fechar ou não o acordo com Dorival Júnior — deve ocorrer nos próximos dias, com o relógio do campeonato nacional já em movimento.