Os números já estavam na mesa quando ficou claro que a venda de Álvaro Montoro, por maior que seja, não resolve o passivo do Botafogo. O argentino de 19 anos é projetado como ativo de €25 a €30 milhões na janela de julho — e ainda assim representa menos da metade do saldo de €35 milhões que o clube alvinegro acredita ter a receber do Lyon na disputa societária com John Textor.
O que mudou
Até o início de abril, Montoro era tratado internamente como venda de médio prazo. O cenário mudou quando a Justiça do Rio de Janeiro, em 29 de abril, proibiu o Botafogo de negociar atletas — medida que expôs a urgência do clube em liquidar ativos. A decisão judicial surgiu no mesmo período em que circularam informações de que Danilo e Montoro seriam transferidos ao Nottingham Forest por cerca de €35 milhões, com o Glorioso retendo apenas €8 milhões após o abatimento de dívida.

Textor negou publicamente qualquer acordo nessa janela.
"A ideia de que nós deixaríamos esses jogadores saírem nesta janela de transferências é absolutamente falsa. Eu não vou assinar uma venda que libere os jogadores neste momento", declarou o empresário em entrevista à Botafogo TV.
Mesmo assim, o próprio Textor sinalizou abertura para modelos do tipo Endrick e Estêvão — venda com permanência temporária no clube.
"Qualquer proposta com um bom valor, que nos permite manter o atleta no time, jogando pelo clube, da mesma maneira que aconteceu com Endrick e Estêvão — essas são boas situações, e sempre estamos abertos a boas situações", acrescentou.
Por que agora
O CIES Football Observatory publicou, em dezembro de 2025, estudo projetando valorização de €6,4 milhões no valor de mercado de Montoro nos seis meses seguintes — passando de €26,4 milhões para €32,8 milhões, crescimento de 24%. O Botafogo pagou €7,9 milhões ao Vélez Sarsfield em junho de 2025, o que significa que uma venda a €30 milhões representaria ROI de aproximadamente 280% em menos de dois anos de ativo.
Apesar do retorno expressivo, a análise do SportNavo mostra que o valor não resolve o nó financeiro central. O Botafogo social negocia com a Ares Management — principal credora da Eagle Football Holdings — um acordo estruturado em duas parcelas: €20 milhões pagos diretamente pela Ares (desconto sobre os €35 milhões que Textor alega ter enviado ao Lyon) e uma garantia adicional de €25 a €30 milhões atrelada à venda de Montoro, totalizando o pacote de €45 a €50 milhões. Em outras palavras, Montoro já está precificado dentro do acordo societário — não é receita adicional para o clube.
Palmeiras, Cruzeiro e Flamengo monitoram o jogador no mercado doméstico, mas a diretoria alvinegra prioriza destino europeu. Há ainda uma restrição operacional relevante: Montoro disputou 10 partidas pelo Brasileirão 2026 — o limite regulamentar para transferência entre clubes brasileiros na mesma temporada é de 12 jogos. Uma venda interna, portanto, exige que o jogador não ultrapasse essa marca.
A comparação histórica mais próxima é a do próprio Botafogo com Luiz Henrique, vendido ao Zenit por €35 milhões — maior transferência da história do clube até aqui. Em 2023, o dinheiro daquela operação também foi absorvido por obrigações financeiras preexistentes, sem gerar folga real no caixa operacional. O padrão se repete.
O que vem em seguida
A próxima janela de transferências abre em 20 de julho, coincidindo com a paralisação do Brasileirão para a Copa do Mundo. O staff de Montoro já mantém conversas com clubes europeus, mas até o fechamento desta reportagem nenhuma proposta formal havia chegado ao Botafogo.
O impasse judicial complica o calendário. Com a Justiça travando negociações, qualquer venda depende de decisão liminar ou acordo homologado antes da abertura da janela. O cenário mais provável, segundo o modelo descrito pelo jornalista Bernardo Gentile, é que a venda de Montoro integre o acordo com a Ares como garantia — e não como entrada de caixa imediata para o clube.
Danilo, projetado entre €35 e €40 milhões, compõe o outro lado da equação. Juntos, os dois atletas poderiam render até €70 milhões — valor suficiente para cobrir o saldo líquido disputado com o Lyon e ainda gerar margem. O problema é que Textor sinalizou intenção de manter percentual alto sobre os direitos econômicos de Montoro mesmo após eventual saída, o que reduz o valor líquido recebido pelo Botafogo em qualquer transação.
É o mesmo cenário que o Grêmio viveu em 2012, quando vendeu Hernán Barcos e Elano para cobrir dívidas acumuladas e descobriu que os recursos foram integralmente absorvidos por passivos antigos — só que agora a aposta é uma joia de 19 anos avaliada em €32,8 milhões cujo destino já está parcialmente hipotecado em uma negociação societária.








