O que, afinal, configura uma falta na disputa de bola segundo o regulamento da Fifa — e por que essa definição parece mudar conforme o fuso horário do jogo? Aos 21 minutos do primeiro tempo no Hard Rock Stadium, em Miami, Vinicius Júnior pressionou a saída de bola da Escócia, tomou a posse de Jack Hendry na entrada da área, avançou sozinho e finalizou rasteiro na saída do goleiro Angus Gunn. O árbitro César Ramos, do México, validou o gol em campo. A torcida verde-amarela nas arquibancadas explodiu.

O que veio a seguir transformou um momento de alegria em três minutos de confusão e indignação coletiva. O VAR recomendou revisão. Ramos foi ao monitor. Aos 24 minutos, o gol estava anulado — e o árbitro, segundo relatos do próprio jogo, não conseguiu ser claro ao explicar a decisão para jogadores e comissão técnica presentes no gramado.

O que o regulamento da Fifa diz sobre o VAR e disputas de bola

O protocolo VAR da Fifa, adotado em sua forma atual desde a Copa da Rússia em 2018 e aprimorado para o Catar em 2022, estabelece que o sistema só pode intervir em quatro categorias de lance: gols e irregularidades anteriores, pênaltis, cartões vermelhos diretos e erros de identidade. Dentro dessas categorias, a intervenção só é justificada quando há um erro claro e óbvio — terminologia técnica que consta no documento oficial do International Football Association Board (IFAB), o órgão que legisla as regras do futebol.

Esse é exatamente o ponto central do protesto da Seleção Brasileira. O presidente da CBF, Samir Xaud, assinou documento endereçado a Gianni Infantino, presidente da Fifa, argumentando que o VAR deve ser acionado apenas em erros claros da arbitragem de campo — e que o lance de Vini Jr com Hendry não se enquadrava nessa definição. A reclamação foi confirmada pelo ge.globo.com e divulgada inicialmente pela Folha de S. Paulo.

A distinção entre falta e disputa de bola é uma das mais subjetivas do futebol. Quando um jogador usa o corpo para proteger a bola ou antecipar o adversário, o árbitro precisa julgar se houve empurrão, carrinhos ou uso ilegal do braço — ou se foi simplesmente agilidade e posicionamento. No lance em questão, as imagens mostraram Vini Jr chegando antes de Hendry e usando o corpo para completar a jogada.

A inconsistência histórica do VAR em disputas físicas na Copa do Mundo

Quem acompanha Copas do Mundo desde a implantação do VAR sabe que a tecnologia nunca resolveu o problema da subjetividade — apenas o deslocou do campo para a sala de vídeo. Na Copa de 2018, na Rússia, o sistema foi acionado 335 vezes em 64 jogos, resultando em 20 decisões revertidas. Em 2022, no Catar, houve ao menos três episódios em que lances físicos semelhantes ao de Vini Jr foram tratados de maneiras distintas por árbitros diferentes, sem que a Fifa oferecesse explicação pública consistente.

O que para o árbitro sul-americano é contato normal de jogo, para o árbitro europeu pode ser falta — e vice-versa. Essa assimetria cultural de interpretação, documentada em estudos do IFAB publicados entre 2019 e 2023, é um dos maiores problemas não resolvidos do protocolo VAR. A Copa de 2026, com 48 seleções e 104 jogos, amplifica esse risco geometricamente.

Carlo Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira, ficou visivelmente enfurecido após a decisão, segundo registros fotográficos e relatos do ge.globo.com. A reação do treinador italiano, que dirigiu times em cinco ligas europeias diferentes e conhece bem as variações de interpretação arbitral, reforça a percepção de que o lance não era de anulação óbvia.

"O VAR deve ser utilizado apenas em lances de erros claros da arbitragem de campo", afirmou Samir Xaud, presidente da CBF, em documento oficial enviado a Gianni Infantino.

O gol anulado e o efeito sobre a artilharia de Vini Jr na Copa

Vinicius Júnior havia marcado o primeiro gol do Brasil contra a Escócia antes dos 7 minutos, e o gol anulado teria sido o seu quarto na Copa do Mundo de 2026 — o que o colocaria na briga pela artilharia do torneio naquele momento. Para efeito de comparação histórica, Ronaldo Fenômeno terminou a Copa de 2002 com 8 gols em 7 jogos, média de 1,14 por partida. Romário, em 1994, marcou 5 gols em 7 jogos. Vini Jr, com 3 gols confirmados em 2 partidas até aqui, projeta números que não se viam no futebol brasileiro em Mundiais desde aquela geração.

O atacante, porém, respondeu dentro de campo. Mesmo sem o gol anulado, chegou ao seu terceiro na competição ainda no jogo contra a Escócia, e o Brasil venceu por 3 a 0. O resultado não apaga a polêmica arbitral — e a CBF entendeu que deixar passar sem registro formal seria um precedente perigoso para os jogos seguintes.

"PC de Oliveira diz que segundo gol de Vini Jr foi mal anulado", conforme legenda publicada pelo ge.globo.com, referindo-se à análise do árbitro FIFA brasileiro.

O protesto da CBF e o que a Fifa pode fazer a partir de agora

Protestos formais à Fifa durante Copas do Mundo têm histórico longo e resultado quase sempre nulo em termos de reversão de decisões — as regras do jogo não permitem alterar resultados por reclamação posterior. O que a CBF busca, tecnicamente, é criar um registro oficial que possa influenciar a designação de árbitros para os próximos jogos do Brasil. A entidade sugeriu expressamente que César Ramos não apite mais partidas da Seleção.

Igor Vinicius (Santos)
Igor Vinicius (Santos)

A Fifa, por sua vez, tem mecanismo de avaliação contínua de árbitros durante o torneio — o desempenho em cada jogo é analisado pelo comitê de arbitragem, e designações futuras levam esses relatórios em conta. Se o documento da CBF for considerado procedente internamente, Ramos pode ser afastado dos jogos brasileiros sem que isso precise ser anunciado publicamente.

O Brasil volta a campo na segunda-feira, dia 29 de junho, contra o Japão, às 14h (horário de Brasília), em Houston. O jogo é pela segunda fase da Copa do Mundo de 2026, e a pressão sobre a arbitragem escalada para essa partida já começou a ser monitorada pela comissão técnica brasileira desde a quinta-feira.