Não, o problema do Vasco não é falta de talento. A questão que Renato Gaúcho enfrenta neste início de temporada é outra, mais sutil e mais perigosa: como manter o nível competitivo quando parte do elenco entende que a vantagem no placar é sinal de que o jogo acabou. Dois episódios recentes, em competições distintas, expõem esse dilema com clareza brutal.

O vestiário antes do campo — o que Renato viu nos treinos e nas escolhas

A decisão de poupar titulares para o segundo jogo da quinta fase da Copa do Brasil contra o Paysandu era razoável. O Vasco havia vencido por 2 a 0 em Belém, construindo uma vantagem confortável no agregado. Renato, então, escalou atletas com menos minutagem, entre eles o colombiano Marino Hinestroza, contratação do início do ano que ainda não havia encontrado seu melhor futebol no clube. O técnico havia prometido paciência com o atacante — e a aposta se justificou: Hinestroza sofreu o pênalti convertido por Johan Rojas e deu a assistência para o gol de Thiago Mendes, colocando o Vasco em 2 a 0 no tempo normal e 4 a 0 no agregado.

SÃO PAULO ELIMINADO E ROGER DEMITIDO; SANTOS CLASSIFICADO | De Placa 14/05/25
"Tenho conversado com o Marino, dado conselhos, lapidado... Hoje foi a melhor atuação dele no Vasco e torço para que volte a jogar o futebol que jogou na Colômbia. Aos poucos, ele vai readquirindo aquele futebol", afirmou Renato Gaúcho após a partida.

O cenário parecia perfeito para uma noite tranquila em São Januário. Brenner, porém, perdeu duas chances claras dentro da área, e o Vasco não ampliou quando tinha domínio absoluto. A vantagem de quatro gols no agregado produziu no grupo exatamente o que Renato temia: acomodação. O Paysandu buscou o empate em 2 a 2, transformando uma classificação que poderia ter sido cirúrgica num tropeço gerenciável, mas desnecessário.

O que o Mineirão revelou sobre a instabilidade vascaína

Três dias antes da Copa do Brasil, o Vasco havia protagonizado um dos jogos mais esquizofrênicos da sexta rodada do Campeonato Brasileiro. No Mineirão, diante do Cruzeiro, o time carioca foi para o intervalo perdendo, voltou transformado no segundo tempo, virou para 3 a 1 com dois gols do volante Barros — e então assistiu ao próprio jogo desmoronar em sequência. O lateral Cuiabano, uma das principais contratações da temporada, foi peça central na virada: cruzou para Barros empatar e gerou o rebote do segundo gol com uma cabeçada. Sete minutos depois de marcar dois gols, o mesmo Barros foi expulso de forma infantil, em lance que, segundo o próprio Renato, repetiu o comportamento que já havia custado uma expulsão no clássico contra o Flamengo no Carioca.

"Ainda é um garoto", disse Renato Gaúcho ao justificar a expulsão de Barros, reconhecendo que a punição foi justa.

Com dez homens, o Vasco perdeu o controle do segundo tempo. O Cruzeiro buscou o empate nos acréscimos e transformou o que seria a segunda vitória de Renato no Brasileirão em um ponto dividido. O placar final de 3 a 3 é um retrato fiel da instabilidade que o SportNavo tem acompanhado neste início de trabalho do treinador gaúcho: lampejos de qualidade interrompidos por erros de concentração ou disciplina.

A mesa de decisão — como Renato equilibra rodízio e cobrança

O problema tático de Renato Gaúcho é claro: ele precisa rodar o elenco para manter atletas em ritmo de jogo e evitar desgaste físico numa temporada com Brasileirão, Copa do Brasil e demais compromissos. O rodízio funciona — Hinestroza aproveitou a chance, Cuiabano se firmou como titular, jogadores contestados ganharam confiança. Mas o mesmo rodízio produz um efeito colateral que o técnico não consegue controlar apenas na prancheta: grupos distintos de jogadores desenvolvem leituras diferentes do momento do jogo, e a comunicação entre eles em campo fica comprometida.

A crítica pública de Renato após o empate com o Paysandu foi direta. Ele não poupou palavras ao identificar o relaxamento como causa do susto, numa postura que sinaliza que o treinador não pretende tolerar o comportamento mesmo quando o resultado final é positivo. A classificação às oitavas de final da Copa do Brasil está garantida, e o ponto no Mineirão contra o Cruzeiro tem valor real numa tabela do Brasileirão 2026 em que o Vasco ainda busca consistência. Mas Renato sabe que a margem para erros desse tipo diminui à medida que os adversários ficam mais qualificados.

O Vasco volta a campo pelo Brasileirão no próximo fim de semana, e a pergunta que fica é concreta: se Barros for suspenso por mais rodadas por acúmulo, quem Renato escala no meio-campo para manter a intensidade que transformou o segundo tempo no Mineirão?