Todo mundo já sabe que os EUA vão sediar a maior Copa do Mundo da história. O que ninguém está calculando direito é a escala do que isso significa — e por que US$ 625 milhões aprovados pelo Senado são apenas o primeiro capítulo de uma equação muito mais complexa.

A verba recorde e o que ela realmente cobre

Na última terça-feira, o Senado dos Estados Unidos aprovou, dentro de um pacote legislativo mais amplo ligado à agenda interna do governo Donald Trump, o financiamento de US$ 625 milhões destinados à segurança da Copa do Mundo 2026. O projeto ainda precisa passar pela Câmara dos Representantes antes de chegar à mesa de Trump para assinatura, mas o sinal político já foi dado — e ele não é pequeno. Para se ter noção do contexto, o mesmo pacote reservou US$ 500 milhões para capacidade de monitoramento de drones e outros US$ 1 bilhão para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. Ou seja, o torneio de futebol está sendo tratado, em termos orçamentários federais, no mesmo patamar que os Jogos.

A porta-voz do Departamento de Estado americano, Amanda Roberson, foi precisa ao contextualizar o repasse:

"A Fifa tem um programa de subsídios destinado às cidades-sede. São US$ 625 milhões para auxiliar autoridades locais com segurança, planejamento e outros custos relacionados à Copa do Mundo."
A distinção importa. Esses recursos não vêm de uma dotação federal clássica para infraestrutura — eles respondem a uma demanda expressa pelos próprios comitês organizadores das 11 cidades-sede americanas, que mapearam seus custos reais de operação e encaminharam a conta ao governo central. Atlanta, Seattle, Nova York, Dallas, Los Angeles e as outras seis cidades terão de gerir pessoal, equipamentos e perímetros de segurança nos estádios e nas zonas de acesso, e é para isso que o dinheiro serve.

Sete milhões de turistas e o peso histórico do número

Para quem acompanhou as Copas europeias das décadas de 1990 e 2000, o fluxo esperado de 5 a 7 milhões de turistas internacionais em 39 dias soa como ficção científica. A Copa da França em 1998 — considerada modelo de organização até hoje — recebeu aproximadamente 2,7 milhões de visitantes estrangeiros. A Alemanha 2006, que entrou para a história como a Copa da boa vontade e da hospitalidade teutônica, atraiu algo em torno de 3,2 milhões. O salto projetado para 2026 não é incremental; é de outra ordem de grandeza, explicado por três fatores combinados: o torneio cresceu de 32 para 48 seleções, o número de partidas subiu para 104 e o território sede é, literalmente, continental.

O Departamento de Estado projeta que esse fluxo humano injete US$ 17,2 bilhões na economia americana — cifra que, segundo Roberson, inclui hotelaria, transporte, alimentação e turismo interno, com torcedores que devem combinar os jogos com visitas a parques nacionais e atrações regionais. Um levantamento setorial registrado pelo portal SportNavo aponta que apenas os gastos diretos de visitantes em território americano podem chegar a US$ 556 milhões, com alimentação e bebidas respondendo por 50% desse total — cerca de US$ 280 milhões. A hospedagem virá em segundo lugar, com US$ 181 milhões, e o transporte fecharia a conta com US$ 95 milhões.

A lição que Atlanta 1996 e Los Angeles 1994 deixaram de herança

Os americanos já passaram por isso antes — e aprenderam da forma mais dura. A Copa de 1994, sediada nos EUA com jogos no Rose Bowl de Los Angeles, no Giants Stadium de Nova Jersey e em outros sete estádios, foi um experimento logístico que funcionou melhor do que qualquer europeu apostava. O futebol não era esporte popular nos EUA, mas o torneio bateu recordes de público que resistiram por décadas. O problema apareceu depois: a infraestrutura de transporte urbano em cidades como Detroit e Boston mostrou que estádio cheio não significa cidade preparada. Dois anos depois, Atlanta 1996 repetiu o padrão nas Olimpíadas — caos no sistema de credenciamento, falhas no transporte entre venues e, no pior dos cenários, o atentado na Centennial Olympic Park.

Quem não tem cão caça com gato — e os americanos de 2026 estão usando exatamente essa lógica ao combinar verba federal, tecnologia de drones e coordenação entre 11 cidades para montar um aparato de segurança que não existia em 1994. A questão não é se o dinheiro vai chegar; o Senado acabou de garantir isso. A questão é se as cidades conseguirão absorver a escala do evento sem que o gargalo apareça onde menos se espera: nas filas de imigração dos aeroportos, na capacidade hoteleira de cidades médias como Kansas City e Cincinnati, ou no próprio processo de visto para os torcedores internacionais.

Roberson foi direta ao desmontar a expectativa de flexibilização migratória que circulava entre organizadores sul-americanos:

"Todas as pessoas ainda têm que cumprir com todos os nossos requisitos da nossa lei de imigração para poder se qualificar e receber o seu visto americano. Todas as nossas regras e os nossos procedimentos de segurança vão ficar em lugar em 100% durante a Copa do Mundo."
O Fifa Pass, mecanismo criado para agilizar o agendamento consular de torcedores com ingresso em mãos, acelera a fila — mas não muda as regras do jogo.

O que East Rutherford, a Fifa e o calendário revelam sobre o que vem a seguir

A final está marcada para 19 de julho de 2026 no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey — o maior estádio do torneio e o que concentra a maior expectativa de receita direta, estimada em US$ 67 milhões só em gastos de visitantes. A cidade-sede da grande decisão lidera o ranking das 11 sedes americanas justamente pela combinação de capacidade, proximidade com Nova York e densidade de infraestrutura hoteleira e de transporte. Inglewood (US$ 59 milhões), Arlington (US$ 58 milhões), Atlanta (US$ 52 milhões) e Seattle (US$ 51 milhões) completam o top 5 que deve concentrar 52% de todo o volume financeiro do torneio em solo americano.

A Fifa, por sua vez, elevou o prêmio total da Copa de US$ 727 milhões para US$ 871 milhões — 50% acima dos valores pagos no Catar em 2022. O campeão embolsará US$ 50 milhões, e cada seleção classificada já recebe US$ 10 milhões apenas por estar no torneio. Gianni Infantino resumiu o momento da entidade com a precisão de quem sabe que o vento está a favor:

"A Fifa se orgulha de estar na posição financeira mais sólida de sua história, o que nos permite auxiliar todas as nossas associações-membro de uma maneira sem precedentes."
O torneio começa em 11 de junho de 2027 — não, corrijo: em 11 de junho de 2026, com a abertura prevista para o México City, e a primeira partida em solo americano logo na sequência. Até lá, a Câmara dos Representantes precisa ratificar os US$ 625 milhões aprovados pelo Senado, transformando a promessa em dotação real para as cidades que, neste momento, ainda estão tentando entender o tamanho do que aceitaram sediar.

Todo mundo já sabe que os EUA vão sediar a maior Copa do Mundo da história. O que ainda não está calculado é se essa história vai ser contada como triunfo — ou como advertência.