Todo mundo sabe que o jogo vai acontecer em Assunção. O que poucos pararam para pensar é o que significa um clube boliviano mandar uma partida da Libertadores no estádio de um rival paraguaio — e como essa imagem, tão comum na história turbulenta do futebol sul-americano, carrega dentro dela algo que vai muito além da logística.
El Alto nas ruas e a Conmebol sem alternativas
Os protestos que se espalharam pela Bolívia nas últimas semanas atingiram com força particular El Alto, a cidade natal do Always Ready. A Conmebol avaliou o ambiente e tomou a decisão que, historicamente, o órgão sempre tentou evitar ao máximo: retirar o mando de campo de uma equipe por razões de segurança pública. Não é a primeira vez que isso acontece no continente — quem acompanhou a Copa Libertadores de 2019 se lembra do caos que obrigou a final entre River Plate e Boca Juniors a ser disputada no Santiago Bernabéu, em Madrid, longe de qualquer cheiro de fumaça portenha. A diferença de escala é enorme, claro, mas o princípio é o mesmo: quando as ruas falam mais alto que os estádios, o futebol cede espaço e busca outra cidade.
O destino escolhido foi o Estádio Tigo La Huerta, em Assunção, casa habitual do Libertad. O palco tem capacidade para pouco mais de 15 mil torcedores e uma história razoável no futebol paraguaio, mas para o Always Ready representa uma espécie de exílio institucional: jogar em casa sem estar em casa, numa praça que não tem a altitude de El Alto nem a torcida que intimida visitantes com o ar rarefeito dos 4.150 metros. Quem já viu equipes europeias sofrerem na Bolívia sabe o quanto aquele fator geográfico vale — e o Always Ready perde exatamente isso nesta terça-feira.
O Always Ready que lidera na Bolívia mas afunda na Libertadores
Há uma contradição interessante no momento do clube boliviano: no Apertura nacional, a equipe de El Alto aparece na terceira colocação após sete rodadas, com 14 pontos, apenas três a menos que o líder The Strongest. No futebol doméstico, o time funciona. Na Libertadores, o cenário é outro: apenas três pontos em quatro jogos, a lanterna do Grupo G, sem vitória que justifique otimismo. Esse tipo de dissociação entre desempenho interno e continental não é novidade no futebol boliviano — o próprio Bolívar já viveu situações parecidas nos anos 2000, quando dominava o campeonato nacional mas desaparecia nas fases de grupos do torneio continental.
"Quando um clube perde o mando de campo por razões políticas, perde junto a única vantagem que conseguiu construir em décadas de jogar em altitude. O jogo muda de natureza, não só de endereço", observou um analista de futebol sul-americano em comentário recente sobre o caso boliviano.
O técnico Marcelo Straccia tem à disposição um time que inclui o argentino Triverio no ataque, ao lado de Amoroso e Maraude, mas precisará encontrar motivação num contexto adverso: jogar fora do país, sem torcida, num grupo onde a classificação para as oitavas parece matematicamente distante. A defesa, formada por Carlitos Rodriguez, Miranda, Rambal e Dieguito Rodriguez, terá pela frente um ataque do Mirassol que vem confiante.
O Mirassol que ninguém esperava liderar o Grupo G
Existe uma geração de torcedores paulistas que associa o Mirassol ao interior, ao campeonato estadual, a tardes de domingo com arquibancadas modestas e um futebol de sobrevivência. Ver o clube de São José do Rio Preto na liderança de um grupo da Libertadores, com nove pontos em quatro rodadas, é um daqueles fenômenos que o futebol sul-americano produz de tempos em tempos — como quando o Deportivo Quito chegou às quartas em 2009 ou quando o Estudiantes de Mérida surpreendeu no torneio no início dos anos 2010. Clubes periféricos que encontram, numa janela específica, a combinação certa de técnico, elenco e sorte no sorteio.
Rafael Guanaes montou um time equilibrado para esta partida: Walter no gol, uma linha defensiva com João Victor e Wanderson Machado no miolo, e Shaylon, Alesson e Edson Carioca no ataque. Uma vitória em Assunção garante matematicamente a classificação às oitavas, independentemente do resultado entre Lanús e LDU — as outras duas equipes do grupo, ambas com seis pontos. Segundo apuração do SportNavo, o clube vive uma dualidade curiosa: enquanto brilha na Libertadores, o Brasileirão desta temporada tem sido sofrido, com o time na penúltima colocação da Série A, com 13 pontos, a cinco do Santos, primeiro fora do Z4.
O que esta terça pode definir para os próximos meses do Mirassol
Há uma lógica histórica no futebol de que classificações antecipadas em fases de grupos liberam energia mental para o clube se concentrar em outras frentes. O Mirassol precisaria exatamente disso: resolver a Libertadores enquanto ainda há tempo de reorganizar a campanha no Brasileirão. Uma vitória em Assunção faz isso de uma tacada só — sela as oitavas e dá ao técnico Guanaes a tranquilidade de rodar o elenco nas últimas rodadas da fase de grupos sem pressão de resultado.
A partida entre Always Ready e Mirassol acontece nesta terça-feira, dia 19 de maio, às 19h (horário de Brasília), no Estádio Tigo La Huerta, em Assunção. A transmissão fica por conta do Paramount+. A arbitragem terá assistentes uruguaios, Pablo Llarena e Hector Bergalo, ao lado do árbitro principal. Se o Mirassol confirmar a classificação ainda nesta rodada, o confronto de volta, previsto para a sexta rodada, já terá outro peso — e talvez o Always Ready precise disputá-lo, novamente, longe de El Alto.









