A tarde de segunda-feira, 11 de maio, ainda era comum nas ruas do bairro Alvorada quando o chão tremeu. A fumaça subiu primeiro, depois vieram os escombros, os gritos e o cheiro acre de gás espalhando-se pelas ruas Floresto Bandecchi, Dr. Benedito de Moraes Leme e Rua Piraúba — três vias que, em questão de minutos, deixaram de ser passagem de bairro para se tornar o epicentro de uma das maiores emergências urbanas de São Paulo no ano. A vítima fatal identificada foi Alex Sandro, 49 anos, morador de uma das residências atingidas, que não resistiu ao impacto da explosão.

O que aconteceu antes do estrondo no Jaguaré

A sequência de eventos que levou à tragédia tem origem em uma obra de infraestrutura urbana. Equipes da Sabesp realizavam serviços na região quando, durante a escavação, uma tubulação de gás natural da Comgás foi perfurada acidentalmente. O GLP — gás liquefeito de petróleo — vazou sob pressão e encontrou uma fonte de ignição, desencadeando a explosão que destruiu uma casa e atingiu outras 45 residências no entorno imediato. A capitão do Corpo de Bombeiros Karoline Burunsizian confirmou a versão: a perfuração da tubulação durante a obra da Sabesp foi a causa direta do acidente, corrigindo uma informação inicial da Polícia Militar que apontava genericamente para uma falha da Comgás.

Em nota conjunta, as duas empresas reconheceram o ocorrido e assumiram posição pública de solidariedade.

"A Comgás e a Sabesp lamentam profundamente a morte de um morador e se solidarizam com seus familiares e demais vítimas da explosão ocorrida nesta tarde no bairro do Jaguaré. As empresas estão prestando assistência às vítimas, moradores e demais pessoas impactadas na área afetada."

A nota, embora institucional no tom, sinaliza que ambas as companhias reconhecem sua responsabilidade operacional no episódio — o que tende a ter desdobramentos administrativos e judiciais nas próximas semanas.

Quinze viaturas, cães farejadores e uma corrida contra o tempo

A resposta emergencial foi imediata e de grande escala. O Governo do Estado de São Paulo mobilizou 15 viaturas do Corpo de Bombeiros, seis equipes da Defesa Civil e contingentes da Polícia Militar para as operações de resgate e salvamento. O SAMU também atuou no atendimento às vítimas, ao lado das próprias equipes dos Bombeiros. Três pessoas ficaram feridas: um funcionário da Sabesp, socorrido por populares que estavam no local no momento da explosão, e dois moradores, atendidos pelo SAMU e pelos Bombeiros. Duas dessas vítimas foram internadas e seguiam recebendo atendimento médico até o fechamento desta reportagem.

As buscas nos escombros foram conduzidas com auxílio de cães farejadores, metodologia padrão em colapsos estruturais urbanos, para garantir que nenhum morador permanecesse soterrado. Após varredura completa, o Corpo de Bombeiros encerrou formalmente as buscas e liberou o local, confirmando o paradeiro de todos os residentes das casas atingidas. A área permaneceu isolada para preservar a segurança da população e permitir a continuidade das perícias técnicas.

Como as 160 pessoas afetadas estão sendo assistidas

O número de impactados pelo acidente chegou a 160 pessoas, distribuídas entre as 46 residências afetadas — algumas destruídas, outras com danos estruturais que as tornam inabitáveis temporariamente. A assistência organizada pelas empresas envolvidas e pelo poder público prevê atendimento médico e psicológico para os desalojados, conforme confirmado pela nota conjunta da Comgás e da Sabesp. O suporte psicológico é especialmente relevante em casos como este, onde moradores perdem não apenas bens materiais, mas a sensação básica de segurança no próprio lar.

A Defesa Civil, com suas seis equipes no local, tem papel central na avaliação dos imóveis atingidos — é ela quem determina quais residências podem ser reocupadas e quais precisam de interdição preventiva. Esse processo de vistoria costuma se estender por dias, mantendo famílias em situação de vulnerabilidade por tempo indeterminado após o evento inicial. A região oeste de São Paulo já havia registrado episódios anteriores de acidentes com redes de gás em obras urbanas, o que coloca em pauta a necessidade de protocolos mais rigorosos de mapeamento de interferências subterrâneas antes de qualquer escavação em áreas densamente habitadas.

As causas formais do acidente seguem sob apuração pelas autoridades competentes, e a responsabilização civil e criminal dependerá das conclusões do inquérito policial e do laudo técnico pericial. A Comgás e a Sabesp já sinalizaram cooperação com as investigações — postura que, historicamente em casos semelhantes no Brasil, antecede negociações de indenização com as famílias afetadas.

O bairro Alvorada acorda nesta quarta-feira, 13 de maio, com ruas ainda isoladas e famílias aguardando o laudo da Defesa Civil para saber se poderão voltar para casa — a investigação formal sobre a perfuração da tubulação deve ser concluída nas próximas semanas, mas o prazo para que as 46 famílias retomem a rotina depende de cada vistoria individual, uma a uma.