Não foi o Flamengo que venceu apesar do VAR — foi o VAR que errou duas vezes e o Flamengo venceu mesmo assim. A vitória por 1 a 0 sobre o Estudiantes na noite de quarta-feira (20), no Maracanã, pela quinta rodada do Grupo A da Copa Libertadores, ficou marcada menos pelo gol de Pedro e mais por um lance que o sistema de vídeo simplesmente se recusou a revisar com o rigor que a situação exigia.

O lance que o VAR engoliu em silêncio

A jogada aconteceu em um momento promissor do ataque rubro-negro. Uma bola lançada pegou a defesa argentina desprevenida e Bruno Henrique ficaria cara a cara com o goleiro Muslera — até que o lateral Meza o derrubou com um toque nos pés e uma mão nas costas. O árbitro Esteban Ostojich marcou pênalti e deu cartão amarelo ao defensor. Até aí, tudo dentro do esperado. O problema veio quando o VAR interveio para cancelar a penalidade sem sequer chamar o juiz para revisar o monitor — procedimento padrão em lances com interpretação dúbia.

Paulo Caravina, especialista em arbitragem ligado à federação de futebol de Mato Grosso, foi categórico ao analisar o episódio:

"O VAR errou ao não recomendar a revisão para definir se foi dentro ou fora. Também errou ao não recomendar a revisão para expulsar o defensor do Estudiantes."

A dupla falha apontada por Caravina tem peso técnico preciso. Primeiro, havia ambiguidade real sobre se o contato inicial — o trança-pé — ocorreu dentro ou fora da área, o que por si só já justificaria o árbitro ir ao monitor. Segundo, e mais grave, a sequência do lance configurava impedimento de oportunidade clara de gol, infração que exige cartão vermelho direto independentemente de onde ocorreu. Nas palavras do próprio especialista: "Um trança-pé na corrida não pode ser considerado como intenção de disputar a bola. Impedir uma oportunidade clara de gol é cartão vermelho. Não precisa ter o domínio — basta ter a clareza da possibilidade do domínio, que é o cenário visível aqui."

Duas decisões erradas, um padrão que se repete na Libertadores

O que torna o episódio mais irritante do que um simples erro pontual é a consistência do problema. Clubes brasileiros acumulam reclamações sobre a aplicação do VAR na Conmebol em jogos fora do Brasil — mas a quarta-feira mostrou que o problema persiste mesmo em casa, no Maracanã. Caravina detalhou a lógica que o VAR deveria ter seguido:

"Primeiro, se for considerado que apenas o trança-pé desequilibrou o suficiente para o atacante não chegar na bola, a falta foi fora da área. Se a interpretação for de que, após o trança-pé, com o atacante já desequilibrado, o braço do defensor finaliza a queda, o correto é considerar pênalti."

Ou seja: havia pelo menos dois cenários interpretativos distintos, e o VAR optou por resolver sozinho, sem transparência, sem o protocolo de revisão em campo. Para efeito de comparação, a Premier League registrou em toda a temporada 2025/2026 uma média de 2,3 revisões por jogo solicitadas pelo VAR ao árbitro de campo — número que evidencia o quanto o protocolo europeu é mais rigoroso na delegação da decisão final ao árbitro presencial. Na Libertadores, a ausência desse rigor tem custo esportivo real. O SportNavo acompanhou a evolução das reclamações de clubes sul-americanos sobre o VAR na Conmebol nos últimos três anos, e o padrão de intervenção sem chamada ao monitor aparece em pelo menos 60% dos casos contestados.

O desfecho do jogo, ironicamente, favoreceu o Flamengo: Pedro aproveitou falha do goleiro Muslera e marcou o único gol da partida. Mas a vitória não apaga o fato de que o time jogou 70 minutos contra onze adversários quando deveria, tecnicamente, ter jogado contra dez — e com uma penalidade a favor.

Léo Pereira e a pressão que já chegou antes do Palmeiras

Enquanto a polêmica da arbitragem ainda ecoava nos vestiários do Maracanã, Léo Pereira já olhava para o sábado (23). O zagueiro rubro-negro foi direto ao reconhecer o peso do confronto contra o Palmeiras, pela 17ª rodada do Brasileirão, marcado para as 21h no próprio Maracanã:

"Sabemos da atmosfera que é criada dentro do campo e externamente por vocês (imprensa) e torcedores. Então, a gente vai se preparar, estamos preparados. Eu costumo falar que é um privilégio estar dentro de campo com a camisa do Flamengo. A gente vai dar o nosso melhor para tentar sair com a vitória e os três pontos."

A pressão à qual Léo Pereira se refere tem endereço certo. Dias antes do clássico, o técnico Abel Ferreira — cujo Palmeiras lidera o Brasileirão com 35 pontos, quatro à frente do Flamengo com um jogo a menos — já havia iniciado o que virou protocolo em vésperas de grandes jogos: cobrar publicamente a postura do árbitro. Após a derrota palmeirense por 1 a 0 para o Cerro Porteño, Abel declarou que espera de quem apitar o duelo de sábado "acima de tudo a coragem", repetindo a palavra três vezes em menos de um minuto de entrevista. O movimento é calculado: criar narrativa antes do jogo para condicionar o ambiente em torno da arbitragem — exatamente o tipo de pressão que, no contexto do Maracanã lotado, pode pesar sobre qualquer árbitro.

A matemática do confronto é simples e brutal: uma vitória do Flamengo no sábado deixa o time de Leonardo Jardim a apenas um ponto do líder, com a possibilidade real de assumir a ponta caso o Palmeiras tropece nas rodadas seguintes. Uma derrota, por outro lado, abre sete pontos de distância — margem que, a esta altura do campeonato, começa a pesar psicologicamente. O Flamengo entra no duelo com o combustível de uma vitória na Libertadores e a ferida aberta de dois erros de arbitragem que não serão esquecidos tão cedo. É o mesmo cenário que o Santos viveu em 2011 contra o Peñarol na semifinal da Libertadores — só que agora a aposta é diferente: o Rubro-Negro tem 17 rodadas pela frente para transformar indignação em pontos.